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quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Congresso virtual

 CVBRHS e CVIRHS


Nos dias 24, 25 e 26 de novembro serão realizados o II Congresso Virtual Brasileiro de Recursos Humanos Sustentáveis - CVBRHS e o I Congresso Virtual Internacional de Recursos Humanos Sustentáveis CVIRHS.

O tema será: Inovação e Desenvolvimento Sustentável do Trabalho Humano, tendo como Áreas Temáticas:
1- Gestão;
2 - Gestão de Recursos Humanos;
3 - Sustentabilidade;
4 - Inovação;
5 - Responsabilidade Socioambiental;
6 - Qualidade de Vida no Trabalho;
7 - Ética;
8 - Trabalho Remoto;
9 - Cidades Verdes;
10 - Espiritualidade; e
11 - Avaliação

 Informações e inscrições em Congresso

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Conhecimento e desenvolvimento

A economia da criatividade*


Ladislau Dowbor



Um produto hoje se torna viável e útil muito mais pelo conhecimento incorporado (pesquisa, design, comunicação etc., os chamados intangíveis) que pela matéria-prima e trabalho físico. Trata-se de um deslocamento-chave relativamente à economia dos bens materiais que predominaram no século passado.

O fator-chave de produção no século passado era a máquina. Hoje, é o conhecimento. Podemos chamar este, enquanto fator de produção, de capital cognitivo. O embate que hoje se trava no Brasil em torno da propriedade intelectual, ainda que se apresente sob a roupa simpática da necessidade de assegurar a remuneração do jovem que publica um livro ou do pobre músico privado do seu ganha-pão pela pirataria, envolve na realidade o controle do capital cognitivo. Nas palavras de Ignacy Sachs, no século passado a luta era por quem controlava as máquinas, os chamados meios de produção. Hoje, é por quem controla o acesso ao conhecimento. Estamos entrando a passos largos na sociedade do conhecimento, na economia criativa.

Como sempre, quando se trata de poderosos interesses, há uma profusão de enunciados empolados sobre ética, mas muito pouca compreensão, ou vontade de compreender, o que está em jogo. Este artigo busca trazer um pouco de explicitação dos mecanismos.

Podemos partir da construção teórica muito transparente que nos apresenta Clay Shirky, no seu Cognitive surplus(Excedente cognitivo). Primeiro, vem o próprio conceito de excedente cognitivo. Cada um de nós tem grande quantidade de conhecimentos acumulados, que nos vem tanto de estudos como de experiência prática. Compartilhamos apenas uma pequena parte desse conhecimento acumulado, e utilizamos menos ainda o nosso potencial. Somando o capital cognitivo acumulado em bilhões de pessoas no mundo, temos aí uma fonte impressionante de riqueza parada ou subutilizada.

Uma dimensão do uso desse capital cognitivo é a que utilizamos para a nossa sobrevivência, no emprego, nas pequenas negociações do cotidiano. Mas, de longe, a maior parte fica simplesmente armazenada na nossa cabeça, às vezes partilhada com filhos e amigos, na esperança que não repitam as nossas bobagens. E quando nos vem uma grande ideia, nem sempre a aproveitamos, pois não temos o meio de disponibilizá-la. Fica na nossa cabeça, com fortes possibilidades de mofo, a não ser que pertençamos ao ambiente de criação especializado que corresponde, ou surja um espaço colaborativo aberto em que possamos dar-lhe vazão. Em termos técnicos, é em grande parte um capital parado, ou travado por conceitos estreitos de interesses comerciais fixados na lógica da era dos bens materiais, destes que se trancam em casa ou na garagem.

O conhecimento é diferente. Um produto hoje se torna viável e útil muito mais pelo conhecimento incorporado (pesquisa, design, comunicação etc., os chamados intangíveis) que pela matéria-prima e trabalho físico. O computador que utilizamos poderá ter 5% de valor pela dimensão física do produto, e 95% pelo conhecimento incorporado. Trata-se de um deslocamento-chave relativamente à economia dos bens materiais que predominaram no século passado. A ideia que tenho não obedece às mesmas regras.

Conhecimento muda as relações comerciais

As regras são diferentes porque o conhecimento, como principal fator de produção de bens e serviços na economia moderna, muda as relações comerciais. Se peço um quilo de arroz emprestado a meu vizinho, devolverei o mesmo pacote de arroz, ou o valor equivalente — do contrário, ele terá prejuízo. Mas se ele me dá uma ideia sobre como preparar um bom prato com esse arroz, eu ganhei uma boa ideia e ele não perdeu nenhuma. Ele fica feliz por ensinar, eu por aprender. Por isso, aliás, é que todos nós oferecemos receitas, não o produto. O conhecimento é um fator de produção que, contrariamente ao arroz, aço, petróleo ou madeira, não reduz quando se consome. Pelo contrário, como cada ideia tende a gerar outras ideias por via de associações inovadoras, o estoque de ideias se multiplica. E como a ideia está se tornando o principal fator de geração de riqueza, todos enriquecem. A não ser, naturalmente, que alguém diga “esta ideia é minha”, e a tranque em barreiras virtuais.

A mudança é profunda. Tudo que estudamos em Economia está centrado na sua missão principal, que é a alocação racional de recursos escassos: alocação de bens que, se forem utilizados num produto, não estarão disponíveis para outros. No caso da ideia, do conhecimento, deixam de ser escassos por duas razões: primeiro, porque pela própria natureza não são bens rivais, quem comunica uma ideia não deixa de tê-la. Segundo, porque a ideia, sendo imaterial, software da economia por assim dizer, pode ser transmitida em volumes virtualmente infinitos nas redes de internet que hoje conectam o planeta: 2 bilhões de pessoas hoje, e durante esta década provavelmente todos os habitantes, todas as escolas, todas as empresas, repartições públicas, hospitais ou postos de saúde. É a era da conectividade. Como o conhecimento deixa de ser escasso, em vez de buscar novas regras, empresas tentam torná-lo escasso, para que possam cobrar pelo acesso. Em vez de multiplicar riqueza, o sistema passa a restringi-la.

A mudança atinge também outro ponto básico da teoria econômica: o das motivações. Durante longo tempo, o nosso raciocínio econômico se viu paralisado pela magistral simplificação de que as motivações no comportamento econômico se reduzem à maximização racional de vantagens. Realmente, se é para apertar 3 mil parafusos por dia, a possível motivação não está no que fazemos, mas no quanto isso nos rende. A economia criativa desperta uma grande motivação subestimada: o prazer de realizar uma coisa útil, o gosto de contribuir, a excitação de uma coisa nova. Junte-se o prazer de construir algo de forma colaborativa com outras pessoas, a satisfação do trabalho competente, e temos a mistura necessária para uma profunda transformação nas regras do jogo. Nas palavras de Shirky: “Assumir que as pessoas são egoístas pode se tornar uma profecia que se autoconfirma, criando sistemas que asseguram muita liberdade individual para agir, mas não muito valor público ou gestão de recursos coletivos para o bem público” [1].

Podemos ir além: hoje, colaborar não é apenas uma oportunidade, é uma necessidade. Para a sobrevivência de todos, o acesso às tecnologias que reduzem o impacto climático, por exemplo, não só não deve ser travado por patentes, como fomentado. Generalizar o conhecimento, ampliar a base planetária de pessoas conscientes, torna-se cada vez mais vital. Afinal, estamos gastando rios de recursos em educação para depois travar o acesso ao conhecimento?

De onde vem o sucesso da Wikipédia, a maior e mais eficiente enciclopédia que a humanidade já produziu? Vem simplesmente do prazer das pessoas contribuírem para o conhecimento geral. O imenso estoque planetário de conhecimentos acumulados na cabeça das pessoas, com a sua impressionante diversidade, pode simplesmente ser transformado em instrumentos úteis para todos. E na era da economia do conhecimento, quando este se torna o principal fator de produção de riquezas, colocar em rede tal capital cognitivo melhora a condição humana. Viver melhor não constitui uma remuneração, ainda que não monetária? Quase esquecemos o quanto o WWW e a conectividade planetária resultante estão dinamizando a produtividade de todos nós e melhorando a nossa qualidade de vida. Quem administra a internet é uma instituição sem fins lucrativos. As ondas eletromagnéticas são um bem público.

