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quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Gestão sem limites

Gestão é tudo (SQN)*


Daniel Roedel**

No Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, é comum utilizarmos ao final de uma afirmação a expressão “só que não” (SQN). Trata-se de uma ironia que nega a certeza anterior e cria uma piada. Utilizei a expressão no título para abordar o tema da gestão que desde há alguns anos saiu dos estudos e debates da academia e das ações empresariais e entrou no cotidiano das pessoas em diversas localidades. Continue a ler

*Publicado em Blogue Shift

**pós-doutorando no ISEG da Universidade de Lisboa, doutor em Políticas Públicas e Formação Humana e bacharel em Administração

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Pessoas, ambiente e economia

Dívida Pública e os limites da Sustentabilidade Socioambiental



Assista aqui a apresentação do tema no II Congresso Virtual Brasileiro de Recursos Humanos Sustentáveis e I Congresso Virtual Internacional de Recursos Humanos Sustentáveis, realizada no dia 25 de novembro de 2021.

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Taba TV

Tradição que oprime


Programa FALOU e DISSE, da TabaTV, entrevista o historiador HIRAN ROEDEL, sobre o seu mais recente livro: “Trabalho e Alienação – tradição que oprime.” O programa será na sexta-feira, dia 6 de agosto, às 15h (horário do Rio de Janeiro).

Acompanhe aqui

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Semana da Interculturalidade EAPN – European Antipoverty Network

Interseccionalidade: Raça/Etnia, Classe e Gênero
“Olhares e historias plurais no feminino”

Simone Amorim*


O Coletivo AFREKETÊ de pesquisadoras independentes em Ciências Sociais, produz pesquisas sob os paradigmas feminista, decolonial, antirracista e anticapitalista. No momento desenvolvem a pesquisa “Trabalho, Gênero e Crise: um retrato do trabalho de mulheres negras na Área Metropolitana do Porto no período da pandemia da Covid-19”, que tem como objetivo analisar os impactos do trabalho na vida de mulheres negras residentes na Área Metropolitana do Porto durante a pandemia da COVID-19. Nos queremos saber como se interseccionam gênero e etnia em relação ao trabalho no período de crise.

Convidadas a participarem do evento anualmente desenvolvido pela EAPN, em Portugal, expuseram as suas ideias sobre as bases conceituais que orientam a sua atividade.

EAPN - Qual é o caminho a percorrer em Portugal no que diz respeito à criação e/ou aperfeiçoamento de mecanismos de inclusão social, especificamente para a inclusão da mulher negra?

AFREKETÊ - Pra começar, um debate político e acadêmico aprofundado, direto e que nomeia claramente os problemas é importante. Fazer o que viemos fazer aqui hoje, falar de mecanismos que continuam prolongando uma realidade desigual e que tem impedido a que as mulheres racializadas tenham oportunidades de escolhas no presente e nas suas projeções futuras, fazer isso na política institucionalizada, na academia e na mídia. Manter essa pauta até que essa realidade seja alterada

Nós nos reunimos nesse coletivo justamente para tensionar uma a ideia positivista de objetividade absoluta do conhecimento e de que a pesquisa engajada não é ciência é politica, ativismo ou qualquer outra coisa, isso é uma forma de colonização discursiva (C. Mohanty), uma violência epistêmica (G. Spivak) e nós no AFREKETÊ procuramos fazer pesquisa que tenha alcance público, no sentido político dessa palavra

É importante historicizar o termo para não sermos capturadas pela perspectiva liberal. É preciso pensar a inclusão social de mulheres negras a partir delas: ouvir o que elas têm a dizer. Ter mulheres negras na Assembleia da República é um avanço sem dúvida, mas é ainda insuficiente, devemos estar em outras instâncias de poder, mas é um avanço. Interseccionalidade (K. Crenshaw), Matriz de Dominação (P. Hill Collins), Consubstancialidade (M. Lugones) da colonialidade do poder/ser/saber ou outras denominações a partir das quais a questão é tratada, não é “one fits all”, estamos fazendo um exercício epistemológico sobre um sujeito politico especifico: a mulher racializada e a singularidade da opressão que incide sobre ela. É muito importante não perder isso de vista.

Numa sociedade como a portuguesa, onde é vetada a produção de dados étnico raciais, não podemos perder essa dimensão estratégica, sob pena de perdermos a força dessa formulação no quadro de uma perspectiva radical, que é o que este tempo exige de nós

É engraçado porque o coletivo nasceu justamente da negativa de um financiamento para nossa pesquisa, nos questionamos se esse não é um silenciamento, uma barreira a que não se produza conhecimento com essas mulheres, visto que esta é justamente a proposta que fizemos, a nossa leitura foi que sim, e nós fizemos na mesma, isso diz muito sobre essa sociedade

Portanto, nós deveríamos utilizar toda oportunidade disponível para, a partir dessa formulação, tensionar uma realidade, ainda extremamente mais agravada com a pandemia da covid-19, cujos efeitos mais perversos incidiram sobre as mulheres. Aqui e em todo o mundo (FMI). Este é um tempo extremamente crítico. Nós temos conversado com muitas mulheres no âmbito da nossa investigação e temos infelizmente percebido os efeitos da precariedade do trabalho nas condições de vida dessas mulheres

Existem problemas concretos impedindo a que essa parcela da sociedade portuguesa tenha uma vida digna. A questão da documentação por exemplo que continua vulnerabilizando as possibilidades concretas de construção de uma vida digna neste território para algumas mulheres que vieram viver aqui no período de transição ou pós-colonial, portuguesas nascidas neste país e que enfrentam barreiras básicas como esta para conseguirem melhores empregos, estudarem etc.

EAPN - É possível falar de luta antirracista sem falar de luta anticapitalista? Porquê? (Ou, de que forma é que o capitalismo exacerba as desigualdades, em particular a discriminação racial?)

AFREKETÊ - A metodologia feminista decolonial é anticapitalista. Quando falamos em raça, classe e gênero nesta perspectiva temos o compromisso de estabelecer uma relação entre realidades subalternizadas e a ordem mundial capitalista moderno-ocidental (P. Hill Collins). Enquanto abordagem feminista este é um aporte estratégico para pensar o capitalismo e suas diversas formas de dominação, centradas no gênero racializado (Díaz-Benitez, Mohanty). É uma perspectiva de corte realista.

É importante apenas situar que o capitalismo é uma máquina de produzir desigualdades, entre as quais a discriminação racial, mas também homofobia, xenofobia etc. e assim como estas, discriminação racial é apenas uma estratégia dentro desse motor de produção de desigualdade e descarte de seres humanos. A partir desse quadro analítico o nosso esforço enquanto sociedade deve ser pautado por expor essa questão central: a luta anticapitalista.

Nosso problema em descolar a questão anticapitalista da questão racial, colocando o debate apenas no domínio da identidade, deve-se um pouco ao fato de não termos feito o debate com marxistas como Fanon, Patricia Hill Collins ou Florestan Fernandes e Lélia Gonzalez, trazendo para o Brasil.

Data: 7/4/2021, 18h30

Alexandra Santos – VP do INMUNE

Simone Amorim – Investigadora Coletivo AFREKETÊ

Joana Peres – Ativista dos Direitos LGBTI, Sócia da Cooperativa SEIES

Moderadora Tex Silva – Associação Plano i


Acompanhem o evento completo no canal da EAPN.

*Investigadora pós-doutoral e membro Coletivo AFREKETÊ

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Racismo

Do mito de Cam ao racismo estrutural:

uma pequena contribuição ao debate*


Hiran Roedel**


Os mais jovens [...] encontraram a expressão certa para qualificar a sua atividade, quando afirmam que lutam apenas contra ‘fraseologias’. Esquecem apenas que, a essas fraseologias, não opõem nada além de fraseologias, e que, ao combaterem as fraseologias deste mundo, não combatem de modo algum o mundo real existente. (MARX, 2007, p.84).


