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quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Gestão sem limites

Gestão é tudo (SQN)*


Daniel Roedel**

No Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, é comum utilizarmos ao final de uma afirmação a expressão “só que não” (SQN). Trata-se de uma ironia que nega a certeza anterior e cria uma piada. Utilizei a expressão no título para abordar o tema da gestão que desde há alguns anos saiu dos estudos e debates da academia e das ações empresariais e entrou no cotidiano das pessoas em diversas localidades. Continue a ler

*Publicado em Blogue Shift

**pós-doutorando no ISEG da Universidade de Lisboa, doutor em Políticas Públicas e Formação Humana e bacharel em Administração

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Pessoas, ambiente e economia

Dívida Pública e os limites da Sustentabilidade Socioambiental



Assista aqui a apresentação do tema no II Congresso Virtual Brasileiro de Recursos Humanos Sustentáveis e I Congresso Virtual Internacional de Recursos Humanos Sustentáveis, realizada no dia 25 de novembro de 2021.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O almoço grátis

Apropriação indébita

Daniel Roedel*

Tem sido frequente, na grande mídia e em opiniões ditas especializadas sobre o papel desempenhado pelo Estado, a reprodução da ideia de que não existe almoço grátis, ou seja, sempre que ocorre alguma iniciativa política que atende a direitos sociais, há um custo não apontado e que é pago por alguém ou pela sociedade em geral. A frase, popularizada pelo economista Milton Friedman, expoente do pensamento liberal do século XX, é usada atualmente também para justificar a necessidade de adoção de políticas de austeridade por parte dos governos.

Mas será mesmo verdade? Não existe mesmo almoço grátis?

Se acompanharmos a trajetória das inovações incorporadas pelas empresas, podemos concluir que não é bem assim. Sabemos que o conhecimento, base da inovação, não é uma escada que se sobe a partir do primeiro degrau. Portanto, ao inovarem, as empresas se utilizam de conhecimentos de épocas pretéritas ao desenvolvimento de seus produtos. É um conhecimento acumulado pela sociedade, socialmente criado e herdado, geração após geração, que está disponível para uso. E, ao incorporá-lo, as empresas não pagam por ele, não remuneram a sociedade. Usufruem de um almoço, aliás de um banquete, inteiramente grátis. Mas como se trata de uma apropriação privada, no ambiente de negócios regido pelo deus mercado, a grande mídia e os especialistas a ignoram, valorizando e enaltecendo os grandes empreendedores e visionários que estão sempre adiante do seu tempo produzindo inovações espetaculares!

A Eureka dos inventores ou a determinação de empreendedores, por mais que estes tenham sido dedicados, é resultado desse processo social. Na dúvida, coloque-os isolados do ambiente social e aguardem que suas descobertas e ações de excelência surjam...

Essas constatações estão presentes na obra Apropriação indébita: como os ricos estão tomando a nossa herança comum, de Gar Alperovitz e Lew Daly (Editora Senac), com prefácio de Ladislaw Dawbor para a edição brasileira.

Nela, os autores discorrem sobre grandes descobertas de diversas épocas e mostram que as condições históricas e o conhecimento então disponíveis foram mais relevantes do que possíveis insights dos descobridores, que muitas vezes entraram para a história por terem sido ágeis na divulgação de descobertas e invenções. E indagam: o que é mais importante, a herança tecnológica disponível ou o esforço, a inteligência etc, individual em produzir, a partir da herança, algum fim prático ou negociável?

Na obra, é citada a instigante questão do cientista político Robert Dahl: Quem contribuiu mais para a operação da General Eletric - seus principais executivos? Ou Albert Einstein, ou Michel Faraday ou Isaac Newton?”

Portanto, sim, há almoço grátis! E, conforme os autores ele está sendo servido para aqueles que já estão muito bem alimentados”. É uma importante evidência principalmente se considerarmos a atual hegemonia do pensamento neoliberal que tenta apagar ideias e iniciativas de base coletiva e hipervalorizar os aspectos individuais como caminho para o sucesso. Uma reflexão ainda mais válida no momento em que os recursos da pesquisa no Brasil vêm sofrendo cortes sumários pelo (des)governo atual...


*Doutor em Políticas Públicas e Formação Humana; Administrador; Editor do Blog

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Gestão é tudo?

Saúde, uma questão de gerência: será?

Daniel Roedel*


Nos anos recentes a gestão tem sido um tema amplamente valorizado como diferenciador do sucesso ou fracasso em empreendimentos públicos, privados e até mesmo no campo pessoal. Parece estar havendo um culto que a coloca acima de condições políticas, sociais e históricas que de fato determinam ou pelo menos conduzem os empreendimentos humanos.

Nesse discurso, pela gestão se pode obter o almejado sucesso, desconsiderando-se outras interveniências e implicações.

Em uma leitura atenta do artigo “Saúde, uma questão de gerência” (https://espacoopiniao.cra-rj.adm.br/saude-uma-questao-de-gerencia-2/), do Administrador Wagner Siqueira, presidente do Conselho Federal de Administração, me deparei com considerações que me levam a refletir sobre os alcances e limites da gestão.

Inicialmente, ressalto que o gestor é importante no processo de tomada de decisões tanto no espaço público quanto no âmbito privado. Possui formação específica em planejamento, organização, gerenciamento de pessoas, recursos, processos etc, que o colocam em condições de empreender com efetividade determinada função. Mas acima da gestão há condicionantes da atuação de qualquer gestor que não podem ser desconsiderados.

Como exemplo, na gestão pública da saúde muitas vezes a mídia denuncia com ênfase os problemas no atendimento à população e o “descaso” com equipamentos e medicamentos essenciais ao tratamento dos cidadãos. Em seguida, logo surge a opinião de que o Estado é um péssimo gestor e que na iniciativa privada isso não ocorre.

É aí que se manifesta o campo político determinante da má gestão pública. É claro que há maus gestores públicos como há maus gestores privados. Mas até que ponto uma gestão pública que não cumpre suas finalidades decorre do modo como o gestor atua? Ou seja, trata-se de uma má gestão ou de um projeto político que busca inviabilizar a gestão pública e fortalecer a solução por uma gestão privada?

O pensamento único que tem se propagado no país desde os anos 1990 tenta nos impor uma solução de mercado para problemas que muitas vezes são causados... pelo próprio mercado! O acirramento competitivo impõe às empresas operarem no limite em busca de lucros elevados e imediatos; adia ou elimina iniciativas portadoras de futuro, mas que não realizam lucros no curtíssimo prazo. E esse modo de gestão presente nos empreendimentos privados é rapidamente vendido (e comprado) na gestão pública como exemplo de excelência empresarial, mesmo que tal excelência não resista a uma avaliação mais acurada. Como resultado, temos o aumento acelerado de problemas socioambientais decorrentes da ação empresarial pública e privada.