Qual é a governança do sistema que resulta? Juntando-se os aportes de livros como Cognitive surplusde Clay Shirky; Wikinomicsde Don Tapscott e Anthony Williams; Grátis: O futuro dos preços, ou ainda A cauda longa de Chris Anderson;Apropriação indébita de Gar Alperovitz e Lew Daly;O futuro das ideias ou Remix de Lawrence Lessig;A era do acesso de Jeremy Rifkin, e outros, constatamos que estão se desenhando os mecanismos e a teoria desse novo universo, a economia do conhecimento.

*Extraído de Outras Palavras

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Educação e mercado

'A lógica do mercado prevalece na educação chilena'*



Gustavo Gerrtner, para o Página/12


Camila Vallejo não se deixa enganar pelos indicadores econômicos. O último Informe de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas poderia situar o Chile dentro do grupo de estados com “alto desenvolvimento humano” no âmbito da educação. Mas para ela, a educação em seu país continua sendo dominada por uma lógica mercantilista, que se reflete no alto custo econômico para as famílias dos estudantes. Nos bastidores do Centro Cultural Kirchner, minutos depois de concluir sua conferência “Política, Luta e Hegemonia” – na qual falou quase sem olhar suas anotações – a ex-dirigente estudantil, hoje deputada comunista, falou com o diário argentino Página/12, sobre os obstáculos que a criação de um sistema educacional de qualidade e voltado para a maioria da população do Chile. “Quando havia vontade de mudar, não havia maioria política para levar a essas mudanças, quando conseguimos gerar maior consenso dentro do mundo político, através das pressões dos movimentos sociais, lamentavelmente, os acordos que mantêm o sistema político e sua carga ideológica falaram mais alto”, afirmou.

Para Vallejo, nos últimos 25 anos, os governos que sucederam a ditadura de Pinochet (1973-1990) não quiseram ou não puderam reformar o sistema educativo devido à influência da ideologia neoliberal dentro da política chilena. “Esse pensamento penetrou alguns setores da Concertação (coalizão política que governou o país entre 1990 e 2010), através do convencimento ideológico, mas também devido à rede de privilégios e benefícios gerada pela mercantilização”, comentou ela. “Muitos se tornaram administradores privados das escolas públicas, donos ou acionistas de universidades, todos são parte do negócio e isso impede uma mudança mais radical no setor”. As políticas educacionais implantadas no Chile transformaram a educação do país num enorme negócio, onde até mesmo as escolas públicas, administradas por grupos privados, fundações ou cooperativas de professores, cobram mensalidades.

Vallejo lembra que algumas das mesas de trabalho criadas no Congresso durante os governos anteriores contou com a participação de acadêmicos, políticos e também dos dirigentes estudantis, como ocorreu após a chamada “Revolução dos Pinguins” (nome dado à mobilização realizada em 2006 pelos estudantes secundaristas, conhecidos como “pinguins”, devido ao seu uniforme engravatado), mas que depois, essas deliberações eram levadas ao parlamento, onde tinham que ser negociados com a direita. “Dessa época, surgiu uma lei (em 2009, durante o primeiro governo de Michelle Bachelet) que não representava o que havia sido conversado nas mesas de trabalho. Essa foi a grande traição ao Movimento Estudantil, que ainda não esqueceu o que aconteceu”, contou a deputada, que naquele então era presidenta da Federação de Estudantes da Universidade do Chile.

O Partido Comunista chileno, ao qual Vallejo representa no Congresso, forma parte da Nova Maioria, a coalizão que governa o país. “Em algum momento, o esforço que fazemos agora para impulsar as reformas, entre elas a do sistema educacional, vai esbarrar na questão constitucional”, explicou ela. “Podemos fazer muitas coisas, mas estamos sempre sob o risco de sermos impedidos pela inconstitucionalidade, já que o que prevalece na atual Constituição (imposta durante a ditadura de Pinochet) é um conceito de liberdade de ensino que se confunde com liberdade de empresa. E para mudar a Constituição, necessitamos de um quórum muito maior que o que temos agora no parlamento”, lamentou.

Em setembro, a presidenta chilena Michelle Bachelet apresentou ao Congresso o orçamento para o ano de 2016, que, se aprovado, financiará a educação gratuita para um milhão e meio de alunos da rede pública e mais de 200 mil universitários que pertencem aos extratos socioeconômicos mais vulneráveis do país. Assim, o de Educação passaria a ser o ministério que com mais verbas do país. Vallejo reconhece avanços no projeto, mas considera que será insuficiente, devido às mudanças estruturais que as escolas necessitam, e que requerem um investimento muito maior. “Existe uma dívida histórica tão grande com a educação pública que para alcançar a qualidade que queremos é preciso investir em vários outros aspectos”, alertou.

“Precisamos inovar em investigação, desenvolvimento científico e tecnologia, criar um maior vínculo entre as instituições de educação superior e os territórios ao qual elas pertencem. Com o projeto atual de reforma educacional, estamos promovendo o fim do lucro na educação pública chilena, e eliminando a segregação nas escolas e o financiamento compartilhado entre o Estado e as famílias. Significa que nenhuma escola poderá discriminar alunos, que demos um primeiro passo para haver gratuidade no sistema educacional chileno, que vai começar nos níveis menores, e depois chegará à educação superior. Mas ainda temos poucos detalhes sobre os fundos que serão destinados à recuperação da educação pública”, opinou Vallejo, que recebeu há dois anos seu diploma de Geografia, da Universidade do Chile.

“O discurso de buscar ter o PIB e o crescimento mais alto da América Latina tem sido uma grande falácia, porque não se transformou em melhores condições de vida para a população”, sentenciou. “Os governos posteriores à ditadura consolidaram a separação entre o povo e o Estado”, analisou a deputada. “A perseguição às organizações sindicais, ao mundo da cultura, professores e estudantes gerou uma ferida social brutal, que se reflete hoje no temor que os pais têm de que os jovens participem da política”. Para a deputada, a onda de ojeriza à política foi instalada pelos meios de comunicação, e também por iniciativas impulsadas dentro do sistema educativo. Segundo ela, para reconciliar o povo e a política, é preciso aprofundar a democracia. “Não podemos restringir a participação da cidadania na política a um voto dado a cada quatro anos. O Estado deve ter instâncias locais ou comunitárias de participação política. Por outro lado, a sociedade civil deve compreender a dimensão e a importância de formar parte do Estado, de disputar os espaços políticos, e não se isolar ou dizer que `esse mundo é tão podre que é melhor não se envolver´, e perceber que pode e deve se envolver”.

Tradução: Victor Farinelli

De líder estudantil a deputada mais votada do Chile
Por Victor Farinelli

Ela hoje é uma das políticas mais conhecidas do país, mas há cinco anos atrás era somente uma dirigente estudantil sem grandes pretensões além de se formar em Geografia e passar férias em Florianópolis.

Em 2011, Camila Vallejo foi eleita presidente da Federação de Estudantes da Universidade do Chile – que apesar de ser a maior instituição de ensino superior do país, não é gratuita, pelo contrário, é uma das que possui a mensalidade mais cara. Em maio daquele mesmo ano, durante o governo de Sebastián Piñera (2010-2014, o primeiro da direita chilena após a ditadura), ela liderou as primeiras marchas estudantis contra o sistema educacional chileno e o super endividamento que ele causava às famílias. As marchas tiveram alta convocatória, e passaram a ser semanais. Uma dessas marchas, em meados de julho daquele ano, chegou a reunir 300 mil pessoas no centro de Santiago e 500 mil contando as realizadas simultaneamente nas capitais das províncias, tornando-se a maior manifestação realizada no país após a ditadura.

O movimento liderado por Vallejo instalou definitivamente a educação como o assunto prioritário no debate político chileno, o que ficou evidente dois anos depois, quando a disputa presidencial se deu entre a ex-presidente Michelle Bachelet, que buscava voltar ao Palácio de La Moneda com a promessa de uma reforma educacional com bases semelhantes às demandadas pelo Movimento Estudantil, e a líder conservadora Evelyn Matthei, cuja proposta era a de manter e reforçar o modelo mercantil de educação. Em dezembro de 2013, Bachelet foi eleita com 63% dos votos, resultado que evidenciou o apoio popular por mudanças profundas na educação.