O debate e a luta antirracista, no Brasil, vêm de longa data. Diversas estratégias de enfrentamento foram e são utilizadas, porém sua atualidade atravessa gerações, o que configura que o racismo é menos uma prática de indivíduos perversos e mais uma relação social construída historicamente. Por isso, o presente texto objetiva, longe de pretender responder plenamente as questões a seu respeito, mas, como o próprio título indica, apenas sugerir mais um elemento para contribuir com a discussão. Continuar a ler


**Historiador

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O valor da Cultura

Reflexões sobre o papel da Cultura no contexto

pré-eleições no Brasil


Simone Amorim*


A cultura de massas, assim como os demais processos de alienação a partir da mercantilização de tudo o que cerca a existência comum das pessoas, vai atomizando os indivíduos em unidades não responsivas aos estímulos do pensar criativo. Percebe-se hoje um espaço vazio onde o cultivo do gosto é uma remota possibilidade para a grande massa, alheia ao exercício de apreciação estética. O principal norteador de uma atuação realmente criativa e engajada com o que nos parece ser essencial no campo das artes e da cultura, se apresenta, na verdade, como antivalores a algumas práticas que acabam por escamotear o que deveria ser central na atuação de um gestor cultural: “Uma política cultural subordinada à estrita lógica do mercado e das audiências é uma política cultural sem princípios nem valores, que se demite do seu papel estruturante do discurso e da prática políticos e do seu papel ativo na construção da imagem que uma sociedade dá de si própria e ao exterior”. (MELO, 2002, p.149)

Sem capacidade de abstração uma sociedade não avança. A ação cultural funciona como uma das possibilidades de que, a partir do exercício criativo, os indivíduos participem da construção de novos discursos, recombinem os repertórios de seu cotidiano com criatividade e reinventem suas realidades em cima do que lhes é imposto cotidianamente. Isso vale para todos os aspectos do convívio social. Quando existem deficiências nesse circuito, quando as pessoas por alguma razão perdem a capacidade de abstração, de criação, isto é, de participação na vida cultural; de alguma forma a cultura de um grupo se vê mais pobre e na mesma proporção o indivíduo se enfraquece. De modo que, subordinar esse circuito a lógicas exógenas ao campo cultural é criar um arremedo de ação cultural cujo efeito é estranho ao que acabamos de mencionar acima. Em outras palavras, quando uma ação cultural qualquer, se submete a indicadores socioeconômicos de medição quantitativa da curva de públicos, prestar contas dos seus resultados a parceiros, financiadores ou o Estado, gerir a instituição cultural, ou o projeto, como uma empresa capitalista globalizada (rentabilização máxima de dividendos) e outras práticas, em curso no campo cultural, já não enxergamos a cultura e a arte no pleno de sua potência humanizadora. O campo cultural tem espaço para funções executivas, mas jamais deveria perder de vista que o produto de sua atuação não pode ser reduzido a uma mercadoria (ou serviço) e como tal não pode ser comercializado no bazar global das mercadorias.

Essa reflexão é de uma atualidade crítica, na medida em que a ideologia da pós-modernidade entranhou-se por todos os domínios da vida social e particular dos indivíduos; diluiu os componentes tradicionais de sociabilidade e abriu espaço para uma miríade de experiências efêmeras, fragmentárias e descoladas umas das outras, ao mesmo tempo construindo novas frentes e destruindo a possibilidade de criação de novas narrativas – no sentido empreendido pelos modernos. Algo como uma infinita possibilidade de códigos e uma rara probabilidade de interação, pela incapacidade do estabelecimento de sentido, de grupo. “O ‘contrato social’ que, a partir do século XVIII, estabeleceu-se; contrato social de essência racional, privilegiando o cérebro, domesticando as paixões e marginalizando as emoções, esse contrato social está sob todos os aspectos totalmente saturado”. (MAFFESOLI, 2010, p.52).

Vivemos o tempo de um retorno ao aqui e agora como territórios do pertencimento, símbolos únicos da coesão pós-moderna, territórios reais ou simbólicos, o pacto tribal pós-moderno estaria fundado, organicamente, na experiência do imediato, do efêmero. Como se esse fosse o único laço possível na contemporaneidade: a partilha sensorial do momento presente das relações, do conhecimento, das interações dos pontos de vista. A enxurrada de opiniões publicadas para abafar a possibilidade de consolidação de um esfera pública sustentada por opinião pública criticamente constituída; a violência com que as diversidades rasgaram o modelo apoiado na ordem como condição para o progresso ou mesmo romperam com o contrato social cínico do século anterior, são verdades que mais participam do sentido neste momento, os símbolos do tempo presente. De modo que é nessa janela que se abre para o novo, que nos parece absolutamente pertinente um reenfocamento das políticas culturais na contemporaneidade. Oportunidade em que cabe ao agente cultural: “fazer a ponte entre as pessoas e a obra de cultura ou arte para que, dessa obra, possam as pessoas retirar aquilo que lhes permitirá participar do universo cultural como um todo e aproximarem-se umas das outras por meio da invenção de objetivos comuns” (COELHO, 2004, p.33).

Isto é, compartilharem códigos que possibilitarão a reinvenção da coesão a partir do social, do simbólico e de possibilidades estéticas do presente. Dessa forma não vejo como não serem úteis à política cultural do futuro. Por isso a arte e a cultura, na minha visão, devem ser entendidas como valores estéticos do presente, humanizadoras das sociabilidades e que, desse modo, reveste de uma importância política ainda maior o papel do Estado nesse campo. Um processo de ação cultural resume-se na criação ou organização das condições necessárias para que as pessoas inventem seus próprios fins e se tornem assim, sujeitos – sujeitos da cultura, não seus objetos (JEANSON, Apud COELHO, 2001, p.14).

A efetiva vida cultural da população, entendida aqui como o conjunto de práticas e atitudes que têm uma incidência sobre a capacidade do homem se exprimir, se situar no mundo, criar seu entorno e se comunicar. A vida cultural do indivíduo não se faz apenas através do uso do chamado tempo livre e do dispêndio de dinheiro; ela comporta também atitudes em períodos dominados por elementos não culturais, como o tempo do trabalho e do transporte, por exemplo. Conhecer as várias faces do cotidiano é fundamental para a formulação de políticas consequentes na área. (BOTELHO, 2016, p.20). Dessa forma, os bens culturais entendidos no conjunto do patrimônio histórico e cultural de uma sociedade constituem o propósito central da ação cultural genuína. Ao criticarmos o efeito alienante da ênfase que a indústria cultural dá apenas à mercantilização da arte e da cultura no circuito da produção cultural, reforçamos a noção de que “o objetivo da ação cultural não é construir um tipo determinado de sociedade, mas provocar as consciências para que se apossem de si mesmas e criem as condições para a totalização, no sentido dialético do termo, de um novo tipo de vida derivado do enfrentamento aberto das tensões e conflitos surgidos na prática social concreta” (COELHO, 2001, p.42).

Uma ação cultural legítima não pode demitir-se do entendimento da cultura no conjunto de capitais necessários ao convívio social e de como uma determinada sociedade distribui e valoriza esse capital no conjunto dos demais.

*Gestora Cultural, Doutora em Políticas Públicas, Investigadora de Pós-doutorado na Linha de Pesquisa “Cidades e Territórios” do Centro de Estudos sobre Mudança Socioeconômica e Territorial DINÂMIA’CET-IUL, em Lisboa.

Referências

BOTELHO, I. Dimensões da cultura: políticas culturais e seus desafios. São Paulo: SESC SP, 2016.
COELHO, T. O que é ação Cultural?São Paulo: Brasiliense, 2001.
COELHO, T. Dicionário crítico de política cultural: Cultura e imaginário. 3aEd. São Paulo: Iluminuras, FAPESP, 2004.
MAFFESOLI, M. Saturação. São Paulo : Iluminuras, Itaú Cultural, 2010.
MELO, Alexandre. O que é Globalização Cultural?Lisboa: Quimera, 2002.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Neruda

Siempre


Pablo Neruda


Aunque los pasos toquen mil años este sitio,
no borrarán la sangre de los que aquí cayeron.

Y no se extinguirá la hora en que caísteis,
aunque miles de voces crucen este silencio.
La lluvia empapará las piedras de la plaza,
pero no apagará vuestros nombres de fuego.

Mil noches caerán con sus alas oscuras,
sin destruir el día que esperan estos muertos.

El día que esperamos a lo largo del mundo
tantos hombres, el día final del sufrimiento.