Assim, na gestão pública temos a redução do cidadão a mero cliente, desprovido de um poder político que o coloca como detentor de direitos a uma adequada prestação de um serviço social. Como cliente as empresas podem definir a quem atender e a quem não atender. É opção estratégica, como nos ensina Porter.

Portanto, o sucesso ou fracasso da gestão não é tributário exclusivamente das competências do gestor. Não podemos nos concentrar apenas em aspectos endógenos da ação gerencial. Há premissas estabelecidas fora do campo da gestão que determinam o modo como esta vai ser conduzida.

Trata-se pois de uma orientação política que subordina a gestão. Desconsiderarmos a política remete a gestão a uma categoria independente (ou até mesmo neutra) em relação à realidade que a cerca. O próprio desenvolvimento organizacional, citado pelo autor, já aponta para esse aspecto, embora dentro de uma perspectiva de equilíbrio e ajustamento, restringindo-se a perspectiva transformadora da realidade.

Concluindo, e sem a pretensão de esgotar tão importante assunto, aos três focos de aperfeiçoamento do gestor propostos pelo ilustre presidente do CFA, proponho pelo menos um quarto foco: o político, responsável por se entender as relações de poder nas quais a gestão está inserida e a quem ela serve (ou deve servir), de modo a projetar a ação gerencial construindo parcerias que contribuam para uma gestão, que na saúde pública, atenda ao cidadão, bem como para que se perceba os alcances e limites que possui dentro do campo político que a subordina. Do contrário, a desconsideração do político como determinante da ação gerencial coloca os gestores como agentes de legitimação de uma ordem que tem sido hostil a ações não mercantis.

--x--

*Doutor em Políticas Públicas e Formação Humana; Administrador; Editor do Blog

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Público e Privado

Estado vs. Mercados: uma falsa dicotomia*


Mariana Mazzucato**
Caetano C.R. Penna***


O debate sobre os papéis relativos do Estado e do mercado em economias capitalistas tende a oscilar ao longo do tempo nas mentes e nos corações da opinião pública e dos decisores de políticas públicas: os períodos em que o Estado é defendido por seu papel no desenvolvimento econômico são sempre substituídos por um ataque à sua intervenção no “bom funcionamento” de mercados. Foi assim ao longo do século XX (ver REINERT, 2009, para uma análise de como as oscilações deste pêndulo estão ligadas a mudanças na agenda de investigação predominante da economia). E é isso o que aconteceu desde a mais recente crise financeira global e da recessão econômica: um breve período logo após a sua erupção, quando era quase um consenso que o Estado tinha um papel fundamental a desempenhar na promoção do desenvolvimento e do crescimento através da política industrial, foi rapidamente apreendido por aqueles que diziam o contrário. A austeridade tornou-se o prato do dia, enquanto as políticas industriais ativas transformaram-se no modismo da última estação.

O Brasil, que foi um retardatário na adoção de políticas neoliberais na década de 1990, chegou novamente atrasado no baile: a austeridade só agora é a principal agenda econômica do país. E com ela vem o ataque usual às instituições do Estado – agências, empresas, bancos – que, no Brasil, foram responsáveis por permitir que as poucas áreas de competitividade internacional surgissem (incluindo a “conquista do Cerrado” pelo agronegócio, a área aeroespacial, a exploração de petróleo em alto-mar, dentre outros).

De fato, em todas as economias capitalistas, o Estado fez e continua a fazer o que os mercados não fazem (MAZZUCATO, 2014). Tome-se o setor financeiro, por exemplo. Um sistema financeiro que funcione bem deve financiar o consumo e a produção, promovendo o crescimento econômico e, assim, um aumento do nível de vida (bem-estar) da população. No entanto, já há alguns anos o setor não tem financiado investimentos em inovação ou a economia real, mas sim financiado ativos financeiros. Desde os anos 1970, inovações financeiras juntamente com desregulamentação de mercados tornaram mais fácil obter lucros de investimentos especulativos em ativos financeiros (EPSTEIN, 2005; KRIPPNER, 2005; DORE, 2008; LAZONICK, 2013). No Brasil, a questão assume uma forma idiossincrática: devido ao alto rendimento, à curta maturidade e ao baixo risco relativo de títulos do Tesouro, bancos comerciais e de investimento preferem comprar dívida governamental a financiar investimentos de longo prazo na indústria, em infraestrutura, ou em inovação – que são ou capital-intensivos ou altamente incertos (ou ambos).

Investimentos produtivos exigem ‘paciência’ na forma do que chamamos em outro lugar de “capital paciente e comprometido com o longo prazo” (MAZZUCATO, 2013; MAZZUCATO e PENNA, 2015). Nos EUA, capital paciente é fornecido através da atividade de diferentes instituições públicas como Defense Advanced Research Projects Agency (Darpa), National Institutes of Health (NIH), National Science Foundation (NSF), National Aeronautics and Space Administration (NASA), os programas de Small Business Innovation Research (SBIR), a iniciativa nacional de nanotecnologia, dentre muitos outros. Um papel ativo do Estado é também encontrado em países como Alemanha, Finlândia, Israel, e, claro, a China, mas em cada país os tipos de instituições públicas responsáveis pelo fornecimento de financiamento paciente assumem diferentes formas. No Brasil, ele vem de bancos públicos, nomeadamente, BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal (ver MAZZUCATO e PENNA, 2014, para uma análise dos papéis desempenhados pelos bancos de desenvolvimento estatais), mas também de empresas estatais. Sim, suas operações podem e devem ser melhoradas. Mas atacar e diminuir a importância destas instituições estatais é ser desonesto com a história.

O exemplo da Embraer (BERNARDES, 2000; CASSIOLATO et al, 2002; FORJAZ, 2005) ilustra a importância do Estado como agente de liderança na promoção da mudança técnica, industrialização e desenvolvimento, bem como o seu papel de principal “financista paciente.” A Embraer foi fundada em 1969 a partir de uma visão concebida pelo Estado brasileiro para criar uma indústria aeroespacial a partir do zero. O sucesso da Embraer após a sua privatização, em 1994, é frequentemente reconhecido como um exemplo paradigmático da superioridade do setor privado sobre o Estado. É verdade, as finanças da empresa estavam em condições terminais no início da década de 1990 (muito por conta de como as empresas estatais brasileiras foram usadas na década de crise de 1980). Mas suas competências tecnológicas básicas, que foram a chave para o sucesso dos jatos regionais em mercados globalizados, foram adquiridas muito antes, no final da década de 1970, quando era controlada pelo Estado e foram firmados acordos de cooperação com outros países, como a Itália. Além disso, quando a Embraer assinou um de seus primeiros grandes contratos de venda, com a American Airlines (AA), a operação não foi financiada por bancos privados, que fugiam de seu perfil de risco e de longo prazo, mas pelo BNDES. Foi esse acordo com AA que colocou em evidência a Embraer, e a ajudou a se tornar um dos líderes mundiais no mercado de jatos regionais.