Naquele mesmo processo eleitoral, o Movimento Estudantil levou quatro dos seus líderes para a Câmara dos Deputados, com destaque para Camila Vallejo, que foi a deputada mais votada do país e foi preponderante para que o Partido Comunista tivesse o seu melhor desempenho eleitoral desde o retorno da democracia – conseguindo seis das 120 cadeiras da Câmara.

*Extraído de Carta Maior

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista

Trouxeste a chave?



O artigo 205, da Constituição brasileira de 1988, garante a todo o cidadão deste país que “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”, assenta, portanto, sua base em três dimensões: desenvolvimento humano, cidadania e trabalho.

Se é inegável que a universalização da educação, especialmente no Brasil, trouxe avanços sem precedentes para a organização da sociedade, é igualmente verdade que as assimetrias no processo educativo têm provocado distorções na maneira como cada uma dessas dimensões é resguardada no cumprimento deste direito constitucional.

Os desafios impostos pela contemporaneidade aos indivíduos requer a ampliação do saber de modo sempre constante; seja para fazer valer os seus direitos enquanto cidadão, seja no processo de especialização necessário aos desafios de inserção plena no mundo trabalho. Mas, fundamentalmente é no tocante ao desenvolvimento humano que o conhecimento torna-se o principal ativo que os indivíduos possuem para manterem-se críticos em relação ao tipo de ambiente que se pretende compartilhar.

Desta forma, discutir o papel cultural (e político) da educação na atualidade é assunto que não deveria ser negligenciado por nossos intelectuais e cidadãos de modo geral, dada a relevância que seus desdobramentos assumem em nossa vida social.

Por isso, a edição V de Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista introduz o debate ao lançar, por meio dos artigos que a compõem, questões a serem refletidas pelos seus leitores e eventualmente desenvolvidas em seus espaços de atuação.

A edição é composta de duas partes. Dois artigos debatem de modo mais amplo o papel da Educação dentro das dimensões acima mencionadas, quais sejam, no tocante ao mundo do trabalho e às políticas educacionais. Outros dois artigos que tratam de especificidades da educação aplicada.

O artigo da Socióloga argentina Silvia Patrícia Altamirano introduz o pertinente debate acerca do desemprego juvenil no Brasil. Destaca que, a despeito de programas e políticas implementadas no sentido de reduzir o percentual de jovens desempregados, é a insuficiência de postos no mercado de trabalho o principal responsável pelo agravamento dessa situação.

Na sequência, a Educadora Isa Martins, aborda a inserção acrítica das  Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no ambiente da escola. Ao problematizar com aguda propriedade os paradoxos da política educacional implementada pelo Ministério da Educação (MEC) questiona se a lógica de utilização indiscriminada dessas tecnologias como ferramentas educacionais não estaria subordinando a interesses de mercado a mediação das relações professor-aluno. Debate altamente relevante, portanto.

Entrando no debate aplicado dos processos educacionais em áreas específicas do conhecimento, o artigo do Administrador Marcelo Marujo e da Contadora Laila Tavares trata das competências do profissional contábil de seguros, trazendo ao debate, inclusive, questões sobre a sua formação na grade curricular das graduações em Ciências Contábeis no país.

Por fim, na seção de Temas Gerais, novamente o Administrador Marcelo Marujo, em parceria com o Analista de Sistemas Fischer Jônatas Ferreira apresentam suas contribuições à análise da documentação técnica sobre o desenvolvimento e manutenção de softwares, em especial contrapondo as metodologias de desenvolvimento de software Clássica e Ágil.

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista é uma publicação independente e decorre do esforço de professores e pesquisadores que se propõem a abrir um espaço de reflexão e debate acerca de temas que contribuam para um outro olhar da realidade e para a construção de um outro mundo. Nossas edições estão disponíveis gratuitamente mediante cadastro no endereço www.plurimus.com.br.

Podem participar todos os interessados em se apresentar para esse processo plural. A próxima edição terá como tema central a questão da Participação Social, sempre dentro do nosso recorte editorial, contemplando as várias possíveis nuances em que se pode discutir um tema tão contemporâneo e relevante quanto este. Contamos com a suas ideias.

Boa leitura!


Os Editores

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Educação e mercado


Kroton, Anhanguera e a soberania*

Marco Piva**

Guardada a sete chaves como todo negócio que envolve ações na Bolsa de Valores, a aquisição da Anhanguera pela Kroton foi tratada pela grande imprensa como “fato relevante”, o que é, e como “fusão”, o que não é. Numa só canetada, ditada pelo interesse econômico, a educação brasileira foi elevada à mesma categoria de distribuidora de combustíveis e produtos alimentícios. A Kroton é o braço educacional da Adviser, um dos maiores fundos globais de investimento, especializado no ditado popular “quem pode, manda, quem tem juízo, obedece”.

A operação está avaliada em R$ 5 bilhões, o que faz da Kroton uma empresa de R$ 12 bilhões em ações na BM&FBovespa. Dinheiro em espécie mesmo, nenhum. Para que? Somente o anúncio do fato relevante, que é, elevou em 8% o valor das ações do grupo. Mas, para quanto será elevada a qualidade do ensino proporcionado aos estudantes das classes C e D que frequentam as faculdades da dupla Kroton/Anhanguera? Esse é um problema do MEC, dizem os comentaristas econômicos da grande mídia. Cabe às autoridades da educação fiscalizar e exigir seus critérios de qualidade. Simples assim. Os alunos, por sua vez, poderão dizer se estão satisfeitos ou não com os seus cursos mudando de faculdade, se for o caso. Mais simples ainda.

Entretanto, o que está por trás de um negócio dessa dimensão ultrapassa as fronteiras da economia para alcançar o terreno da soberania. Vejamos. O Brasil, ao contrário de vizinhos mais pobres da América do Sul, possui proporcionalmente menos estudantes universitários. São 6,7 milhões de estudantes no ensino superior. Desse total, 4,9 milhões frequentam instituições privadas e 1,8 milhão estão na rede pública nos três níveis: federal, estadual e municipal. Somente a Kroton terá, de saída, 1,2 milhão de alunos. Na escala decrescente dos maiores grupos educacionais privados estão New Oriental, Estácio, DeVry, Apollo, Abril Educação, Apei, Strayer e Megastudy. Um doce para quem adivinhar qual desses grupos tem capital exclusivamente brasileiro.

Nos últimos dez anos, o governo federal tem incrementado políticas públicas de estímulo ao ingresso no ensino superior. O Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) e o Programa Universidade Para Todos (Prouni) são exemplos de políticas bem sucedidas, mas que por resistências ideológicas de variados matizes, ainda não deslancharam como poderiam. A distribuição da renda e a política de aumento real dos salários proporcionaram a consolidação de uma nova classe média, disposta a comprar, num primeiro momento, aqueles bens que a cultura do consumo torna necessários. No segundo momento da onda de consumo, a juventude dessa nova classe média poderá comprar bens de educação. Por isso, numa conta de chegada o Brasil pode colocar para dentro da faculdade algo em torno de 10 milhões de jovens entre 18 e 24 anos no próximo quinquênio . Nada mal para as estratégias empresariais de larga escala.

Mas, qual será a formação que esses jovens terão? Serão treinados na doutrina do “pode quem manda, obedece quem tem juízo” ou poderemos sonhar com um Brasil mais justo, soberano e solidário? O que acontecerá com os últimos grupos educacionais 100% brasileiros? Brandirão uma resistência heroica ao lado da sociedade em aliança com os movimentos sociais ou vão sucumbir aos apelos sedutores de uma conta bancária gorda e individual?

Certos comentaristas da grande mídia insistem em dizer que política não se mistura com economia, que é a pegadinha ideológica para passar gato por lebre. No caso da educação, a concentração nas mãos de poucos grupos privados sustentados por fundos globais de investimento coloca, no mínimo, uma questão estratégica para o futuro: qual a educação que queremos para o Brasil? O CADE e o MEC tem a palavra.

*Extraído de Altamiro Borges
**Jornalista especializado em educação.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Revista eletrônica Plurimus


Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista


Estamos lançando a edição III de nossa revista eletrônica!

Tendo o Rio de Janeiro como tema central, esta edição entra no segundo ano alcançando uma diversificação de autores e de abordagens. Temas gerais complementam a edição III, de modo a oferecer opções de leitura e debate, sem a pretensão de apontar caminhos, uma vez que o espaço e o alcance de sua repercussão, embora por meio eletrônico, não substitui a mobilização política efetiva na sociedade civil.