Un día de justicia conquistada en la lucha,
y vosotros, hermanos caídos, en silencio,
estaréis con nosotros en ese vasto día
de la lucha final, en ese día inmenso.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Tempos difíceis

Quanto mais selvagem a sociedade, pior trata crianças,

velhos e prisioneiros*


(Entrevista concedida ao jornalista Eduardo Moretti pelo prof. Luis Gonzaga Belluzzo, Unicamp)

A política econômica do governo Temer não parece um arremedo de neoliberalismo, algo mais antigo, ou uma colcha de retalhos, com medidas de supressão de direitos, PEC do Fim do Mundo etc? Como define essa política?

É difícil lidar com nomes, com siglas. Acho que é uma política, mais do que conservadora, retrógrada. Ela tenta fazer um ajuste que não tem nenhum fundamento no funcionamento real da economia, movido por ideias muito conservadoras e precárias. É um desrespeito com os neoliberais mais atilados chamar essa política de neoliberal (risos).

Há uma crise muito profunda da teoria econômica, que está sendo avaliada e contestada por muita gente fora do Brasil. Aqui esse debate ainda não ganhou corpo, porque os economistas brasileiros ainda estão muito resistentes a abrir mão do aparato teórico que adquiriram fora do Brasil, e que não tem mais validade ou vale muito pouco e até os economistas mais atilados deles já estão começando a reconsiderar algumas questões. Quando a economia estava desacelerando, adotar aquele programa de ajustamento (com Dilma) é simplesmente inacreditável. Inacreditável que pudesse passar pela cabeça de alguém uma ideia que só se pode justificar por concepções equivocadas e mesmo ridículas.

O Moro está encharcado de convicções, foi ensinado assim, estudou nos EUA. Percebe-se que não tem cultura mais ampla. Isso faz falta entre operadores de direito e de economia. A gente sempre precisa achar que a gente sabe menos do que acha que sabe

No atual processo, estamos vendo acontecer com a Petrobras o que nem a ditadura – que tinha setores nacionalistas – e nem Fernando Henrique conseguiram…

Isso nasce de uma situação peculiar, que foi a investigação da Lava Jato. Porém, se você examinar os episódios de crimes financeiros nos Estados Unidos, por exemplo, eles procuraram preservar as empresas. Aqui, conseguimos fazer uma coisa muito grave: prejudicar uma cadeia produtiva muito importante, talvez a mais importante num momento de recuperação. Tem algumas coisas que só podem ser explicadas pela indigência mental dessa gente.

Ou estão certas as teorias da conspiração segundo as quais isso tudo foi orquestrado a partir de interesses externos?

Acho que o Sérgio Moro, por exemplo, nem sabe o que está fazendo. Isso é o pior nessa sociedade em que nós vivemos. Tanto ele (Moro) quanto os que deflagraram o ajuste não têm consciência exata do que estão fazendo. Há estudos agora sobre o caráter da informação, da língua, da linguística, dos falsos conceitos, o que tem a ver com a mídia brasileira, escancaradamente de quinta categoria.

O Moro é o que nos anos 1920 ainda se chamava idiot savant, uma expressão psiquiátrica, para falar do sábio idiota, aquele que só conhece a área dele e não consegue fazer uma relação entre a área dele e as demais. Então não acho que o Moro seja um conspirador. Ele está encharcado dessas convicções, foi ensinado assim, estudou lá, percebe-se claramente que não tem uma cultura mais ampla. Aliás, isso faz falta entre operadores de direito e de economia. A gente sempre precisa achar que a gente sabe menos do que acha que sabe.

O Brasil passa por uma conjuntura em que não se sabe se o governo vai cair, se vai haver parlamentarismo ou o que vai acontecer. É possível prever um cenário?

O cenário é muito obscuro, muito difícil de fazer previsão. Acho que a recuperação da economia vai demorar muito, mas esse sistema político que está aí é um obstáculo, não oferece nenhuma possibilidade de solução. Eles se comprometeram muito. Essa “PEC do Fim do Mundo” é uma insensatez. Qualquer pessoa com inteligência acima de dois neurônios se dá conta de que isso é um desastre. É uma coisa de hospício.

No entanto, passou…

Passou. Pois é. A gente tem que buscar a explicação numa região mais profunda da sociedade brasileira. Você está vendo o que está acontecendo com os presídios. Uma vez li no Norberto Bobbio que você pode avaliar o grau de civilidade de uma sociedade pela forma com que trata as crianças, os velhos e os prisioneiros. Quanto mais selvagem e mais bárbara a sociedade, pior o tratamento que dá a essas categorias de pessoas, que são as que estão à mercê do Estado, e deveriam estar sob a proteção do Estado. Você viu manifestações de deputados, secretários de Estado, dizendo que não tinha nenhum santo (nos presídios). Não se trata de santo ou não santo, trata-se de um sujeito que está investido da condição humana.

Há o atraso secular do Brasil, atraso social, moral e ideológico que vem lá do escravismo, e depois vem da desigualdade, e de todas as mazelas das quais esse país não se livrou. Isso tudo está cristalizado hoje em duas coisas: no mercado financeiro e na mídia de massas. Isso é que conforma o imaginário, a compreensão de muitos brasileiros entregues a isso sem nenhum poder de reação e nenhuma possibilidade de se informar alternativamente.

Depois de tanta luta pela redemocratização, o impeachment, como ocorreu, provocou em muitas pessoas um sentimento de total descrença no Brasil, os que acham que o país não tem mais jeito. Qual sua posição, está entre esses?

Não, porque se eu tivesse essa visão eu teria me retirado de alguma forma. Acho que a gente pode juntar forças democráticas e acho que uma parte da esquerda tem que entender que a democracia é importante. A gente está aprendendo que é importante, que as instituições são importantes. A gente está voltando às origens do pensamento de esquerda que era liberal democrático. O liberalismo político faz parte da construção dessa forma de ver o mundo, de organizar as instituições, junto com o controle da economia pelo Estado, sem que você se deixe iludir pela ideia de que o mercado se autorregule.

Não estou falando nada de novo, mas simplesmente voltando ao que disseram e praticaram os grandes estadistas do pós-guerra, como (Konrad) Adenauer (Charles) De Gaulle, (Alcide) De Gasperi, gente que se deu conta de que a democracia só pode florescer enquanto houver segurança econômica do cidadão, senão você desencadeia um processo perverso, como o que a gente está vendo aqui. O que é assustador aqui é nosso atraso cultural, intelectual, sobretudo nas camadas dos que se consideram acima dos mais fracos e mais pobres. Seria bom que o Brasil tivesse uma elite, mas não tem. O Brasil tem ricos, mas não tem elite.

As camadas superiores não querem saber do Brasil. É como se estivéssemos voltando à época do pau-brasil, isso aqui virou um campo de caça. Como se viessem fazer uma coisa extrativista: tirar e ir morar em Miami. Não têm solidariedade com o outro. E isso é fundamental, foi o que cimentou a construção do Estado do bem estar, que hoje está começando a se dissolver também na Europa. Isso é que é terrível. O capitalismo não consegue mais se proteger dele mesmo.

Mas, pelo menos no Brasil, a pouca civilidade que tinha está indo pelo ralo…

Sim, aqui a coisa é mais grave, mas na Europa a situação da Grécia, por exemplo, é terrível. Aumentou o número de suicídios violentamente. O que a gente quer? A gente quer dar uma contribuição para a sociedade e ao mesmo tempo ter direito de viver melhor. O que está colocado aí na frente pelo avanço tecnológico etc. é que você vai poder trabalhar menos horas. Precisamos nos livrar dessas relações postas nas empresas com os trabalhadores e a população, para que as pessoas possam trabalhar menos, curtir mais a vida. 

E o Palmeiras? Voltou a ser grande em 2016?

O Palmeiras sempre foi grande.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Resenha

Crise Política: o futuro numa encruzilhada


Simone Amorim*

Em texto produzido ao final de 2015 e publicado recentemente pela Editora Civilização Brasileira (Impasses da Democracia no Brasil, 2016), o cientista político Leonardo Avritzer, da UFMG, analisa limites do processo democrático vivenciado há trinta anos no Brasil, assumindo a conclusão de que chegamos ao fim do ciclo iniciado com a redemocratização brasileira ocorrida na década de 1980.