A importância das empresas estatais e das finanças públicas pacientes não é exclusiva de países em desenvolvimento. De fato, outro exemplo da indústria aeroespacial ilustra bem este ponto. Em um país onde, na imaginação do público, se pratica o liberalismo por excelência – a Grã-Bretanha – foi o apoio do Estado que salvou a Rolls-Royce (LAZONICK e PRENCIPE, 2005). Custos crescentes oriundos de atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) para um novo motor de avião colocaram a icônica empresa em falência. Em vez de deixar a empresa morrer, o governo britânico fez o que a City londrina não fez: deu o seu apoio, através de uma nacionalização inicial (em 1971; logo em seguida o Estado britânico se desfez da divisão de automóveis para concentrar na área aeroespacial) e, em seguida, através de uma sequência de empréstimos pacientes. Em 1987, a empresa estava forte o suficiente para ser privatizada. A Rolls-Royce logo se tornaria uma das líderes no mercado global para motores aeroespaciais.

Conforme um de nós demonstra (MAZZUCATO, 2013), o próprio Vale do Silício na Califórnia (EUA) é em si o resultado de uma intervenção maciça do Estado. Cada tecnologia por trás do iPhone (e de celulares inteligentes em geral) foi financiada diretamente por diferentes organizações governamentais, principalmente no Departamento de Defesa dos Estados Unidos, cujo modelo foi copiado mais tarde também no Departamento de Saúde e no Departamento de Energia. De fato, a atual revolução do gás de xisto através da técnica de fraturamento hidráulico é o resultado de décadas de investimentos pelo Departamento de Energia dos EUA, que também foi responsável por fornecer o financiamento paciente para Elon Musk (o novo herói do Vale do Silício) para o carro Tesla S.

Na verdade, as empresas de Musk – Tesla Motors, SolarCity, e SpaceX – são muito competentes em surfar a onda de tecnologia desenvolvida e financiada pelo Estado e em obter a ajuda estatal. Juntos, esses empreendimentos de alta tecnologia beneficiaram-se de 4,9 bilhões de dólares de governos locais, estaduais e federal, incluindo subvenções, incentivos fiscais, investimentos na construção de fábricas, e empréstimos subsidiados. O governo dos Estados Unidos também forja demanda – cria o mercado – para os seus produtos, através da concessão de créditos fiscais e descontos para os consumidores de painéis solares e veículos elétricos, e assinando com SpaceX 5,5 bilhões dólares em contratos com a NASA e a Força Aérea dos EUA. Embora este apoio governamental tenha sido recentemente o foco de artigos e notícias (ver HIRSCH, 2015), o que passa relativamente despercebido é o fato de que Tesla Motors, SolarCity, e SpaceX também se beneficiarem de investimentos diretos em tecnologias radicais pelo Departamento de Energia dos EUA, como no caso de tecnologias de bateria e painéis solares, e pela NASA, no caso de tecnologias de foguetes. Nada disto deve ser visto como surpreendente ou injustificado. Pelo contrário, o Estado está por trás do desenvolvimento da maioria das tecnologias-chave que são posteriormente integrados pelo setor privado em inovações revolucionárias. Além disso, essas empresas estão ajudando a empurrar a fronteira da inovação através do desenvolvimento posterior de tecnologias concebidas e financiadas pelo Estado, e, crucialmente, contribuindo para uma transição para uma economia ambientalmente mais sustentável.

Mas como são investimentos públicos como estes – e de fato o papel do Estado na economia – justificados e analisados por economistas? Normalmente, eles afirmam que o papel do Estado na economia é o de corrigir falhas de mercado: casos em que os mercados competitivos falham na alocação eficiente de recursos (ARROW, 1962; STIGLITZ, 1989; MEDEMA, 2003; LEDYARD, 2008). Por exemplo, no caso de bens públicos – aqueles que podem ser consumidos por todos, como o ar limpo ou grandes infraestruturas – os mercados não alocam recursos para sua produção. Nesses casos, seria justificável o Estado intervir na economia para garantir a sua produção. No entanto, ainda que convincente, este arcabouço das falhas de mercado está associado a muito limitadas análises de custo-benefício dos investimentos públicos, que buscam medir se os benefícios que se obtêm a partir deles cobrem eventuais custos (incluindo custos de oportunidade) (MAZZUCATO, 2015).

Há três problemas nessas análises: primeiro, é um exercício analítico estático do processo intrinsecamente dinâmico de desenvolvimento econômico e de mudança técnica, que é cumulativo e se desenrola em direções imprevisíveis (quem poderia dizer que as tecnologias desenvolvidas para o exército dos EUA acabariam nas mãos de milhões de usuários ao redor do mundo sob a forma de smartphones?). Em segundo lugar, tais análises requerem estimar cada custo e benefício em valores monetários, o que não é fácil mesmo se for possível e desejável (o que é o valor monetário de ar limpo ou de empregos altamente qualificados?). Em terceiro lugar, análises de custo-benefício podem levar a um resultado semelhante ao que motivou os investimentos em primeiro lugar: a falta de investimento em projetos-chave, devido a elevados riscos e incertezas vis-à-vis outras oportunidades de investimento existentes. Deveria o Estado agir como um investidor privado e aplicar os seus recursos na melhor oportunidade de investimento alternativo (no caso do Brasil, investindo em títulos do Tesouro de alto rendimento e baixo risco)? Bem, se fosse o caso, hoje não teríamos uma Embraer, uma Rolls-Royce, e, possivelmente, uma Apple (uma vez que a maioria das tecnologias de informação e comunicação não existiria) – com todas as consequências em termos de perdas de emprego, capacidade tecnológica, e bem-estar.