Sobre o Rio de Janeiro temos as contribuições de:
  •  Celso Evaristo Silva, com O Rio sempre deu samba, em que navega na inspiração que nossa cidade causa aos seus poetas e artistas;
  •  Julia Bloomfield Gama Zardo e Ruth Espínola Soriano de Mello, que em Rio cidade criativa: economia criativa e ambientes para o desenvolvimento,  destacam a percepção crescente da existência e valorização de iniciativas de promoção de ambientes que concentram fatores de estímulo à inovação produtiva, cooperativa e criativa;
  •  Delmo Manoel Pinho e Eduardo Duprat F. Mello - trazem Oportunidades e desafios para a logística e infraestrutura viária no Estado do Rio de Janeiro, artigo em que chamam atenção para as oportunidades de investimentos que se abrem no país para projetos na infraestrutura de logística e transportes, com destaque para o Rio de Janeiro; e
  • Simone Amorim conclui o debate desta edição sobre o Rio de Janeiro com Participação e democracia: reflexões sobre a experiência recente das Políticas de Cultura no Estado do Rio de Janeiro. O artigo apresenta uma reflexão sobre a implementação do Sistema Estadual de Cultura do Rio de Janeiro.
 Na parte de temas gerais apresentamos:
  •  Isa Ferreira Martins, com Mídia, poder e sujeito-escritor, tema que aborda os desdobramentos da mídia, em especial a televisão na formação do Sujeito-Escritor;  e
  • George de Souza Alves, que apresenta o artigo O fetiche tecnológico e as relações entre o ciberespaço e a globalização, em que explora as contradições entre o avanço da ciência e da tecnologia e o aumento da destruição da natureza, fome e miséria em diversas regiões do planeta.

A edição é concluída com o artigo Pacto Global: sustentabilidade de mercado ou nova hegemonia?, que apresentei no VIII Congresso Mundial de aAdministração e XXII Encontro Brasileiro de Administração, realizados no Rio de Janeiro em 2012.

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista é uma publicação independente e decorre do esforço de professores e pesquisadores que se propõem a abrir um espaço de reflexão e debate acerca de temas que contribuam para um outro olhar da realidade e para a construção de um outro mundo. Nossas edições estão disponíveis gratuitamente mediante cadastro no nosso site. Dela podem participar todos os interessados em se apresentar para esse processo plural. A próxima edição terá como tema central a Cultura, sempre dentro do nosso recorte editorial.

Boa leitura a todos! 

Daniel Roedel
Editor

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Revista eletrônica

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista

Daniel Roedel

O Rio de Janeiro experimenta na atualidade um momento significativo de oportunidades de desenvolvimento. Impulsionado por grandes eventos internacionais que sediará, e pela economia do petróleo e gás, tem se destacado na atração de investimentos em relação aos demais estados e municípios do país e até mesmo de tradicionais pólos internacionais.

Tais iniciativas são bem-vindas, uma vez que aportam elevados recursos que podem fazer com que se promova um efetivo desenvolvimento, e se recupere uma posição de destaque na economia nacional e no imaginário social, inclusive no âmbito internacional.

No entanto, há que se considerar o modo como esses projetos estão sendo negociados e implementados. Os impactos ambientais da atividade extrativa é considerável, bem como a ocupação de áreas para apoiar essa indústria e seus processos derivados.

Já o investimento em turismo e grandes eventos requer que as mudanças na ocupação do espaço urbano respeite as populações e as inclua nas melhorias decorrentes.

Temos o entendimento de que a agenda deve priorizar um efetivo desenvolvimento (econômico, social, ambiental) e não apenas mais um crescimento excludente que serve apenas para favorecer a iniciativa privada que passa a ocupar os espaços urbanos. Afinal, trata-se de investimentos com recursos que são públicos e que se realizam em espaços predominantemente públicos. Logo, o legado tem que incluir o benefício para a sociedade.

Assim, a próxima edição de Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista (ISSN 2238-1953) terá como tema central o Rio de Janeiro.

Poderão ser enviados artigos e resenhas de livros que articulem o estado ou o município do Rio de Janeiro com o recorte editorial da revista: gestão, educação, história, cultura, sustentabilidade, cidadania e desenvolvimento local.


Além de artigos de pesquisadores e especialistas no tema haverá um espaço específico para estudantes de cursos de pós-graduação lato sensu. 

Conheça a revista e participe da nossa edição III. Acesse Plurimus.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Ensino Superior e tecnologia

Universidades virtuais*
Thomaz Wood Jr**

George Bernard Shaw fuzilou: “Desde pequeno tive de interromper minha educação para ir à escola”. Albert Einstein não ficou atrás: “É um milagre que a curiosidade sobreviva à educação formal”.

Nossa sociedade celebra a educação, mas não perde oportunidade para criticar as escolas. E não faltam motivos. O Brasil tem um sistema peculiar. Nossa antiga classe média frequenta colégios privados e universidades públicas, nas quais entra sem objetivos, frequenta sem inibições e sai sem aspirações. Durante quatro ou cinco anos, convive com mestres de imponentes insígnias e pouco apreço à educação.

Nossa nova classe média frequenta colégios públicos e universidades privadas, nas quais entra com algumas ambições, frequenta como pode e sai por sorte. Durante quatro ou cinco anos, convive com mestres que são verdadeiros operários do ensino, com muitas contas a pagar e pouco tempo para se dedicar.

Agora, dizem os sabidos e novidadeiros, a grande novidade é a universidade virtual. Mais uma vez, profetizam, as novas tecnologias vão operar o milagre de transformar água em vinho, pedra em pão. Será?

O Coursera é um start-up norte-americano criado pelos professores de Ciência da Computação Daphne Koller e Andrew Ng, da Universidade de Stanford, matriz maior de empresas do Vale do Silício. A empresa foi criada com a missão de oferecer, gratuitamente, por meio da internet, a qualquer indivíduo, a melhor educação do mundo, leia-se, aquela oferecida pelas melhores universidades. Por enquanto, a empresa sobrevive graças a investidores.

O fato relevante foi o anúncio recente de que mais uma seleta lista de universidades concordou em fornecer conteúdo para o Coursera disponibilizar na rede. As parceiras da empresa agora incluem as universidades de Princeton, Duke, Stanford, Pensilvânia, Michigan, Toronto e Edimburgo, entre outras. Uma delas já declarou que reconhecerá créditos realizados no Coursera, outras duas informaram que colocarão mais 3,7 milhões de dólares na empresa, elevando os investimentos a 22 milhões de dólares. No próximo período letivo, o Coursera pretende oferecer mais de cem cursos online, visando atingir 100 mil alunos. Não é pouco!

A educação superior tornou-se uma grande questão e, ao mesmo tempo, um grande negócio, atraindo empreendedores e investidores. O Coursera não está sozinho. Seus concorrentes incluem o projeto edX, da Universidade Harvard e do MIT, a Udacity e a Minerva. No Brasil, há iniciativas similares, tais como o Veduca, da iniciativa privada, e a Univesp, do governo do Estado de São Paulo.

Pensada como negócio, a educação superior é extremamente ineficiente: é cara, atende apenas uma pequena parcela da população e desperdiça recursos, à medida que cada professor (um recurso escasso e caro) cria o próprio conteúdo e o repete semestre a semestre para pequenas plateias, nem sempre muito interessadas. Segundo Koller, do Coursera, as aulas tradicionais surgiram há centenas de anos quando havia apenas uma cópia do livro, a do professor. Portanto, a única maneira de transmitir o conteúdo era o professor sentar na frente da classe e ler o livro. Hoje, com o uso das tecnologias de informação e comunicação, há maneiras mais eficientes de transmitir conteúdo, sugeriu a empreendedora em entrevista para a revista The Atlantic.

Naturalmente, as investidas da lógica de mercado sobre a educação superior causam arrepios. Entretanto, iniciativas como as do Coursera não devem ser temidas. Aulas ao vivo, para grandes plateias, como ocorre com frequência nos ciclos básicos dos cursos superiores, estão se tornando anacrônicas. Alguns professores tentam agir como animadores de auditório, usam anedotas e recursos performáticos para manter a atenção das hordas de apedeutas. A vítima é o aprendizado.