Entre os principais fatores que caracterizariam o impasse político, figurariam três principais entraves ao amadurecimento das conquistas democráticas garantidas pela constituição de 1988: os limites do presidencialismo de coalização e a consequente judicialização da política, que têm minado a governabilidade do poder executivo; os limites da participação social, institucionalizada ou não, destacando a necessidade de ampliação desta a setores estratégicos, nos quais ainda se percebe um vácuo de participação, como por exemplo o setor de infra-estrutura; e, ainda, o combate à corrupção no sistema político, que atuaria na corrosão desses dois fatores inicialmente destacados.

A corrupção atua duplamente, minando a possibilidade de governabilidade do poder executivo no modelo de presidencialismo de coalizão vigente no país, e tendo sido capturada pelos meios de comunicação que conformam a opinião pública, reintroduzindo um vigor participativo de tipo novo desde junho de 2013, na medida em que traz de volta às arenas participativas, setores que historicamente haviam se distanciado do espaço público (físico e virtual). Desse modo, conduz o tema numa perspectiva conservadora e superficial, engajada essencialmente em polarizações e que tem como resultado mais efetivo o enfraquecimento da democracia brasileira e das estruturas pluralistas vivenciadas no processo democrático.

O autor pontua o papel central da classe média, capturada pelo discurso midiatizado da corrupção, que passou de uma agenda positiva (no início das manifestações de junho de 2013, contra os aumentos das tarifas de transporte coletivo, o descaso da educação e da saúde públicas etc) para uma agenda negativa em relação à democracia. Em sua visão “é preciso criar novamente uma agenda positiva capaz de unir os setores que correm o risco de disputar maioria e capacidade de mobilização nas ruas. Um dos pontos desta agenda pode ser a ampliação dos direitos sociais e dos serviços ligados à saúde e educação, que é um dos poucos itens da agenda social do governo a que a classe média não se opõe”.

A análise de Avritzer, embora não aprofundada e muito pouco propositiva, destaca pontos importantes da situação atual do país, que em poucos dias viverá desfechos com impactos profundos nas próximas décadas. Portanto, o elenco de argumentos destacados pelo autor provoca o início de um debate que deve ter como ponto central o projeto de país que defenderemos e o limite inegociável  através do qual não se pode ultrapassar, sob pena de desmontar toda a estrutura de direitos conquistados em nossa recentíssima democracia.


*Gestora Cultural, Doutoranda em Políticas Públicas e Formação Humana (UERJ), Conselheira Municipal de Cultura do Rio de Janeiro (Economia da Cultura)

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Crise e patrimônio histórico

Em crise, Rio de Janeiro abandona seus bens históricos


Mauricio Thuswohl

Com déficit de R$ 19 bilhões previsto pelo governo para 2016 e em meio a uma crise financeira que culminou com o não pagamento dos salários de 137 mil aposentados e pensionistas do estado em abril, o Rio de Janeiro não tem tempo nem dinheiro para cuidar de seus bens culturais e históricos.

Passado um ano desde a formação, pela Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa (Alerj), de um grupo de trabalho que reúne órgãos do governo estadual e de outros setores para discutir e propor soluções, ainda não foi executado um único projeto de restauração e preservação em 40 bens que foram identificados em situação de abandono parcial ou total pelo poder público. Tampouco há previsão orçamentária para levar adiante essa tarefa, em uma gestão que acaba de aprovar dotação suplementar de R$ 900 milhões para as obras de construção da Linha 4 do metrô.

A discussão sobre a degradação dos bens culturais e históricos fluminenses veio à tona após a criação, por meio de uma página na rede social Facebook, do movimento S.O.S. Patrimônio­, que reúne museólogos, historiadores, arquitetos e artistas, além de outros interessados na restauração dos equipamentos abandonados. De um levantamento sugerido pelo grupo surgiu a lista inicial com 40 monumentos da capital e do interior que necessitam de cuidados imediatos.

A lista foi entregue em abril do ano passado ao deputado estadual Zaqueu Teixeira (PDT), presidente da Comissão de Cultura. Nela estão itens de grande importância histórica, como o Convento do Carmo, o Museu do Primeiro Reinado e o Museu da Cidade, além de conjuntos arquitetônicos como o Largo do Boticário e o Campo de Santana, entre outros.

O Grupo de Trabalho sobre Patrimônio Cultural formado na Assembleia tem a participação de representantes do Ministério da Cultura e da Secretaria Estadual de Cultura, além de órgãos como o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (ligado à prefeitura), o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e a Fundação Parques e Jardins. De julho a novembro de 2015 foram realizadas cinco reuniões, e a lista de bens abandonados já ultrapassa 200 itens. Existe a previsão de que no segundo semestre sejam retomados os trabalhos para concluir as propostas levantadas pelo GT, com posterior realização de uma audiência pública. Mas, diante da crise financeira e da falta de empenho dos órgãos responsáveis, a expectativa de que alguma melhoria aconteça de fato é praticamente nula.

Água abaixo

“A formação do grupo de trabalho foi uma grande perda de tempo, não foi à frente, não deu em nada. Na prática, nenhum órgão de nenhuma instância se mexeu, não houve nenhum esforço. A Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana), que seria responsável pela limpeza dos equipamentos, e o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que seria responsável pela restauração, nem sequer compareceram às reuniões. Isso é uma grande tragédia cultural, pois estamos perdendo nossa riqueza, nossa história está indo por água abaixo. É muito triste”, afirma o guia de turismo Alberto Cardoso, integrante do S.O.S. Patrimônio e um dos responsáveis pela elaboração da lista de bens abandonados.

Na avaliação de Zaqueu Teixeira, a crise financeira vivida pelo estado e a decorrente imobilidade dos órgãos executivos explicam o insucesso da iniciativa. “As ações de preservação do patrimônio estadual fazem parte dos recursos disponibilizados para a Secretaria de Estado de Cultura, que tiveram cortes em torno de 42% desde o início de 2016, dentro do já parco recurso­. Parte das ações é articulada com o governo federal, que também passa por limitações de apoio. Logo, o quadro para o ano de 2016 é complexo”, diz o deputado.

A Assembleia, segundo Zaqueu, procurou fazer a sua parte. “O trabalho do Legislativo consiste na elaboração e melhoria das legislações e dispositivos legais e na fiscalização das ações do Executivo. O Inepac, no entanto, nos apresentou um quadro do seu funcionamento que é de poucos técnicos, apesar do excesso de vontade”, diz. Já a Secretaria de Cultura tem outra explicação para a falta de resultados do Grupo de Trabalho. “Até agora, o Inepac não recebeu nenhum projeto por parte do GT da Alerj”, afirma a secretária Eva Doris Rosental, por intermédio de sua assessoria.

Assessora especial da Comissão de Cultura, Morgana Eneile aponta a falta de eficiência dos órgãos estaduais como um problema que dificulta a preservação dos bens culturais no Rio de Janeiro. “Uma conclusão a que se chegou no GT é que precisa haver um canal de denúncia que não passe só pelo Inepac. O governo estadual se envolveu, foi a todas as reuniões. Só que o Inepac nem é um instituto de fato, é uma superintendência, não tem uma estrutura própria separada.”

Outro problema, diz Morgana, é a falta de recursos. “O ­Legislativo não pode demandar nada que traga custos para o Executivo. Um projeto de lei que passa, por exemplo, por aumento da estrutura não pode ser iniciativa nossa, tem que ser do Executivo. Ao mesmo tempo, como o Executivo pode demandar a criação de um cargo, um único que seja, para a área do patrimônio numa crise em que ele não consegue sequer pagar os salários dos servidores de carreira?”, questiona.

O S.O.S. Patrimônio, no entanto, considera que o abandono dos bens históricos e culturais do Rio vem de muito antes da crise atual. “O problema não é o déficit, é a falta de vontade pura e simples, é o desprezo pela história e pela cultura”, diz Alberto Cardoso. “Isso é um traço de política de Estado porque a cultura não é contemplada pelo governo. Se a educação, a saúde e o saneamento não são contemplados, a cultura é que não iria ser. No campo cultural o Brasil só não deve ficar atrás do Estado Islâmico. Só eles devem tratar pior os monumentos.”