O arcabouço das falhas de mercado não é adequado para justificar e analisar casos reais em que o Estado agiu empreendedoramente (MAZZUCATO, 2015). Quando o Estado concebeu, deu forma e criou novos mercados – e não “corrigiu” os já existentes. Ou quando investiu em áreas devido ao interesse público, sejam elas a industrialização e mudança técnica ou de segurança nacional e capacitação tecnológica. Nenhum país jamais conseguiu desenvolver-se e industrializar-se baseando suas decisões de investimentos públicos na avaliação de “falhas de mercado”, o que levaria a investimentos minguados e concentrados no máximo em P&D à montante (e não em toda a cadeia de inovação – pesquisa básica, pesquisa aplicada, e ainda no financiamento de empresas de alto risco – como aconteceu no Vale do Silício, por exemplo). Ignorar esta história significa usar o arcabouço das falhas de mercado e a associada dicotomia “Estado vs. mercados” para fins políticos, não econômicos. Sucesso nas economias capitalistas cada vez mais depende de parcerias sinérgicas entre os setores público e privado. Como os exemplos acima mostram, ambos têm papéis fundamentais a desempenhar no desenvolvimento econômico de um país: Embraer e Rolls-Royce desenvolveram as suas competências tecnológicas guiadas pela mão visível do Estado, mas alcançaram sucesso no mercado global sob gestão privada, depois de suas respectivas privatizações. Apple, Tesla, Solarcity, SpaceX são exemplos-chave da capacidade para inovação das empresas privadas com acesso a tecnologias inovadoras financiadas publicamente e ao capital paciente estatal. Os países mais bem-sucedidos na economia global têm o que se poderia chamar de um ecossistema simbiótico de inovação e de produção, em que agentes públicos e privados se beneficiam e lucram de ações e interações mútuas. Nestes casos, a iniciativa privada não “captura” o Estado, nem o Estado se torna uma ferramenta para favores políticos.

A questão, portanto, não é quem deve liderar e guiar a economia, o Estado ou o mercado (setor privado). Ambos são cruciais. A questão é como promover essas parcerias sinérgicas. Ainda que não haja receita mágica, uma coisa é certa: quanto mais ousado for o Estado em sua iniciativa estratégica, menos provável que seja capturado pela iniciativa privada. Isso significa definir as principais “missões” societais – desde “colocar um homem na lua”, passando por garantir a segurança nacional e energética, até combater e mitigar as mudanças climáticas, por exemplo – que irão guiar as políticas públicas e ações privadas a longo prazo (MAZZUCATO e PENNA, 2015). Em vez de focar em muito duvidosos benefícios de curto prazo de um programa de austeridade – e esperar que um futuro aconteça – o Brasil estaria muito mais bem posicionado se definisse as suas missões fundamentais – e fizesse o seu próprio futuro acontecer.

Referências:

ARROW, K., 1962. Economic welfare and the allocation of resources for invention, in: Nelson, R.R. (Ed.), The Rate and Direction of Inventive Activity. Princeton University Press, Princeton, NJ:, pp. 609-626.
BERNARDES, R., 2000. Embraer: elos entre Estado e mercado. Editora Hucitec.
CASSIOLATO, J.E., BERNARDES, R., LASTRES, H., 2002. Innovation Systems in the South: a case study of Embraer in Brazil. UNCTAD-DITE investment policy and capacity-building branch. New York and Geneva, United Nations.
DORE, R., 2008. Financialization of the Global Economy. Industrial and Corporate Change 17, 1097-1112.
EPSTEIN, G.A., 2005. Financialization and the world economy. Edward Elgar Publishing.
FORJAZ, M.C.S., 2005. The origins of Embraer. Tempo Social 17, 281-298.
HIRSCH, J., 2015. Elon Musk’s growing empire is fueled by $4.9 billion in government subsidies, Los Angeles Times, 30 de Maio.
KRIPPNER, G.R., 2005. The financialization of the American economy. Socio-Economic Review 3, 173-208.
LAZONICK, W., 2013. The Financialization of the U.S. Corporation: What Has Been Lost, and How It Can Be Regained. Seattle University Law Review 36, 857-909.
LAZONICK, W., PRENCIPE, A., 2005. Dynamic capabilities and sustained innovation: strategic control and financial commitment at Rolls-Royce plc. Industrial and Corporate Change 14, 501-542.
LEDYARD, J.O., 2008. Market Failure, in: DURLAUF, S.N., BLUME, L.E. (Eds.), The New Palgrave Dictionary of Economics. Palgrave Macmillan, Basingstoke.
MAZZUCATO, M., 2013. Financing innovation: Creative destruction vs. destructive creation. Industrial and Corporate Change 22, 851-867.
MAZZUCATO, M., 2014. O Estado Empreendedor: Desmascarando o mito do setor público vs. setor privado. Cia. das Letras, São Paulo.
MAZZUCATO, M., 2015. Beyond market failures: shaping and creating markets for innovation-led growth, in: Mazzucato, M., Penna, C.C.R. (Eds.), Mission-Oriented Finance for Innovation: New Ideas for Investment-Led Growth. Rowman & Littlefield, London, pp. 147-159.
MAZZUCATO, M., PENNA, C.C.R., 2014. Beyond Market Failures: State Investment Banks and the ‘Mission-Oriented’ Finance for Innovation. SPRU Working Paper Series 2014-21.
MAZZUCATO, M., PENNA, C.C.R., 2015. Mission-Oriented Finance for Innovation: New Ideas for Investment-Led Growth. Rowman & Littlefield, London.
MEDEMA, S.G., 2003. The economic role of government in the history of economic thought, in: Samuels, W.J., Biddle, J.E., Davis, J.B. (Eds.), A companion to the history of economic thought. Blackwell, Oxford, pp. 428-444.
REINERT , E.S., 2009. Financial Crises, Persistent Poverty, and the Terrible Simplifiers in Economics: A Turning Point Towards a New ‘1848 Moment’, Working Papers in Technology Governance and Economic Dynamics. The Other Canon Foundation & Tallinn University of Technology.
STIGLITZ, J.E., 1989. Markets, Market Failures, and Development. The American Economic Review 79, 197-203.