Um sistema de estudo dirigido, com apoio de recursos online e que respeite o ritmo do aprendiz pode, eventualmente, ajudar. Afinal, o valor de frequentar uma instituição de ensino superior não está nas aulas básicas, mas no contato com professores e colegas, na criação de redes de relacionamento e, principalmente, no trabalho conjunto e na realização de projetos de interesse comum.

Iniciativas como as do Coursera e de seus pares estão ainda em sua infância. Os conteúdos são fragmentados e muitos registros foram feitos simplesmente colocando-se uma câmera no fundo de uma sala de aula. A estética é pobre, e o material divulgado não é atraente. A grande promessa pode se transformar em grande decepção. Não terá sido a primeira vez. Não será a última. Talvez, o que precisamos é mais Jean Piaget e menos Bill Gates; mais Paulo Freire, menos Steve Jobs.

*Extraído de Carta Capital 
**Administrador e professor universitário

quinta-feira, 1 de março de 2012

Estado

As duas faces do Estado*
Pierre Bourdieu**

Descrever a gênese do Estado é descrever a gênese de um campo social, de um microcosmo social relativamente autônomo no interior de um mundo social abarcador, onde se joga um jogo particular, o jogo político legítimo. Um exemplo é a invenção do Parlamento, lugar onde os problemas que opõem grupos de interesses conflitantes são alvo de debates públicos realizados segundo formatos e regras específicas. Marx analisou apenas os bastidores: o recurso à metáfora do teatro, à teatralização do consenso, mascara o fato de que existem pessoas que manipulam os cordéis das marionetes, e que as verdadeiras apostas, os poderes de fato, estão em outro lugar. Retomar a gênese do Estado é retomar a gênese do campo onde a política se desenrola, se simboliza, se dramatiza em suas formas características.

Entrar nesse jogo do político legítimo, com suas regras, é ter acesso à fonte progressivamente acumulada do “universal”, à palavra universal, às posições universais a partir das quais é possível falar em nome de todos, do universum, da totalidade de um grupo. É possível falar em nome do bem público, do que é o bem público, e, ao mesmo tempo, apropriar-se dele. Esse é o princípio do “efeito Janus”: há pessoas que possuem acesso ao privilégio do universal, mas não é possível ter o universal sem ao mesmo tempo monopolizar o universal. Há um capital do universal. O processo constitutivo dessa instância de gestão do universal é inseparável do processo de constituição de uma categoria de agentes que se apropriam desse universal.

Tomo um exemplo do âmbito da cultura. A gênese do Estado é um processo ao longo do qual se dá uma série de concentrações de diferentes formas e recursos: concentração da informação (relatórios, estatísticas com base em pesquisas), de capital linguístico (oficialização de uma língua como idioma dominante, de forma que as outras línguas de um território nacional passem a figurar como formas depravadas, desviadas ou inferiores à dominante). Esse processo de concentração se dá junto ao processo de desapropriação: constituir uma cidade como capital, como local onde se concentram todas as formas do capital[1], é relegar o Estado e o resto do país à desapropriação do capital; constituir uma língua legítima é relegar todas as outras à condição de patoás[2].

A cultura legítima é a cultura garantida pelo Estado, garantida por essa instituição que garante os títulos de cultura, que entrega diplomas cuja função é validar a possessão de uma cultura garantida. Os programas escolares são questão de Estado; modificar um programa é modificar a estrutura de distribuição do capital, é definhar certas formas de capital. Por exemplo, suprimir o latim e o grego do ensino é devolver ao poujadismo toda uma categoria de pequenos portadores de capital linguístico. Eu mesmo, em todos os meus trabalhos anteriores sobre a escola, nunca deixei de lado completamente o fato de que a cultura legítima é a cultura do Estado...

Essa concentração é, ao mesmo tempo, uma unificação e uma forma de universalização. Onde havia o diferente, o disperso, o local, passa a figurar o único. Com Germaine Tillion, comparamos as unidades de medida em diferentes povoados cabilas em um raio de 30 quilômetros: as variações correspondiam ao próprio número de vilarejos, cada um com suas particularidades. A criação de unidades de medida nacionais e estatais é um progresso em direção à universalização: o sistema métrico é um padrão universal que supõe consenso, do latim consensus, “concordância” ou “conformidade”. Esse processo de concentração, de unificação, de integração é acompanhado de um processo de desapropriação, porque todos os saberes e competências associados ao local passam a ser desqualificados.

Dito de outra forma, o próprio processo pelo qual se constitui a universalidade vem acompanhado da concentração da universalidade. Há aqueles que querem o sistema métrico (os matemáticos) e aqueles que remetem ao local. O próprio processo de constituição de padrões comuns é inseparável da conversão desses padrões comuns em capital monopolizado por aqueles que possuem o monopólio da luta pelo monopólio do universal. Todo esse processo – constituição de um campo, autonomização do campo em relação a outras necessidades; constituição de uma necessidade específica em relação à necessidade econômica e doméstica; constituição de uma reprodução específica de tipo burocrática, específica em relação à reprodução doméstica, familiar; constituição de uma necessidade específica em relação à necessidade religiosa – é inseparável do processo de concentração e constituição de uma nova forma de recursos que passam a fazer parte do universal, ou de um grau de universalização superior aos que existiam antes. Passou-se do pequeno mercado local ao mercado nacional, seja no aspecto econômico ou simbólico. A gênese do Estado é, em suma, inseparável da constituição do monopólio do universal, e o exemplo por excelência desse processo é a cultura.

Todos os meus trabalhos anteriores podem ser resumidos da seguinte forma: essa cultura é legítima porque se apresenta como universal, oferecida a todos porque, em nome dessa universalidade, podemos eliminar sem medo aqueles que não estão nela inseridos. Essa cultura, que aparentemente une, mas em realidade divide, é um dos grandes instrumentos de dominação porque pressupõe monopólio, monopólio terrível porque não podemos acusá-la de privada (pois é universal). A cultura científica leva esse paradoxo ao extremo. As condições da constituição desse universal, de sua acumulação, são inseparáveis da condição de existência de uma casta, de uma nobreza estatal, de “monopolizadores” do universal. A partir dessa análise, fala-se em universalizar as condições de acesso ao universal. Está por definir-se, contudo, como levar adiante esse projeto: é necessário desapropriar os “monopolizadores”? Não é exatamente por esse lado que se deve buscar a resposta.

Termino com uma parábola para ilustrar o que disse sobre método e conteúdo. Há trinta anos, em uma noite de Natal, fui a um pequeno vilarejo nos confins de Béarn para assistir a um pequeno baile camponês[3]. Alguns dançavam, outros não; algumas pessoas, mais velhas que outras, com estilo camponês, não dançavam, conversavam entre elas e se entretinham para justificar o fato de estar ali sem participar do baile, para justificar a presença insólita. Deveriam ser casados, porque quando se é casado, não se dança mais. O baile é um desses lugares de intercâmbio matrimonial: é o mercado dos bens simbólicos matrimoniais. Havia um alto índice de homens solteiros: 50% dos que tinham entre 25 e 35 anos.

Tentei encontrar um sistema explicativo para esse fenômeno: é que antes havia um mercado local protegido, não unificado. Quando o chamado Estado se constitui, ocorre a unificação do mercado econômico ao qual o Estado contribui com sua política e a unificação do mercado de trocas simbólicas, ou seja, o mercado das posturas, das maneiras, das vestimentas, da pessoa, da identidade, da apresentação. Essas pessoas tinham um mercado protegido, local, sobre o qual tinham controle, o que permitia certa endogamia organizada pelas famílias. Os produtos do modo de reprodução camponês tinham lugar nesse mercado: eram vendáveis e tinham equivalentes, pares.

Na lógica do modelo que evoquei, o que aconteceu no baile é resultado da unificação do mercado de trocas simbólicas: o paraquedismo da pequena cidade vizinha que ganhava espaço no cenário regional era um produto desqualificante, pois aumentava a concorrência com o camponês. Dito de outra forma, a unificação do mercado, que pode ser apresentada como um progresso, de todos os modos para as pessoas que imigram – as mulheres e todos os dominados –, pode ter um efeito libertador. A escola transmite uma postura corporal diferente, outras formas de se vestir, de se comportar etc.; e o estudante tem um valor matrimonial nesse novo mercado unificado, enquanto o camponês é visto como desclassificado. A ambiguidade do processo de universalização está concentrada ali. Do ponto de vista das camponesas do vilarejo – que se casam com um “futuro” –, o matrimônio pode ser a porta de acesso ao universal.