Novas leis

Considerada fundamental, a adoção de uma nova legislação para garantir uma melhor preservação dos bens culturais e históricos também não prosperou. “Tínhamos a esperança de que, a partir dos trabalhos do GT, saísse um projeto de lei que criasse uma brigada do patrimônio”, acrescenta Cardoso. Este conceito já existe em outros países e funciona como uma brigada de incêndio de uma empresa.

“São pessoas que passam por um treinamento básico e técnico sobre o patrimônio histórico, ministrado pelos órgãos que cuidam dos bens, e que têm a permissão de fazer intervenções imediatas. Se, por exemplo, existe um patrimônio em risco iminente de desabar, a brigada pode atuar com respaldo legal”, compara. “Hoje em dia, quem limpar um monumento do patrimônio histórico no Rio é incurso no crime de dano ao patrimônio, o que é um absurdo. Então, ninguém cuida, porque se cuidar vai preso. O que a gente está tentando é normatizar essa lei. Essa seria uma vitória, mas para isso é preciso que a Assembleia Legislativa se mexa, e a ­Assembleia não se mexe. No atual momento político, a cultura foi totalmente relegada.”

Uma nova lei geral do patrimônio é outro sonho distante. “Não conseguimos consolidar um projeto de lei. Chegamos ao final do ano passado com a possibilidade de ter um novo texto de legislação patrimonial, mas o Estado foi contra. Isso acabou tomando muito tempo. De certa forma a gente parou no meio do caminho após compilar tudo e atualizar as questões que foram demandadas em uma nova lei do patrimônio”, diz Morgana Eneile. Enquanto a lei não sai, avalia a assessora da Comissão de Cultura, alguns paliativos podem ser adotados. “Um dos resultados que esperamos do GT é aprovar já na próxima reunião um projeto de lei que seja uma espécie de disque-denúncia do patrimônio.”

Segundo o deputado Zaqueu Teixeira, a busca por uma nova legislação prossegue em 2016. “O Grupo de Trabalho se pautou por soluções para além das ações do Executivo, buscando analisar possibilidades de dar visibilidade ao patrimônio e também fazer a revisão das leis existentes. Foi iniciado um debate sobre a revisão da legislação atual, que data da década de 1970, e cogitada a abertura de novas ações, como a intervenção da sociedade civil no cuidado com o patrimônio e na fiscalização deste.”

Pessimismo

Para Morgana Eneile, “os resultados não se deram necessariamente em relação a um monumento restaurado” porque é preciso uma política pública com a participação efetiva dos diversos atores envolvidos. “Não basta o desejo de um patrimônio público por parte de quem o valoriza. Por isso, o trabalho do GT acabou se tornando tão complexo de resolver. Listamos um conjunto de ações, mas nenhuma delas se tornou concreta não porque não tenha como ser concretizada, mas porque são coisas difíceis de serem resolvidas do ponto de vista orgânico. Isso é um trabalho que vai levar tempo, não vai ser executado no tempo que a gente gostaria”, afirma.

O pessimismo dos envolvidos pode ser medido pelas palavras de Alberto Cardoso. “Desde o início, eu sabia que não seria feito nada. A realidade no Rio é uma tragédia, ninguém se sensibiliza. Uma cidade que constrói uma ciclovia por R$ 45 milhões que mais parece uma pinguela e cai em três meses matando gente mostra o desprezo pelas leis, pela ética, pela vida humana. Nesse contexto, nosso passado não vale nada, a cultura não vale nada. Estão deixando tudo ser destruído porque as verbas públicas vão todas para o lazer e o esporte, mais nada. Quando chegar a Olimpíada, o que nós teremos para mostrar aos estrangeiros em termos de cuidado com o nosso patrimônio?”, indaga.
Exemplos do abandono

Cardoso dá alguns exemplos de como a situação de abandono dos bens históricos e culturais do Rio de Janeiro se agravou nos últimos meses, apesar da criação do Grupo de Trabalho para tratar desse tema na Assembleia Legislativa. “Um dos objetos que nós tanto queríamos preservar – o Palacete São Cornélio, no Catete – está num estado pior do que estava há um ano. Foi invadido, arrancaram as calhas pluviais. O imóvel está hoje em uma situação que, se chover, vai perder totalmente seu interior. Está de pé por um milagre.”

“O Convento do Carmo, na Praça XV, está com as janelas abertas desde um ano atrás”, acrescenta. O prédio teve construção iniciada em 1619, passou por várias reformas na era colonial e foi confiscado por dom João VI em 1808 para alojar sua mãe, Maria I. Em seguida, seria o embrião da Biblioteca Nacional ao receber os primeiros livros vindos da corte portuguesa.

“Nós pedimos ao governo para entrarmos no prédio ou para pagarmos alguém para ao menos fechar as janelas, mas o pedido foi negado. Já fizemos um estudo, houve um compromisso pela restauração, mas as janelas continuam abertas. O vento, as chuvas e os animais estão deteriorando o único prédio joanino da cidade.”

“O monumento ao General Osório, também na Praça XV, está sendo dilapidado vagarosamente”, completa o ativista. “Já arrancaram o gradil, as letras de bronze, a espada do general, as balas de canhão. Já tentaram roubar até os painéis laterais, e nada foi feito pelo poder público.”

Extraído de Rede Brasil Atual

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista

Políticas Públicas


Já está disponível a edição VIII de Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista. Tem como tema central as políticas públicas, que em nosso entendimento tratam-se das ações dos governos em determinados campos de atuação, não negligenciando o entendimento de que, o que os governos não fazem – ou os campos em que não atua – também são escolhas e, portanto, políticas de uma determinada gestão pública. A escolha do tema deveu-se à pertinência de debater o assunto no momento em que, no país, encontra-se em franca disputa o modelo de Estado que a sociedade gostaria de ter, sobretudo na tão divulgada, mas muito pouco adequadamente discutida, reforma política. Nos dias atuais um movimento conservador de projeto de Brasil tem ocupado a mídia e os espaços públicos de tal forma que, em quase todas as esferas de atuação, as visões mais progressistas têm encontrado entraves à exposição de suas pautas. Vivemos um momento de crise, com sérias ameaças à democracia no Brasil.
A realidade social de nossas incipientes democracias, neste início de século XXI, configura-se, como alertou o sociólogo argentino Atílio Borón, como um laboratório onde o novo e o velho, em nossa economia política, convivem em tensão cotidianamente. Quem manda hoje é o capital; e a vontade popular –manipulada pela indústria da publicidade e do consumo, aplicada no controle político – tem um papel totalmente secundário e marginal, com escassa ou nula incidência na elaboração das políticas públicas de um regime instituído em seu nome e supostamente para a proteção de seus interesses.
Simultaneamente, vivencia-se no Brasil um ambiente onde a democratização de direitos sociais – que por aqui chegaram com algum atraso, em relação ao Estado Keynesiano experimentado pelos países europeus no pós-guerra – convive com as pesadas correntes que ainda escravizam enormes contingentes populacionais pelo desemprego, a fome e o analfabetismo, a violência entre outras mazelas. Em resumo, o peso de viver no bloco regional mais desigual do planeta, num dos países mais desiguais da América Latina. Uma região que ao longo de décadas de democratização alcançou, na verdade, mais capitalismo e menos democracia.


É com o objetivo de circular outras análises, a partir de paradigmas mais democráticos sobre as políticas públicas no Brasil de hoje, que julgamos válida a publicação desta edição, tendo como tema central dos perspectivas críticas sobre as políticas públicas. São cinco artigos de especialistas e pesquisadores no assunto que se propuseram a não apenas apresentar os temas, mas principalmente, imprimir suas visões analíticas a partir de dados e informações de suas pesquisas, aos quais a equipe editorial da Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista agradece pelo empenho e parabeniza pelo trabalho.
Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista é uma publicação independente e decorre do esforço de professores e pesquisadores que se propõem a abrir um espaço alternativo de reflexão e debate acerca de temas que contribuam para um outro olhar da realidade e para a construção de um outro mundo. Nossas edições estão disponíveis gratuitamente mediante cadastro no endereço www.plurimus.com.br. Dela podem participar todos os interessados em se apresentar para esse processo plural. Na próxima edição teremos Gestão como tema central, sempre dentro do nosso recorte editorial.