**Professora de Economia da Inovação da Science Policy Research Unit (SPRU) da Universidade de Sussex e autora de O Estado Empreendedor: Desmascarando o mito do setor público vs. setor privado (2014, Cia. das Letras).
***Professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador associado da Science Policy Research Unit (SPRU) da Universidade de Sussex.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Competitividade

Samsung e o império do medo*

Martine Bulard

...Continuação

Não almoçar com sindicalista

Também os sindicalistas têm direito à mordaça. Um dos porta-vozes do grupo, Cho Kevin, desmente qualquer tipo de caça às bruxas. Ele nos informou por e-mail (é mais fácil encontrar um ministro ou um deputado do que um representante da Samsung): “Existem sindicatos em muitas de nossas filiais, e o grupo respeita o direito ao trabalho, assim como as normas éticas”. Sindicatos da casa, sim; mas não a Confederação Coreana dos Sindicatos (Korean Confederation of Trade Union, KCTU), cujo ancestral teve um papel decisivo no fim da ditadura nos anos 1980. Supressões, demissões, ameaças, chantagem: a direção não poupa meios, se acreditarmos no estudo realizado pelo professor Cho Don-moon, sociólogo da Universidade Católica da Coreia [8]. Até 2011, apenas um sindicato era autorizado na empresa, e ele devia se registrar junto à administração pública. Assim que a papelada chegava, o funcionário avisava a direção da Samsung, que podia sequestrar o impetrante por diversos dias, tempo durante o qual ela podia criar seu próprio sindicato na usina. A partir de janeiro de 2011, o pluralismo sindical foi reconhecido, mas a KCTU continua sendo o inimigo.

Encontramo-nos com seis membros, com idade entre 30 e 50 anos. Todos trabalham na Samsung, na região de Ulsan, a duas horas e meia de trem-bala a sudeste de Seul. Mas para encontrá-los é preciso dar voltas e mais voltas até um albergue coreano tradicional, rodeado por flores e árvores, na beira de um lago, longe de suas casas, a fim de que eles permaneçam anônimos. O local é mais charmoso do que a vizinhança das fábricas, onde eles produzem baterias de telefones celulares, telas de cristal líquido e aquecedores solares. E principalmente mais discreto: “É muito perigoso encontrar uma jornalista – ainda mais estrangeira”, explicam. Sindicalizados na KCTU, eles vivem em semiclandestinidade.

Todos são catalogados como “MJ”, de moon jae, transcrição fonética em alfabeto ocidental do coreano “problema”. “Em cada setor”, conta um deles, “há pessoas encarregadas de encontrar os MJs, assediá-los, comprá-los, impedir a ‘contaminação’.” Um de seus colegas continua: “Se uma pessoa por acaso bebe uma cerveja com um MJ numa festa, ela é imediatamente convocada pela direção, que pergunta o que ela ouviu e o que disse. Até na cantina é pouco recomendado comer na companhia de um MJ”.

Toque de recolher

Chovem sanções: apenas um desses sindicalistas manteve seu trabalho no grupo. Um foi transferido para um escritório onde se ocupa, sozinho, das obras de caridade da fábrica. Outro foi mandado para um serviço de fornecimento bem supervisionado. Uma pergunta sobre a atividade do quarto provoca risos gerais: “Nada, eu não faço nada, literalmente. Antes, eu era operário; agora, fico em um escritório, sozinho, sem nenhuma função”. Ele ri, mas teve de consultar um psiquiatra. Para seu colega, que acabou de se filiar ao sindicato, a direção propôs um “estágio obrigatório” de diversos meses na... Malásia. Ele recusou; está esperando a sanção. Quanto ao sexto, ele foi demitido há quatro anos. Sem recursos.

Encontramos outros MJs. Em Suwon, a sede da Samsung, na periferia de Seul. Cho Jang-hee, ex-administrador de um restaurante no parque de diversões Everland, teve a audácia de criar com três de seus colegas um sindicato filiado à KCTU. Todas as tentativas precedentes tinham fracassado – alguns envolvidos receberam uma promoção ou dinheiro para pagar os estudos dos filhos, outros cederam às pressões. “De repente, os colegas não têm mais coragem de olhar para você, eles não falam mais com você”, explica Cho. “Existem até ‘sessões de formação’ durante as quais os chefes explicam que somos bandidos que colocam a empresa em perigo. ” Eles foram seguidos 24 horas por dia e filmados. Seus telefones foram grampeados, seus familiares, ameaçados. Mas se mantiveram firmes.

Evidente, sua influência é marginal: onze aderentes “abertos” e 68 clandestinos, entre 10 mil assalariados. Não chegam nem perto de ser eleitos para representar os funcionários nas comissões paritárias inventadas pelo grupo para contornar os sindicatos e compostas metade de pessoas da direção e a outra metade de representantes dos trabalhadores altamente recomendados pela direção. Mas pela primeira vez a KCTU tem uma existência legal, se não reconhecida, dentro da Samsung. Cho pagou caro por isso: foi demitido. Quanto aos dois outros cofundadores, eles foram suspensos por três meses e transferidos para dois restaurantes diferentes, “para isolá-los bem”.

Tanto em Ulsan quanto em Suwon, esses sindicalizados reconhecem que, para eles, trabalhadores em tempo integral, “os salários são corretos”. Por outro lado, os funcionários sem contrato recebem entre 40% e 60% a menos por um trabalho muitas vezes idêntico, não possuem nenhuma proteção, nenhum bônus, e são mandados embora assim que as encomendas diminuem [9]. Sejam funcionários diretos da Samsung ou empregados pelos fornecedores, eles representam segundo as estimativas (as estatísticas oficiais não existem) entre 40% e 50% dos efetivos. Já os que têm mais de 50 anos, incluindo aqueles que ocupam cargos de chefia, são ardentemente convidados a se demitir, pois custam muito caro. Para todos, as condições de trabalho são difíceis, as amplitudes de horário desmedidas, as tensões fortes, os acidentes numerosos. Em janeiro de 2013, um funcionário sem contrato morreu depois de um vazamento de ácido fluorídrico na fábrica de Hwasung, perto de Suwon.

Vista de fora, nada indica o menor perigo nessa unidade. Preocupado com o decoro, Lee Kun-hee construiu com cuidado sua digital city (cidade digital), que se estende por três comunas, Hwasung, Giheung e Onyang. A sábia reunião de grandes cubos de um branco puro, de prédios de vidro elegantes e de um gramado bem cuidado faz pensar num campus universitário. A cada extremidade, dormitórios: os das moças são imponentes, pois as “operadoras” são mais numerosas. Mais distante, o dos rapazes, encarregados da manutenção e do fornecimento. Vindos de todo o país, esses jovens fabricam semicondutores.

Todos os anos, os executivos da Samsung partem à caça. Eles vão ao encontro dos colegas do interior a fim de coletar novas recrutas, e fica a cargo dos orientadores fazer a pré-seleção. Todos dizem o mesmo: há mais demanda que oferta. A Samsung goza de uma bela reputação, e os salários são relativamente altos: o equivalente a 2 mil euros, uma fortuna para quem está começando (o salário mínimo não ultrapassa 600 euros). “Trabalhando na Samsung”, testemunha uma funcionária, “posso ajudar meus pais e preparar meu casamento.”