Mas esse grau de universalização superior é inseparável do efeito de dominação. Recentemente, publiquei um artigo, espécie de releitura de minha análise sobre o celibato em Béarn na época, cujo título, algo jocoso, é “Reprodução proibida”[4]. Demonstro que a unificação do mercado tem por efeito a interdição da reprodução biológica e social de toda uma categoria de pessoas. Na mesma época, trabalhei sobre um material encontrado por acaso: o registro das deliberações comunitárias de um pequeno vilarejo de duzentos habitantes durante a Revolução Francesa. Nessa região, os homens votavam por unanimidade. Mas chegaram decretos impondo o voto por maioria simples. Eles deliberaram, houve resistência e o vilarejo se dividiu em um campo e outro campo. Pouco a pouco, a maioria se impôs: ela teve por trás o universal.

Houve grandes discussões ao redor desse problema suscitado por Tocqueville em relação à continuidade/descontinuidade da Revolução. Mas a questão permanece um verdadeiro problema histórico: qual é a força específica do universal? Os processos políticos desses camponeses de tradições milenares e coerentes foram abalados pela força do universal, como se eles tivessem de se inclinar a uma lógica mais forte: a da cidade, com seus discursos explícitos, metódicos e não práticos. Os camponeses tornaram-se, então, provincianos, locais. As deliberações passam a outras instâncias e aparecem fórmulas como “O prefeito decidiu que...”, “O conselho municipal se reuniu e...”. A universalização tem como efeito reverso a desapropriação e a monopolização. A gênese do Estado é a gênese do lugar da gestão do universal e ao mesmo tempo do monopólio do universal e de um conjunto de agentes que participa do monopólio de uma coisa que, por definição, é da ordem do universal.

Referências
[1] Essa relação entre o capital e a capital foi posteriormente desenvolvida por Pierre Bourdieu em “Effets de lieu” [Efeitos de lugar], La misère du monde [A miséria do mundo], Seuil, Paris, 1993, p.159-167.
[2] Sobre a língua legítima e o processo correlativo da desapropriação, ver a primeira parte de Pierre Bourdieu, Langage et pouvoir symbolique [Linguagem e poder simbólico], Seuil, Paris, 2001, p.59-131.
[3] Ver a descrição dessa “cena inicial” no início de Pierre Bourdieu, Le bal des célibataires. Crise de la société paysanne en Béarn [O baile dos solteiros.Crise da sociedade camponesa em Béarn], Seuil, Paris, 2002, p.7-14.
[4] Pierre Bourdieu, “Reproduction interdite. La dimension symbolique de la domination économique” [Reprodução proibida. A dimensão simbólica da dominação econômica], Études Rurales, n.113-114, 1989, p.15-36, retomada em Le bal des célibataires, op.cit., p.211-247.

**Sociólogo francês, falecido em 2002.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Mídia

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista 

Está disponível a nossa revista eletrônica! Trata-se de uma publicação semestral, com recorte editorial em gestão, educação, história, cultura, sustentabilidade, cidadania e desenvolvimento local.

A cada edição serão apresentados artigos, resenhas e entrevistas analisadas e selecionadas pelo nosso Conselho Editorial, sempre buscando propor uma perspectiva diferenciada e inovadora acerca dos temas que elegemos.

Esta edição, de número zero, traz artigos sobre:
  • Política cultural e participação social, de Simone Amorim;
  • A esquerda e o século XXI, de Fernando Vieira e Hiran Roedel;
  • Sustentabilidade e gestão competitiva, de Daniel Roedel;
  • Sustentabilidade e responsabilidade social empresarial, de Isauro Beltrán e Marcelo Marujo
  • A leitura, a tradução e a escrita, de Isa Ferreira; e
  • MST e mídia: o detournement e a construção de novo consenso, de Fernando Vieira.
Periodicamente serão editadas edições especiais com  ênfase em projetos, ações, políticas e dados de pesquisa sobre a centralidade da cultura nos processos de desenvolvimento local sustentável no Rio de Janeiro. Cada número dessas edições é precedido por pesquisa de campo realizada no período anterior à divulgação e conta com artigos de nossos pesquisadores, convidados e estudantes de cursos de pós-graduação.
A primeira edição especial da Revista terá como tema estudo da capacidade de desenvolvimento da economia da cultura numa região do município do Rio de Janeiro, potencial arranjo produtivo local de Cultura.

Junto com a Revista apresentamos o nosso site, que reunirá este blog e outras iniciativas da Plurimus.

Esperamos que Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista seja mais um espaço democrático de reflexão, crítica e proposição de caminhos para um outro mundo possível! 

Acesse a Revista e aproveite. Basta um rápido cadastro. Boa leitura!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Sustentabilidade

Uma câmera, novas ideias, velhos personagens atuando de formas diferentes...
Um mundo Sustentável e Melhor pode começar na Narrativa

Isa Ferreira Martins* 

No artigo "Vamos fazer de conta que você é..." cito como a Narrativa faz parte do nosso pensamento, cotidiano, vida...  Então por que não explorarmos a infinidade de imagens, sons e lugares aos quais nos podem levar a narrativa audiovisual?  O trabalho com a linguagem visual e sonora pode despertar no estudante a sensibilidade para os diversos códigos e consequentes interpretações que podemos ter ou provocar ou, ainda, colocá-lo diante do desafio: “o que quero dizer e o como dizer”.

Sabemos que existem milhares de interpretações, sensações ou expectativas ao vermos uma menina, de 2 anos, perdida, no meio de uma praça, chamando “mamãe, mamãe...”. Se a cena ocorre às 10h da manhã, o efeito no espectador é um.

Mas se os elementos visuais e sonoros que resultam na mensagem que se quer passar mudam, uma “nova” narrativa pode ser contada. Visualize a mesma criança perdida, mas às 03h da madrugada, na mesma praça... Se os tons dos chamados pela mãe forem agora altos, agudos e também misturados a um choro desesperado e já cansado... ficamos mais apreensivos com o que aconteceu e com o que, ainda, pode acontecer...

Poderíamos trabalhar conhecimentos sobre linguagem visual e sonora em um projeto em que se possa ampliar a visão crítica de nossos Estudantes sobre Sustentabilidade. Despertar o desejo pela leitura e provocar a reflexão pode passar também pelo conhecimento de como se faz uma boa história. E por que não pela experiência de pensar, escrever, estruturar e filmar uma boa história? Uma narrativa ficcional que, por exemplo, tenha como desafio maior ser um curta-metragem sobre Sustentabilidade (com no máximo 10 minutos).
 
Um ponto de partida para discussões e reflexões pode ser o Canal do Oi Conecta: Sustentabilidade. Lá, artigos como IPEC: conheça um projeto de escola sustentável, Planeta doente: saiba quais são as agressões globais, entre outros, nos ajudam a entender melhor o conceito de Sustentabilidade e o que podemos fazer para mudar não só cenário, como o provável final desastroso de uma sociedade não sustentável.

Se você fosse o autor ou roteirista, de uma narrativa de ficção, como seria um mundo sustentável? Quem seria o personagem principal (protagonista), que atitudes novas ele/a teria? Que outros personagens (secundários) atuariam na história? Como seria o perfil físico e psicológico deles? Que relações eles estabeleceriam uns com os outros? Que cenários seriam necessários criar para praticarmos a sustentabilidade? Sua narrativa seria no passado, no presente ou em um futuro distante? Estaria o narrador presente nas mudanças do mundo (primeira pessoa) ou seria ele alguém que somente nos conta como tudo aconteceu (terceira pessoa)?

Alguns vídeos produzidos poderiam ser postados. Mas se você ainda acha que o desafio é pequeno, que tal participar de um concurso? No site a seguir há concursos de curta-metragem com outras temáticas, mais uma forma de se trabalhar ou relembrar com os estudantes elementos da Estrutura narrativa, criatividade... Então, “Faça seu Curta". Conheça o Tela Brasil. O tema do concurso de 2011 foi Sustentabilidade.