Boa leitura!
Os Editores

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Participação Social

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista

A reflexão que propusemos sobre a participação social para a nossa edição VI recebeu diversas e excelentes contribuições de professores e pesquisadores do Brasil e do exterior, fato que nos motivou a lançar mais uma edição com o tema. Assim, está disponível a edição VII de nossa revista eletrônica!

Desta edição participam o Engenheiro de Produção Ricardo Mello, com o tema Participação para o desenvolvimento local, no qual aborda a emergência do desenvolvimento local participativo como meio de fortalecimento dos territórios e de transformação social diante da crise da democracia representativa e do colapso do modelo identificado como keynesianismo-fordismo.

Em Democracia e sociedade: notas sobre o contexto de implementação da Política Nacional de Participação Social no Brasil, a Gestora Cultural Simone Amorim propõe o debate sobre a proposta de instituição da Política Nacional de Participação Social, prevista pela Constituição de 1988 e atualmente em implementação no país. Além de descrever o contexto em que a política é proposta, apresenta argumentos que ratificam a ideia de que o aumento da participação social na definição de políticas públicas pode vir a concretizar-se como um avanço democrático em direção à redução das disparidades sociais.

O tema da defesa de uma auditoria cidadã da dívida pública brasileira é retomado por Paulo Roberto dos Santos Lindesay em A dívida pública e o impacto no desenvolvimento social do Brasil. O argumento central do autor é de que por meio de informações, do debate e da ação política o cidadão pode reverter o atual quadro de dependência do país às instituições financeiras internacionais.

Luís Eduardo Fernandes debate as democracias liberais nas sociedades ocidentais no artigo Democracia burguesa e participação social. Parte do entendimento de que pelo exercício histórico é possível desvendar o conteúdo social desse regime, bem como suas mutações ao longo do tempo, de modo a entender o atual estágio de financeirização da economia mundial.

Dentro do nosso propósito de apoiar iniciativas de estudantes universitários e de pós-graduação, concluímos a edição com um tema geral. Trata-se do trabalho A logística de abastecimento e escoamento e a capacidade produtiva do mercado produtor de Juazeiro, dos discentes de Engenharia da Produção André Borges Almeida e Leandro Silva Souza, orientados pelo docente Edson Tetsuo Kogachi, que objetiva identificar os motivos que afetam a logística do mercado produtor de Juazeiro na Bahia.

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista é uma publicação on line independente e decorre do esforço de professores e pesquisadores que se propõem a abrir um espaço alternativo de reflexão e debate acerca de temas que contribuam para um outro olhar da realidade e para a construção de um outro mundo. Nossas edições estão disponíveis gratuitamente mediante cadastro no endereço www.plurimus.com.br. Dela podem participar todos os interessados em se apresentar para esse processo plural. A próxima edição terá como tema central Políticas Públicas, que será abordado dentro do nosso recorte editorial.

Boa leitura!

Os Editores

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Participação social

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista


Já está disponível a edição VI de nossa revista eletrônica!

Com o tema central da participação social, recebemos excelentes contribuições do Brasil e também do exterior. Por isso, na próxima edição daremos continuidade ao tema.

Desta edição participam o Historiador Hiran Roedel com o tema Criminalização, analfabetismo e favela: a face dos sem direitos, no qual faz uma reflexão histórica sobre as raízes da relação entre pobreza e criminalidade a partir da configuração da aliança de classes e do papel do Estado que tem na ação policial a principal ferramenta para lidar com as questões sociais.

Em O sistema da dívida no Brasil e no mundo, a Administradora Maria Lúcia Fattorelli disseca o que denomina “Sistema da Dívida” que transfere recursos públicos para o setor financeiro internacional comprometendo decisões estratégicas de países e as subordinando aos interesses do mercado especulativo.

A Socióloga portuguesa Ana Simões Rupio apresenta o artigo A saúde oral como forma de intervenção social e comunitária: o caso português da organização Mundo a Sorrir, no qual relata a experiência de uma organização não-governamental complementando a ação social do Estado-providência português no combate às desigualdades sociais.

A participação social das lésbicas através dos grupos políticos: uma luta contra o apagamento histórico das mulheres homossexuais é a contribuição de Núbia Carla Campos. Resultado de recente dissertação de mestrado, bem como de sua militância política, o artigo da Advogada se propõe a apresentar a atuação social e política das lésbicas por visibilidade e direitos.

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista é uma publicação independente e decorre do esforço de professores e pesquisadores que se propõem a abrir um espaço alternativo de reflexão e debate acerca de temas que contribuam para um outro olhar da realidade e para a construção de um outro mundo. Nossas edições estão disponíveis gratuitamente mediante cadastro. Dela podem participar todos os interessados em se apresentar para esse processo plural.

Convidamos os interessados em submeter artigos e resenhas para a edição VIII que terá como tema central Políticas Públicas, que poderá ser abordado sempre dentro do nosso recorte editorial.

Boa leitura!

Os Editores

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Participação social

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista



A participação da sociedade nas questões de interesse público tem sido quase que completamente delegada aos representantes dos poderes constituídos pela democracia representativa, vigente na maior parte dos países do mundo. Se por um lado a representação é legítima e mesmo, efetiva, enquanto instrumento institucional, por outro, parece não dar conta dos anseios de uma população que não mais se satisfaz apenas com o ritual eleitoral; convocando um papel mais ativo na tomada de decisões importantes.

Os que tomaram lugar na Primavera Árabe, os indignados de España, ou os militantes do Occuppy Wall Street e das Jornadas de Junho no Brasil - entre muitos outros movimentos globais dos últimos anos - tiveram como principal reivindicação serem ouvidos por um sistema político que, embora legitimamente eleito, não traduz seus interesses.

Os meios de comunicação e informação, sem dúvida, alargaram a possibilidade de alcance dessas vozes e, a despeito de sua atuação, têm papel de destaque nessa encruzilhada onde o cidadão se vê compelido a tomar
parte. Seria o momento de uma reinvenção da democracia no século XXI?

Convidamos a participar dessa reflexão com suas idéias e propostas na edição VI de Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista.

Poderão ser enviados artigos e resenhas de livros que articulem o tema da Participação Social com o recorte editorial da revista: gestão, história, sustentabilidade, cidadania e desenvolvimento local. Além de artigos de pesquisadores e especialistas no tema haverá um espaço específico para estudantes de cursos de pós-graduação lato sensu.

Temas gerais, articulados com o nosso recorte editorial também serão avaliados.

Os autores deverão seguir as normas de publicação e enviar os trabalhos para revista@plurimus.com.br até 10 de dezembro de 2014 utilizando o modelo da revista.

Os Editores

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista

Trouxeste a chave?



O artigo 205, da Constituição brasileira de 1988, garante a todo o cidadão deste país que “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”, assenta, portanto, sua base em três dimensões: desenvolvimento humano, cidadania e trabalho.

Se é inegável que a universalização da educação, especialmente no Brasil, trouxe avanços sem precedentes para a organização da sociedade, é igualmente verdade que as assimetrias no processo educativo têm provocado distorções na maneira como cada uma dessas dimensões é resguardada no cumprimento deste direito constitucional.

Os desafios impostos pela contemporaneidade aos indivíduos requer a ampliação do saber de modo sempre constante; seja para fazer valer os seus direitos enquanto cidadão, seja no processo de especialização necessário aos desafios de inserção plena no mundo trabalho. Mas, fundamentalmente é no tocante ao desenvolvimento humano que o conhecimento torna-se o principal ativo que os indivíduos possuem para manterem-se críticos em relação ao tipo de ambiente que se pretende compartilhar.

Desta forma, discutir o papel cultural (e político) da educação na atualidade é assunto que não deveria ser negligenciado por nossos intelectuais e cidadãos de modo geral, dada a relevância que seus desdobramentos assumem em nossa vida social.

Por isso, a edição V de Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista introduz o debate ao lançar, por meio dos artigos que a compõem, questões a serem refletidas pelos seus leitores e eventualmente desenvolvidas em seus espaços de atuação.