Mas os sonhos de menina frequentemente se evaporam nas salas brancas de produção. Visto de fora, tudo parece higienizado com suas “operadoras” com aparência de astronautas, vestidas de branco da cabeça aos pés, apenas com os olhos de fora. Imaginamos que são locais altamente seguros. No entanto, esse cenário futurista dissimula práticas medievais.

É preciso trabalhar ao menos doze horas por dia; participar das atividades de caridade a fim de desenvolver o espírito de solidariedade, é o que diz a administração; depois, eventualmente, voltar ao trabalho antes de dormir. Seis dias por semana. No sétimo, as trabalhadoras estão tão cansadas que dormem lá mesmo e raramente visitam a família. “Levantamo-nos na Samsung, comemos na Samsung, trabalhamos na Samsung, nos divertimos na Samsung, dormimos na Samsung”, resume Kab-soo, feliz de ter saído depois de juntar um pequeno pé de meia e encontrado outro emprego um pouco menos duro.

Claro, essas jovens têm o direito de sair à noite. “Não estamos na China”, replica, um pouco ofendido, um ex-executivo do grupo. No entanto, ele reconhece, isso não é muito bem-visto. E se, por descuido, elas voltam depois do toque de recolher (meia-noite), recebem um “cartão vermelho” que só será apagado quando elas tiverem participado devidamente das atividades de caridade da casa.

O cansaço é tamanho que as indisciplinas são raras. No entanto, encapuzadas em sua fantasia de bunny, as trabalhadoras resistem a essa robotização. Proibidas de usar maquiagem, elas colocam cílios postiços. Cobertas até os olhos pelo capuz regulamentar, elas encontram maneiras elegantes de usá-lo, conta Lee Kyung-hong, jovem cineasta documentarista que as filmou durante três anos... [10] depois que saíram da empresa, pois são totalmente proibidas de falar a respeito enquanto estão empregadas.

São suas únicas fantasias. “Trabalhamos com medo”, lembra Kab-soo. Medo de errar. Medo de não conseguir. Medo de ficar doente. A fábrica de semicondutores necessita de grandes quantidades de produtos químicos, gases extremamente perigosos, campos eletromagnéticos. As operárias devem mergulhar suas placas em diversos banhos com grande rapidez, não se enganar, verificar...

Violações da segurança no trabalho

No papel, as normas de segurança existem. Mas, na unidade de Hwasung, já houve dois vazamentos de gás entre janeiro e maio de 2013. Os sistemas de ventilação não funcionam sempre. Frequentemente as próprias operadoras abrem as válvulas de radioatividade para irem mais rápido e cumprirem sua missão. Sem serem pagas por unidade, elas se sentem responsáveis pelo resultado comum.

Nesse ritmo, elas não aguentam mais do que quatro ou cinco anos. Depois, encontram outro emprego ou voltam para a casa dos pais e se casam – apenas 53,1% das mulheres trabalham [11]. Algumas acabam morrendo. Em 2007, a jovem Hwang Yumi, na época com 22 anos, faleceu depois de quatro anos de trabalho na unidade de Giheung. Seu pai, Hwang Sang-gi, taxista em Dokcho, a duas horas e meia de carro de Seul, se lembra de cada instante do câncer que a devorou por longos meses. Ele se tornou um símbolo. Ainda que, segundo sua expressão, “não fale tão bem quanto os burocratas da Samsung” e mesmo recebendo ameaças e ofertas financeiras para se calar, ele nunca abandonou a luta. Ele quer que o câncer de sua filha seja reconhecido como uma doença profissional não apenas pela administração – o que já aconteceu –, mas também pela Samsung, que continua negando. No caso de Yumi, assim como no de todos que ainda estão morrendo.

A primeira que lhe deu ouvidos foi a advogada Lee Jong-ran. Ela não se cala sobre os danos provocados por esse concentrado de substâncias perigosas. “Os fabricantes dizem que não há nada a temer, mas nenhum quer dar a lista exata dos produtos utilizados, em nome do ‘segredo de fabricação’. E os jovens morrem em segredo” Com o doutor Kong Jeong-ok e a associação Supporter for the Health and Rights of People in the Semiconductor Industry (Sharps), ela recenseou 154 doentes sofrendo de diversas condições (leucemia, câncer de mama, esclerose múltipla...) desde março de 2012, dos quais 137 são ex-funcionários da Samsung. Para muitos especialistas do grupo, essas doenças profissionais são um segredo conhecido por todos. Foram necessários, no entanto, os vazamentos de gás tóxico em Hwasung, a dez minutos das residências de luxo no entorno de Suwon, para que alguns começassem a se preocupar e para que a direção prometesse tomar providências...

Mas quando, depois de meses e meses de procedimentos para que fosse examinado um caso preciso, a agência pública de indenização designada pelas autoridades finalmente entrou em funcionamento, ela convocou um médico... da Samsung[12].

BOX:

Ficha de Identidade

Valores de negócios: R$ 537 bilhões.

Lucro líquido: R$ 40 bilhões.

Funcionários: 369 mil pessoas, dos quais 40 mil pesquisadores.

Parte das vendas mundiais de celulares: 29% (22% para Apple).

Principais filiais: Samsung Electronics (telefones celulares, semicondutores, telas de LCD, aquecedores solares...), Samsung Heavy Industries (construção naval, plataformas petroleiras), Samsung Techwin (armamento), Samsung Life Insurance (seguros), Everland (parques de diversão), The Shilla Hotels and Resorts, Samsung Medical Center, Samsung Economic Research Institute.

Principais países de atuação fora da Coreia do Sul: China (montagem de telefones celulares), Malásia, Vietnã.

Fontes: Relatório oficial da Samsung, IDC Worldwide Mobile Tracker 2012.