*Professora da Rede Pública de Ensino do Estado do Rio de Janeiro / Doutoranda em Educação da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ / Mestre em Literatura Brasileira e Teorias de Literatura pela Universidade Federal Fluminense – UFF

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Narrativa

Vamos fazer de conta que você é ...
Em tempos de redes sociais, narrativas e personagens em novos perfis
  
Isa Ferreira Martins* 

O que transforma aquelas crianças com olhos brilhantes e ouvidos atentos a uma história em alguém que diz: “Eu não gosto de ler.”?

Aaaah!... a Narrativa, não vivemos sem ela. Desde que acordamos, até adormecermos, falamos ou pensamos, quase sempre de forma narrativa, sobre o que fizemos durante o dia, o que conversamos, com o que concordamos, como vamos resolver tal problema, o que vivemos...

Então, quando alguém que teve acesso à Educação diz que “não gosta de ler”, precisamos pensar em como evitar este triste desfecho. Fico me perguntando se a fantasia, o colorido, as imagens e, principalmente, o faz de conta e a interação tão necessários ao Ser Humano, talvez, não sejam deixados de lado muito cedo quando o assunto é a formação do leitor. Como vou “formar um leitor” que não lê ou lê somente para fazer uma prova ou teste e, neste contexto, muitas vezes, até recorre à internet para ler, mas... “o resumo do livro.” Mas será que esta mesma internet não poderia envolver nosso Estudante nas redes, também, da leitura?

Compreendemos que a “obrigação” tira de muitos Estudantes o desejo de ler e consequentemente as possibilidades de ampliar suas ideias, interpretações, gramática, ortografia, vocabulário, compreensão da sociedade, de si mesmo e do outro. Mas não podemos desistir porque “Navegar é preciso”. Esta expressão, aqui popularizada por Caetano Veloso com a música “Argonautas” e em Portugal pelo poeta Fernando Pessoa, teria sido dita há vários séculos pelo general romano Pompeu aos marinheiros temerosos de enfrentar o mar. Não! Não podemos privar nossos estudantes da navegação por narrativas que nos fazem rir, chorar, nos revoltar, amar, mudar... Pois, sabemos que através da leitura podemos experimentar diferentes e incríveis mundos que somente nossa própria vida não nos permitiria conhecer.

Proponho que a internet da “busca de resumos literários” e sedutoras redes sociais seja palco virtual das “leituras escolares”. Poderíamos formar grupos e a cada um deles indicar um livro, conto etc. Cada componente seria responsável em criar um perfil no Orkut, por exemplo, do “seu” personagem. Comunidades, álbuns, músicas, descrições do perfil e recados (diálogos) trocados entre os personagens teriam de ser a expressão da personalidade e comportamentos lidos/presentes na obra. A turma acompanharia as histórias na “rede”. E, em uma aula semanal (conectado ao site e projetado), os grupos apresentariam os acontecimentos das “vidas” dos seus personagens e explicariam o que motivou no livro e na criatividade deles as “novidades” da semana. Nesta proposta, não há como ler somente o “resumo do livro”. É preciso mergulhar na fantasia, nas vivências, experimentar as emoções e interagir com os demais personagens e com o colega.

Fico imaginando como seria o “Perfil” da Emília, de que “comunidades” a Cuca faria parte? E o Saci Pererê? E quem eu, Educadora, gostaria de ser? Dona Benta, que conquista pela sabedoria com as palavras? Não, acho que eu gostaria mesmo é de ser a Tia Nastácia.

Assim, ao menos no Sítio virtual dos Estudantes, eu experimentaria o delicioso prazer de um elogio por cozinhar bem! E você, que personagem gostaria de Ser? E que tal deixar seus alunos te sugerirem?

*Professora da Rede Pública de Ensino do Estado do Rio de Janeiro / Doutoranda em Educação da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ / Mestre em Literatura Brasileira e Teorias de Literatura pela Universidade Federal Fluminense – UFF

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Video-jogos e educação

Quando eu, tu, ele, nós experimentamos: a descrição de velhos e novos mundos


Isa Ferreira Martins*

- Joana, resolvi experimentar! E nem quero saber o que vão dizer.
- Mas onde você vai fazer isso? Em casa mesmo?
- Não sei. Mas que vou experimentar, vou. Na escola te conto.
E Maria foi para casa, decidida. Ao chegar, imediatamente ligou para Clara e Marcos, não queria ser surpreendida pela chegada inesperada deles. Estavam longe. Mesmo assim, trancou a porta e fechou as cortinas. Ligou a TV. Apertou botões que achava saber o que eram. Apertou algum que trouxe a imagem digital. Viu um mundo de cores, formas geométricas, dimensões e movimentos que não sabia controlar.
Teve uma sensação de incompetência e desafio. Segurava o controle muito forte. Apertava botões e setas. Aos poucos compreendia como funcionavam. Começou a controlar os movimentos dos personagens. Personagens? Pensou. Como é que, sendo professora de Língua Portuguesa há vinte anos, ninguém ainda havia apresentado a ela aquela ficção?
Colocou o celular para despertar próximo do horário da chegada de todos. Não poderia ser pega ali, mexendo nas coisas dos filhos. Começou a jogar, de qualquer jeito. Jogou não, experimentou. Estava ao menos feliz por ter rompido a barreira do desconhecido. Há 5 horas só sabia o que era um Game pela boca dos outros ou pelas telas que via. O celular despertou. Guardou tudo. Foi fazer o jantar. Quando Clara chegou, pediu: filha, me ensina como funciona e “se joga um Game”. Tá brincando, respondeu Clara. Mas percebeu que não. Então, ficou muito feliz de explicar quais eram as regras, fases, que era possível jogar também pelo computador, sozinho, em grupo etc.

Em grupo???!!!! Espantou-se.

– Pode uma turma inteira jogar?
– Dependendo do Game, pode.
Após 15 dias, sua aula sobre “A Descrição” estava preparada. Pediu que um estudante explicasse (a tela estava projetada) como tudo funcionava, quem eram os personagens, o que precisavam conquistar, o que teriam de fazer para isso. Alguma relação com a realidade? Perguntou Maria para a turma. Seguiram jogando entre si. Maria também queria mostrar que sabia e jogou um pouquinho. Após esta inicial experimentação, ela pediu que fossem anotando quais eram as características externas dos personagens. Depois pediu que indicassem o que achavam das personalidades e comportamentos dos mesmos, e também as sensações e sentimentos experimentados pelos próprios estudantes. O conceito de Descrição objetiva (externa) e subjetiva (pautada na opinião, sentimento etc de cada um) estava, então, sendo trabalhado de forma visual e concreta.
Ao final da aula, contou como havia aprendido sobre os Games. Combinaram que, ao menos uma vez por mês, explorariam as matérias da escola com base em um Game. Pediu sugestões. Já indo embora, ia desejar boa tarde quando ouve:
– Mas, professora, por que você resolveu aprender sobre Games?
– Porque tenho duas grandes paixões: o conhecimento e vocês.

*Professora da Rede Pública de Ensino do Estado do Rio de Janeiro / Doutoranda em Educação da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ / Mestre em Literatura Brasileira e Teorias de Literatura pela Universidade Federal Fluminense – UFF

Educação e mercado

Da educação mercadoria à certificação vazia*

 Andrea Harada Souza**

O ensino superior, público e privado, no Brasil passou por grandes transformações nas últimas décadas. Essas mudanças – travestidas de democratização, por favorecerem o acesso – visaram atender a uma proposta de privatização e barateamento da educação.

O Ministério da Educação (MEC) alardeia números, sobretudo para organismos internacionais – que obrigam o país a se enquadrar em padrões estipulados por eles na competição do mercado de consumo, trabalho e pesquisa –, que demonstram o crescimento do acesso ao ensino superior, ainda que distantes daqueles objetivados pelo Plano Nacional de Educação (PNE) (o acesso é de apenas 13,8% dos jovens, entre 18 e 24 anos). Porém, esse suposto processo de inclusão tem facilitado, para além do aceitável, um crescimento vertiginoso das instituições de ensino superior (IES) privadas, com desdobramentos que passam pela precarização do trabalho docente e pela formação duvidosa que essas empresas têm oferecido aos alunos por ela formados.