A edição é composta de duas partes. Dois artigos debatem de modo mais amplo o papel da Educação dentro das dimensões acima mencionadas, quais sejam, no tocante ao mundo do trabalho e às políticas educacionais. Outros dois artigos que tratam de especificidades da educação aplicada.

O artigo da Socióloga argentina Silvia Patrícia Altamirano introduz o pertinente debate acerca do desemprego juvenil no Brasil. Destaca que, a despeito de programas e políticas implementadas no sentido de reduzir o percentual de jovens desempregados, é a insuficiência de postos no mercado de trabalho o principal responsável pelo agravamento dessa situação.

Na sequência, a Educadora Isa Martins, aborda a inserção acrítica das  Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no ambiente da escola. Ao problematizar com aguda propriedade os paradoxos da política educacional implementada pelo Ministério da Educação (MEC) questiona se a lógica de utilização indiscriminada dessas tecnologias como ferramentas educacionais não estaria subordinando a interesses de mercado a mediação das relações professor-aluno. Debate altamente relevante, portanto.

Entrando no debate aplicado dos processos educacionais em áreas específicas do conhecimento, o artigo do Administrador Marcelo Marujo e da Contadora Laila Tavares trata das competências do profissional contábil de seguros, trazendo ao debate, inclusive, questões sobre a sua formação na grade curricular das graduações em Ciências Contábeis no país.

Por fim, na seção de Temas Gerais, novamente o Administrador Marcelo Marujo, em parceria com o Analista de Sistemas Fischer Jônatas Ferreira apresentam suas contribuições à análise da documentação técnica sobre o desenvolvimento e manutenção de softwares, em especial contrapondo as metodologias de desenvolvimento de software Clássica e Ágil.

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista é uma publicação independente e decorre do esforço de professores e pesquisadores que se propõem a abrir um espaço de reflexão e debate acerca de temas que contribuam para um outro olhar da realidade e para a construção de um outro mundo. Nossas edições estão disponíveis gratuitamente mediante cadastro no endereço www.plurimus.com.br.

Podem participar todos os interessados em se apresentar para esse processo plural. A próxima edição terá como tema central a questão da Participação Social, sempre dentro do nosso recorte editorial, contemplando as várias possíveis nuances em que se pode discutir um tema tão contemporâneo e relevante quanto este. Contamos com a suas ideias.

Boa leitura!


Os Editores

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O Brasil e o futebol

A Copa é nossa!

Celso Evaristo Silva*

O jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980) alertava sempre sobre um dos nossos passatempos preferidos: falar mal do Brasil. Dizia Nelson: “O brasileiro é um Narciso às avessas – cospe na própria imagem !”. E também pontuava nosso complexo de inferioridade chamando-o de ‘complexo de vira-latas’. Um tablete de manteiga ganhava importância pelo simples fato de ser importado. Há quem atribua essa postura aos maneirismos da corte portuguesa (em Portugal, a elite do séc. XIX costumava falar francês nos eventos sociais). Outros juram que o tal ‘complexo’ é herança do período colonial, de povo colonizado. Não importa, a verdade aponta para o desprezo pelas ‘coisas nossas’. Os maxixes (dança e fruto), a farinha de mandioca, o samba, o choro, a rede de dormir, a feijoada e outros pratos da culinária popular eram estigmas das influências africana e indígena que a elite branca e europeizada queria longe de si, embora fosse difícil dissimular as marcas deixadas pelas culturas negra e ameríndia em nossa sociedade. Quem folhear “Casa Grande e Senzala”, do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987), ou “O povo brasileiro”, do antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), entenderá perfeitamente o pequeno drama existencial do Brasil: “Ser ou não ser o que sou ?”.

Roberto Burle Marx (1909-1994) foi um dos pioneiros na utilização de plantas originárias da flora brasileira para decorar os jardins por ele criados. Ele se indignava com a não valorização de nossa riquíssima flora: “Fui conhecer só na Europa algumas das mais belas plantas do Brasil.”

Por aqui só se plantavam olmos, pinheiros-do-canadá, salgueiros, tulipeiras, roseiras e tudo mais que viesse de fora. O paisagista teve execrado seu primeiro jardim, no Recife, por ornamentá-lo com mandacarus, ipês, juremas, araçazeiros e outras plantas silvestres típicas do sertão, associadas, quase sempre, à miséria, seca, fome, povo e, por derivação semi-consciente, ao Brasil. Poderíamos desfilar aqui uma lista imensa de criadores encantados com nossas tradições e contradições: Villa-Lobos (1887-1959), Pixinguinha (1898-1973), Tom Jobim (1927-1994), e por aí vai . . . Essa gente toda bebia na cultura popular; serviam de catalisadores entre seu refinamento rústico e a rigidez da alta cultura.

A pintora Tarsila do Amaral (1886-1973) declarou-se marcada pela cultura mineira após viagem às cidades históricas do ciclo do ouro: “encontrei em Minas as cores que adorava em criança. Ensinaram-me depois que eram feias e caipiras. Segui o ramerrão do gosto apurado . . . Mas depois vinguei-me da opressão, passando-as para as minhas telas.”

Bem, mas voltemos ao futebol; voltemos, não, nem falamos dele ainda. Falamos do Nelson e da sua constatação de nosso niilismo em relação ao que é brasileiro. E o que é mais brasileiro do que o futebol? Esse bretão chegou ao Rio de Janeiro aristocrático, de mansinho passou a perna no remo e conquistou o povão.
Em São Paulo coube a Charles Miller (1874-1953) trazer nossa primeira bola de futebol da Inglaterra e, junto com os funcionários da Cia de Gás e da Cia Ferroviária de São Paulo, organizar a primeira partida de futebol do país.

Paradoxo. O esporte estrangeiro e aristocrático se popularizou ao ponto de se tornar um traço marcante de nossa nacionalidade. Negá-lo é cuspir sim na própria imagem. A seleção, por sua vez, virou a ‘pátria-de-chuteiras’. Um dos símbolos nacionais como o hino e a bandeira. Ao assumir este posto passou a ser alvo da nossa autocrítica forte para com as coisas da terra. Imaginem só o estado de espírito daqueles que enxergam nos gostos populares a expressão maior de alienação política e tibieza moral! Não pode ser outro senão o de condenar com todas as forças do pulmão a realização de uma Copa do Mundo no Brasil: ‘Não queremos Copa!’; ‘Queremos saúde, educação, segurança e transporte de qualidade!’. Pois bem, mas, e se a população quiser Copa, saúde, educação etc etc etc? E se ela entender que ter uma coisa não impede a conquista das outras? E se ela souber separar o oportunismo político do ‘sim-ou-não-para-a-copa’, vindo tanto do governo quanto da oposição? A galera sempre separou Garrincha e Maraca prum lado e cartolagem e FIFA pro outro !

É vera a aceitação por pequena parte das camadas populares desse discurso niilista de setores de nossa classe média. Como também é verdade que o resultado final do torneio pode ter alguma influência nas eleições; porém, deixar de curtir um evento desta magnitude em nome de uma falsa consciência moral é resvalar para o que o filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900) chamou de ‘ressentimento’, ou seja, a reação de ascetas contra a alegria de viver que proíbem a si mesmos e aos outros.

* Administrador e Sociólogo. Mestrando em Políticas Públicas e Formação Humana.



quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Vinícius de Moraes

Cem anos de poesia


Celso Evaristo Silva*




Entrevista de Vinicius de Moraes, concedida, em sonho meditativo, ao monge tibetano radicado em São Paulo, Rampar Singar






RS: Por que Vinicius?
Vinicius: O lançamento, em português, no ano do meu nascimento – 1913 – do ‘Quo Vadis’, do escritor polonês Henryk Sienkiewscz, cujos personagens protagonistas eram Vinicius e Lígia. O velho Clodoaldo, meu pai, mandou ver.

RS: Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes. Nascido na . . . ?
Vinicius: Gávea, onde passei a primeira infância. Depois fui pra Ilha do Governador. Nasci na Gávea, mas sou botafoguense por causa do Garrincha, embora goste do Flamengo . . . no fundo, no fundo, sou Flamengo também.