[8] Cho Don-moon, “A estratégia antissindical da Samsung.História da luta dos trabalhadores pela criação de um sindicato”, estudo (em coreano), 2012.
[9] Cf. Jean-Marie Pernot, “Corée du Sud: des luttes syndicales pour la démocratie” [Coreia do Sul: lutas sindicais pela democracia], Chronique Internationale de L’Ires, n.135, Paris, mar. 2012.
[10] Lee Kyung-hong, L’empire de la honte [O império da vergonha], Purn Production, Seul, 2013.
[11] A média para os países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de 56,7%.
[12] “South Korean government rejects Samsung victim’s workers compensation based on Samsung doctor’s opinion” [Governo sul-coreano rejeita compensação a trabalhadores vitimados da Samsung baseado na opinião de médico da Samsung], Sharps, 31 maio 2013.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Competitividade

Samsung e o império do medo*


Martine Bulard

Impossível não percebê-la, mesmo no meio dessa floresta de prédios de vidro nos formatos mais mirabolantes – aqui, a originalidade é uma marca de distinção. A torre Samsung reina em pleno coração de Gangnam, um dos distritos mais chamativos de Seul, com suas avenidas gigantescas, seus carros de luxo e seus jovens descolados, que ficaram mundialmente conhecidos graças ao cantor Psy, no seu clipe Gangnam style. A Samsung Electronics apresenta ali, em três andares, suas invenções mais espetaculares: telas gigantes nas quais nos transformamos em jogadores de golfe ou campeões de beisebol; televisores 3-D; geladeiras com laterais e portas transparentes e dotadas de um sistema que pode propor receitas com base em seu conteúdo; espelhos com captadores que indicam nosso ritmo cardíaco, nossa temperatura... Sem esquecer, num lugar de destaque, a última jóia do grupo: o smartphone Galaxy 4, lançado no mundo inteiro.

Essa é a face luminosa da Samsung. Neste fim de tarde de maio, dezenas de adolescentes se encontram aqui, já que a Universidade de Seul se situa a alguns quarteirões. Eles vão de um estande a outro, surpreendem-se diante das proezas, desafiam-se, interpelam-se. Todos com quem conversamos garantem que trabalhar na Samsung seria “o sonho”.

Uma observação que vamos ouvir com frequência. Pois não foi a Samsung que engoliu o peão do colosso norte-americano Apple e do japonês Sony? Não foi “o gigante do século XXI nas tecnologias mais avançadas”, como disse um jovem pesquisador recentemente empregado na Samsung Design, “templo da inovação? E a maior torre do mundo em Dubai? E a central nuclear de Abu Dhabi?”, pergunta meu jovem interlocutor, com um toque de ironia, pois a França perdeu essa concorrência. Samsung, Samsung de novo, sempre a Samsung...

O grupo estende seus tentáculos dos terrenos navais aos nucleares, da indústria pesada à construção imobiliária, dos parques de diversão aos armamentos, do eletrônico ao grande varejo, e até mesmo às padarias de bairro, sem esquecer o setor dos seguros e ainda os institutos de pesquisa. Ele é o que se chama na Coreia do Sul de chaebol – um conglomerado de empresas reunido em torno de uma companhia central –, sem equivalente no mundo [1].

“Na Coreia do Sul”, precisa Park Je-song, pesquisador no Korean Labor Institute (KLI), “você nasce numa maternidade que pertence a um chaebol, vai para uma escola chaebol, recebe um salário chaebol– pois a quase totalidade das pequenas e médias empresas dependem deles –, vive em um apartamento chaebol, tem um cartão de crédito chaebole até mesmo seus lazeres e suas compras serão garantidos por um chaebol.” Ele poderia acrescentar: “você se elege graças a um chaebol”, já que esses mastodontes financiam indiferentemente a direita e a esquerda.

Existem uns trinta deles no país, entre os quais Hyundai, Lucky Goldstar (LG) e Sunkyung Group (SK), cada um propriedade de uma grande família tradicional. O mais poderoso é a Samsung, que opera nas novas tecnologias e cuida de sua imagem – o grupo gastou 9 bilhões de euros em marketing em 2012[2] – , mesmo que a saga familiar, com processos espetaculares, disputas fratricidas, corrupção e gastos suntuosos, faça o seriado norte-americano Dallas parecer um folhetim água com açúcar.

Sua história simboliza a evolução da República da Coreia, que passou de um status de país em desenvolvimento nos anos 1960 – atrás da Coreia do Norte, então mais industrializada – para 15ª economia mundial. O criador do grupo, Lee Byung-chul (1910-1987), começou de baixo, com um pequeno comércio que tinha como emblema três estrelas – samsung, em coreano. A lenda coloca a tônica em sua sensibilidade para o comércio, que lhe permitiu focar os bens de grande consumo (televisores, refrigeradores), depois os eletrônicos, ganhando assim seus títulos de nobreza – e enchendo seus caixas – na Coreia e no mercado ocidental. Ele legou sua fortuna a seus filhos, praticamente sem pagar impostos, e designou um deles, Kun-hee, para lhe suceder.

Fogueira de celulares

Este último desenvolveu o grupo ao ponto de alçá-lo ao primeiro lugar nas vendas de semicondutores (ele fornece para a Apple), de smartphones, de telas planas, de televisores, e ficar entre os primeiros em engenharia e química. O grupo se situa no vigésimo lugar mundial na lista da Forbes [3], apresentando um valor de negócios equivalente a um quinto do PIB da Coreia do Sul. Com uma riqueza pessoal avaliada em US$ 13 bilhões, Lee Kun-hee, 69ª fortuna mundial, é o homem mais rico do país.

A lenda omite o detalhe de que Lee Byung-chul iniciou seus negócios, em 1938, com o aval do ocupante japonês. Ela também não conta que o grupo se desenvolveu com a ajuda em dinheiro líquido do ditador Park Cheung-hee, que trouxe terrenos, financiamentos, impostos reduzidos e normas específicas para proteger o mercado interno. Puro produto da ditadura, a Samsung conserva belos traços desta.

Com 71 anos, o atual patrão “exerce um poder absoluto tanto sobre as orientações do grupo quanto sobre o pessoal”, garante Park Je-song, “mesmo detendo apenas uma ínfima parte do capital”: menos de 3%. Quando ele fala, todos obedecem sem hesitar. Em 1993, ele soltou para os funcionários: “Vocês devem mudar tudo, menos suas mulheres”. De um dia para o outro, produtos, métodos e administrações foram alterados. Essa famosa “reatividade ao mercado” é o sucesso do grupo e a lenda sobre seu chefe.

Dois anos depois, constatando a má qualidade dos telefones, Lee Kun-hee organizou uma gigantesca fogueira com 150 mil celulares, que viraram cinza diante dos trabalhadores perplexos. A imagem foi retransmitida em todas as fábricas, para mostrar que um trabalho malfeito não vale mais do que um monte de cinzas. O “defeito zero” se tornou a norma a ser respeitada, e o sentimento de culpa dos trabalhadores, um dogma.

Advogado renomado, Kim Yong-cheol trabalhou na secretaria geral da corporação, o que há de mais elevado, também chamado de Grupo Central para a Reforma (Reformation Headquarter Group). Ele conta que durante as reuniões com o grande chefe, que podem durar mais de seis horas, nenhum funcionário ousa beber um copo de água, por medo de precisar ir ao banheiro: Lee não suportaria. Ninguém pode falar sem sua autorização. Ousar emitir a menor dúvida não passa pela cabeça de ninguém. “É como um ditador. Ele ordena, nós executamos.”