A predominância de objetivos economicistas em detrimento dos pedagógicos nas IES privadas permitiu um fenômeno relativamente novo no Brasil: a formação de conglomerados educacionais, grandes empresas, de capital aberto e com forte participação de grupos estrangeiros em seu quadro de acionistas. A autorização para funcionamento dessa espécie de oligopólio do setor educacional tem intensificado a visão mercantil da educação superior no Brasil. Os exemplos mais representativos desse modelo de organização empresarial na educação ficam por conta dos grupos educacionais Kroton-Pitágoras, Estácio de Sá, SEB (Sistema Educacional Brasileiro) e Anhanguera Educacional. Esta última, com a recente aquisição da Uniban, passou a ser o maior grupo educacional do país, atendendo aproximadamente 400 mil alunos em campi espalhados por diversos estados brasileiros. Além disso, manteve sua projeção de crescimento de atingir 1 milhão de estudantes em cinco anos, segundo matéria do Valor Econômico de 17 de novembro de 2011.

A alteração no padrão de financiamento das IES privadas promoveu uma mudança significativa no modelo de gestão: o papel que antes era predominantemente exercido por mantenedoras, de caráter familiar ou religioso, hoje passou a ser de responsabilidade de bancos ou fundos de investimentos que contratam executivos como seus representantes, padronizam procedimentos de relações de trabalho nos departamentos de recursos humanos e prestam contas ao fundo de ações. Decorre daí um perfil de gestão alinhavado com a lógica empresarial, sob responsabilidade de executivos, e muito distante dos objetivos educacionais que sempre foram sustentados por professores e pesquisadores.

Abandono do Estado

Tomado pela óptica do lucro, o setor educacional privado tem se valido, oportunamente, do abandono do Estado na oferta de vagas públicas para a formação superior. Dessa forma, as IES privadas, cuja existência deveria ter um caráter complementar, acabaram predominando e se consolidando em grupos que formulam e ditam as regras de seu interesse para a (des)regulamentação do setor, regras essas beneficiadas pelas chamadas políticas de parcerias público-privadas, as quais são alicerçadas sobre o princípio da transferência de dinheiro público para a iniciativa privada com a finalidade de que esta última cumpra o papel que o Estado se nega a exercer. No caso do ensino superior, essas transferências se dão predominantemente por meio do Programa Universidade para Todos (ProUni) e do Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies), além dos programas de benefícios de isenção fiscal oferecidos pelo BNDES. Nesse ponto, o discurso falacioso do Estado e o do setor privado convergem: trata-se de iniciativas e proposições que manifestam concretamente a preocupação com a formação do brasileiro e com o desenvolvimento do país!

De modo geral, a consolidação da mercantilização da educação e a formação de oligopólios educacionais têm ocorrido com base na incorporação de princípios e fundamentos do setor empresarial, ou seja, na otimização dos recursos. Como afirma Marilena Chauí (2001), “a Universidade está estruturada segundo o modelo organizacional da grande empresa, isto é, tem o rendimento como fim, a burocracia como meio e as leis do mercado como condição”. Essa fórmula – clássica do neoliberalismo – consiste na diminuição das despesas para o consequente aumento dos lucros. Assim, com vistas a assegurar um perfil rentável − à empresa, é claro −, torna-se necessária a precarização das relações de trabalho: redução de salários, perda de direitos, ameaças e cobranças pelo desempenho da instituição nas avaliações externas promovidas pelo MEC são alguns traços da rotina de professores das IES privadas.

Ao mesmo tempo, concorre para intensificar os contornos dramáticos desse quadro a expansão da modalidade EaD (educação a distância), que em 2010 fechou o ano com 973 mil alunos matriculados, o que corresponde a 30% de todos os universitários em instituições privadas. Nesse caso, a educação mediada pela tecnologia, que deveria servir para aproximar os extremos sociais, acaba por aprofundá-los. Contudo, para os empresários, o aliciamento desse recurso é tomado como mais uma vantagem mercadológica capitalista, sobretudo por potencializar sua capacidade de lucro.

Na outra ponta, os salários praticados nas IES privadas são – via de regra – aviltantes, o que obriga muitos profissionais a lecionar em várias instituições, seja para compor a renda, seja para se prevenir das demissões, muitas vezes arbitrárias. Nesse contexto, os professores se veem impedidos de desempenhar tarefas diretamente ligadas à sua função (e ao ensino superior, ou seja, ensino, pesquisa e extensão), absorvidos que estão por uma jornada de trabalho extenuante. No entanto, paralelamente a isso, ocorre um processo silencioso de captura da subjetividade dos docentes com objetivo de estabelecer uma competição interna, cuja face mais alarmante é a perda da autonomia. Como toda competição tem exigências, impõe-se que esses profissionais – para terem condição de competir – sejam aguerridos, “pró-ativos”, competentes e indiferentes às questões coletivas, o que os leva a um distanciamento de seus sindicatos e associações e permite, muitas vezes, que sejam – deliberadamente – vistos como mão de obra manipulável pelos patrões.

Precarização e intimidação

Se de um lado temos a perda da autonomia dos professores como uma ameaça à própria noção de função docente, de outro notamos que, por parte dos empresários da educação, a oferta de uma formação aligeirada tem exigido profissionais cada vez menos críticos e progressivamente mais alienados da prática educativa. Não é raro o relato de professores do ensino superior que têm seus conteúdos – planos e ementas de cursos –, bem como suas avaliações, elaborados por um terceiro que nunca sequer esteve em uma sala de aula. Essa tentativa, por parte dos patrões, de padronizar a prática pedagógica para garantir um rendimento mínimo nas avaliações externas evidencia de maneira cabal seu propósito de controle absoluto sobre a mercadoria que vendem.

Dessa forma, a reação e a resistência a essa prática de mercantilização da educação impõem grandes desafios. No estado de São Paulo, que acompanhamos mais de perto, tem sido cada vez mais difícil o enfrentamento com os patrões do ensino superior nas campanhas salariais organizadas por nossa federação, a Fepesp (Federação dos Profissionais de Educação do Estado de São Paulo), pois há um evidente conflito nas pautas apresentadas para negociação. Do lado de lá, a ofensiva é para subtrair direitos historicamente conquistados e que, vistos com a luneta do capital, representam entraves normativos à expansão dos lucros. Em razão disso, questões como plano de carreira, regulamentação da EaD e aumento real são deliberadamente ignoradas pelos patrões, que, por sua vez, promovem lobbiesjunto ao Poder Legislativo, a fim de que as regras do setor continuem a beneficiá-los.

Entretanto, a predominância de valores empresariais na organização das IES e a falta de regulamentação efetiva por parte do MEC têm imposto uma permanente ameaça, ainda que velada, que é o desemprego. Assim, os professores insatisfeitos com salários e condições de trabalho incorporam a responsabilidade incutida pelo patrão, de que o mercado funciona assim: os insatisfeitos que se mudem. A aceitação dessa ideia leva a um comportamento defensivo, porque nos faz crer que nada pode ser feito e, por isso mesmo, qualquer iniciativa coletiva deve ser vista como prejuízo ao próprio trabalhador.

Há também que se ressaltar a necessidade urgente de que o debate sobre a educação seja tomado como fundamento para um crescimento qualitativo e efetivo do Brasil, sobretudo para a população que ainda anseia conhecer na prática a longo prazo esse crescimento. Para validarmos o princípio democrático do direito à educação, sem, contudo, ignorar que o mercado do ensino privado não arrefecerá a curto prazo, precisamos assegurar o investimento de 10% do PIB na educação pública – que estimamos universal e de qualidade –, a fim de que ela seja o referencial para o setor privado, e não o contrário.

Enquanto não houver uma mudança radical nesse quadro, o próprio sentido de educação estará comprometido, posto que seu fim mais elementar não é atingido: em vez de promover a emancipação humana, produz lucro para o capital que só enxerga as camadas sociais C, D e E quando estas se apresentam como potencial mercado consumidor.

A forte presença do controle corporativo em um setor essencial como a educação provoca sérias fissuras na malha social, na medida em que os desdobramentos da transferência tácita da responsabilidade do Estado para a iniciativa privada têm autorizado o funcionamento de fábricas de diplomas com certificação vazia, para uma população que, embriagada pela democratização do acesso, ainda não se sabe enganada.

**Professora de literatura, presidente do Sinpro Guarulhos e membro da coordenação estadal da CSP-Conlutas.

Referências bibliográficas
CHAUÍ, Marilena. Escritos sobre a universidade. São Paulo: Ed. Unesp, 2001.INEP. “Sinopse da educação superior no Brasil”, 2009. Disponível em: www.inep.gov.br.