RS: Você sempre múltiplo !? (risos)
Vinicius: É . . . O Stanislaw Ponte Preta, nosso querido cronista Sérgio Porto, ao conversar com um amigo comum, disse que estivera comigo em Niterói, dois ou três dias atrás, ao que o outro ponderou: “Mas conversei com ele em Paris, semana passada!” . “Meu caro”, disse o Sérgio, “Vinicius de Moraes é plural; se fosse um só, seria Viniciu de Moral.”

RS: No início, meio místico, meio cósmico . . .
Vinicius: Estudei língua e literatura inglesa em Oxford, o que foi muito importante na minha formação. Ao voltar ao Brasil, entrei, por concurso, para a carreira diplomática. Meus primeiros livros tinham preocupações místicas e transcendentais: “O Caminho para a distância”, “Forma e exegese” e “Ariana, a mulher”. Me achava um grande poeta – loucuras da mocidade. Depois veio a preocupação com as questões sociais e o tema central da sensualidade e do amor, no sentido mais cósmico e profundo do termo.

RS: Poetinha, você é um excelente poeta!
Vinicius: Certa vez, o maravilhoso poeta e escritor, e amigo, João Cabral de Melo Neto, disse que se juntássemos a disciplina dele com o meu lirismo, finalmente o Brasil teria um grande poeta.(risos). Eu já desistira dessa coisa de ser o maior ou o melhor. Ele com aquela enxaqueca . . . aquela exigência consigo mesmo. Sei lá; preferi ir tocando do meu jeito. Foi a minha recusa à poesia não vivida. Drummond chegou a dizer ser eu o único da turma a ter vivido como poeta. Exagero amigo.

RS: As mulheres, claro, sempre presentes.
Vinicius: Sempre. A mulher é a ligação mais profunda e direta com a vida. Nove casamentos e algumas aventuras, tudo vivido mui intensamente enquanto durava; porém, sem jamais decifrar o mistério do eterno morrer na cruz dos seus braços. É . . . as mulheres são muito estranhas . . . muito estranhas.

RS: E os parceiros musicais ? Fale um pouco deles.
Vinicius: A parceria é como um casamento sem sexo. Há ciúmes, brigas, curtições, muita amizade e cumplicidade. O Tom Jobim, eu conheci no bar/restaurante Villarino, que fica próximo à Academia Brasileira de Letras. Fomos apresentados porque eu precisava de um arranjador para a peça ‘Orfeu da Conceição’(adaptação do drama da mitologia grega ‘Orfeu e Eurídice’ à realidade de um morro carioca). Ele, numa pobreza franciscana danada, foi logo perguntando se rolaria um dinheirinho (risos). Daí por diante, a parceria rendeu os frutos conhecidos e a garota mais famosa do mundo.

Depois veio o Carlinhos Lyra, com quem fiz o musical “Pobre menina rica”.
Com Baden Powel, foram os afro-sambas. Passamos 15 dias trancafiados no meu apartamento compondo “Berimbau”, “Canto de Ossanha”, “Tristeza e solidão”, entre outros.

RS: Você teve outros parceiros.
Vinicius: Francis Hime, Edu Lobo, Chico Buarque, João Bosco e, claro, o Toco.

RS: Toquinho foi especial, correto?
Vinicius: Muito. Há quem atribua a ele o milagre da minha profissionalização enquanto artista – se é que isto realmente ocorreu. Compusemos muita coisa boa. Foi uma nova fase. Eu entrava com uma certa malandragem e experiência acumuladas; ele, com o vigor da juventude e o virtuosismo de violonista. Estouramos com “Tarde em Itapoã”, depois vieram outras músicas: “Regra três”, “Samba da volta”, “Na Tonga da Milonga”; “Como dizia o poeta”. Poxa, foram tantas!

RS: Vinicius, você conheceu e conviveu com muita gente. Você gostava de gente. Uma pessoa incrível, na sua opinião?
Vinicius: Alfredo da Rocha Viana Júnior, o Pixinguinha. Pra esse eu tiro o chapéu. Não sei de onde ele tirava tanta sabedoria e bondade. Fizemos sambas juntos: “Mundo melhor e “Lamento”. Fui algumas vezes até sua casa, no subúrbio de Ramos, pra ouvi-lo tocar piano e sax. Além de chorinho, ele adorava Bach: ‘Vinicius, em Bach, está tudo de música!’. Outra figura fantástica foi o Paulinho Soledade, meu parceiro em “Poema dos olhos da amada”, “São Francisco”. Companheiro de copo e longos papos esotéricos na banheira.

RS: Quais os tipos mais irritantes?
Vinicius: Detesto fascistas e gente fiteira, afetada; quem não paga pra ver. A vida é uma só, meu caro. Duas mesmo que é bom ninguém vai me provar muito bem provado a não ser com certidão passada em cartório do céu e assinado embaixo: Deus. Com firma reconhecida. A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.

RS: Sua demissão do Itamaraty.
Vinicius: Foi em 1969, por ordem direta do então presidente Costa e Silva. No despacho vinha: “Ponha-se esse vagabundo para trabalhar!”. Chorei um dia inteiro, mas senti alívio depois.

RS: Uma música.
Vinicius: Ih, irmãozinho, foram tantas ! Nature boy’, de Éden Ahbez. Eu era do Itamaraty e fui designado vice-cônsul nos EUA, em Los Angeles, quando essa música nasceu, no final da década de 40. Marcou muito.

RS: Existiu alguma cobrança quando você largou a chamada ‘alta literatura’ pra se dedicar mais à música popular?
Vinicius: Sim, houve muita crítica. Sempre achei isso tudo uma grande bobagem. Veja o Pixinga, o Villa-Lobos. Eles transitavam do popular ao clássico sem nenhum drama de consciência. Uma forma alimentava a outra. A minha poesia não ficava mais fácil ou se descomplicava quando escrevia letras de música popular. Via essa cobrança como puro preconceito elitista de quem não conhece a fundo a riqueza da cultura popular. O Baden tocava qualquer suíte clássica para violão com destreza irretocável. Será que Andrés Segovia ou Tarrega, criadores do violão erudito, tocariam um samba como o Baden?

Eu tinha vergonha de cantar até João Gilberto me dizer: “Vina, todos têm o direito de cantar!”. Eu nunca mais esqueci essa frase dita por ninguém menos do que o João.

RS: Bom de poesia, copo e . . . polêmicas. (risos)
Vinicius: Nem tantas. As principais foram em São Paulo e Belo Horizonte. Estava numa boate em São Paulo, tentando, em vão, ouvir a voz e o piano do Johnny Alf, mas a turma estava mais interessada em fofoca e negócios do que em música. Aí eu me irritei e gritei pro Johnny pra ele parar de tocar porque o pessoal não dava bola pro seu talento, pois São Paulo era o túmulo do samba.

RS: E em Minas?
Vinicius: Eu chegara pro show, direto da casa de um amigo lá de Minas cuja amizade era tensa e meio competitiva. Lá pelas tantas, saiu a pérola: “Eu quero que a tradicional família mineira vá pra P#*@+!”. Quase apanhei (risos). O diplomata passou a ser o Toquinho (risos). Teve também uma rusga com um americano palpiteiro. Ele questionou meu verso “é melhor viver do que ser feliz”. Segundo ele, o certo seria: “é melhor viver e ser feliz”. O cara não entendeu nada.

RS: Poeta, quando ela chegou, foi mesmo a sua mais nova namorada?
Vinicius: Eu e o Carlinhos Lyra tomávamos chope no Barbas’s (bar do Nelsinho, filho de Nélson Rodrigues), quando fomos abordados por uma jovem jornalista, foquinha, que disparou em minha direção: “Vinicius, você tem medo da morte?” Eu, que já estava nos acréscimos, respondi, com serenidade, que o que tinha era saudades da vida. O querido Rubem Braga fez uma crônica linda sobre minha partida.

RS: Pra finalizar. Você começou místico, virou materialista e (Saravá, meu pai!) terminou compondo músicas para crianças. Por curiosidade, o que vem depois da . . .
Vinicius: Isto é um sonho, esqueceu?

E depois disso, ao mestre Rampa Singar, nada mais digo.

*Administrador e sociólogo