Também para os fornecedores, não há outro caminho a não ser a submissão. Exímio conhecedor da Coreia do Sul, um dirigente francês de uma empresa do setor muito valorizado das instalações urbanas de luxo, que preferiu permanecer anônimo, confiou: “Para trabalhar aqui, é preciso ser nomeado. Não existe licitação ou concorrência. Tudo se baseia na confiança. Se a relação funciona, você deve ser inteiramente devotado ao grupo, obedecer completamente. A vantagem é que você pode inovar, mas sob sua proteção”. É impossível trabalhar para outro chaebol ou recusar uma encomenda. “São relações feudais”, acaba confessando. Outros fornecedores com menos prestígio podem ver seu ganho reduzido de maneira autoritária do dia para a noite ou serem cortados da lista.

O advogado Kim Yong-cheol viveu o sistema Samsung de dentro. Durante “sete anos e um mês”, precisa ele, colocou seu talento a serviço do grande homem e de suas práticas mais ou menos lícitas: dupla contabilidade, caixa dois para comprar jornalistas e políticos, contas secretas para uso pessoal, entre elas a da senhora Lee, grande amante da arte contemporânea. “Fiquei até o momento em que descobri que havia uma conta bancária em meu nome creditada com diversas dezenas de milhões de wons.”[4]

Ele pediu demissão em 2005. Dois anos depois, uma comissão de investigação foi iniciada. Lee Kun-hee foi condenado a três anos de prisão com liberdade condicional por fraude fiscal e abuso de confiança... antes de ser anistiado pelo presidente da República da época, Lee Myung-bak, ele mesmo antigo proprietário de uma filial da Hyundai. A atual presidente Geun-hye fez dele um de seus convidados de honra durante sua viagem aos Estados Unidos, em maio de 2013.

Foi demais para Kim Yong-cheol. Em 2010, ele escreveu com acidez e publicou Pensar Samsung,[5] em que detalha os abusos da família e a corrupção até os mais altos escalões do Estado: “Eu devia dar a prova de que não estava mentindo”. Nenhum dos três grandes jornais, Chosun,Joongang e Donga –ou Chojoodong, como nomeiam aqui esta imprensa de conveniência –, aceitou fazer publicidade do livro. Ninguém fez uma crítica. Todos estão ligados à Samsung pela publicidade, pelos envelopes espontaneamente depositados para os jornalistas ou por relações íntimas com a família. Apenas o Hankyoreh quebrou a lei do silêncio, o que acarretou no fim dos anúncios publicitários do grupo.

No entanto, as redes sociais fizeram que o livro fosse conhecido e se vendessem 200 mil exemplares. Belo sucesso nas livrarias, mas o advogado continua sem emprego. Ele teve de voltar para sua cidade natal, Gwangju, único lugar onde conseguiu encontrar um trabalho. Ele lamenta apenas uma coisa: “O debate público não aconteceu. A Samsung qualificou meu livro de ‘pura ficção’”. E o jogo continuou.

Mesma constatação do cineasta Im Sang-soo. Com seu filme L’ivresse de l’argent [A embriaguez do dinheiro],de 2012, ele escolheu desde o começo a ficção [6]. Im descreveu com maestria o comportamento dos chaebols: a corrupção, a arrogância, o desprezo pelos funcionários, as disputas familiares e até o assassinato. “Os chaebols transformam as pessoas em escravas. Eu devia desmontar seus mecanismos”, explica no escritório da sucursal coreana do Le Monde Diplomatique[7]. No entanto, “o filme não foi um sucesso”. Silêncio midiático e recusa de difusão por parte das grandes salas de cinema. Para ele, “o mais decepcionante é que o filme nem sequer interessou à esquerda, pois ela não ousa atacar essa fortaleza. Ainda assim, existem duas dinastias na península: a Coreia do Norte com os Kim e a Coreia do Sul com os Lee”.

A imagem não é tão exagerada quando vemos a sorte destinada ao deputado do Novo Partido Progressista Roh Hoe-chan, que perdeu seu mandato em fevereiro de 2013 por ter tornado pública uma lista de personalidades corrompidas pela Samsung. Não qualquer lista: a que foi estabelecida pelos serviços secretos, que, por razões obscuras, tinham registrado conversas entre o patrão do grupo e o do jornal Joongang. Fala-se muito de dinheiro distribuído para muita gente importante: o vice-ministro da Justiça, um ou dois procuradores, diversos jornalistas, alguns candidatos às eleições.

Quando o caso começou a vazar, Roh reclamou e obteve uma comissão de investigação parlamentar que se apressou para abafar o escândalo. Apenas o vice-ministro da Justiça pediu demissão. Confiante em sua imunidade parlamentar, o deputado revelou essa lista durante uma coletiva de imprensa e, não tendo nenhuma ilusão a respeito das consequências, disponibilizou a lista em seu site. Porém, segundo a Corte Suprema, a imunidade termina... onde a internet começa. “Uma farsa”, comenta Roh. “Fui condenado, mas nenhum procurador foi investigado. Basta dizer que o filho do responsável do tribunal encarregado da investigação é funcionário da... Samsung. A Corte Suprema quis fazer de mim um exemplo. É inacreditável a quantidade de telefonemas de ‘amigos’ que recebi, querendo me dissuadir de levar adiante minha luta”. Sai de cena o deputado obstinado.



[1] Ler Laurent Carroué, “Les travailleurs coréens à l’assaut du dragon” [Os trabalhadores coreanos no que do dragão], e Jacques Decornoy, “Délicate fin de guerre dans la péninsule de Corée” [Delicado fim de guerra na Península da Coreia], Le Monde Diplomatique, respectivamente fev. 1997 e nov. 1994.
[2] Benjamin Ferran, “Samsung a dépensé 9 milliards en marketing” [A Samsung gastou 9 bilhões em marketing], Le Figaro, Paris, 14 mar. 2013.
[3] “Global 2000 companies”, Forbes, Nova York, maio 2013. Disponível em:.
[4] 1.000 wons representam cerca de R$ 1,90.
[5] Apenas em coreano.
[6] Disponível em Wild Side Video, Paris.
[7] Ler a entrevista no site.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Meritocracia

Como se desperta o pior que há em nós*

Paul Verhaeghe**


Temos a tendência de enxergar nossas identidades como estáveis e muito separadas das forças externas. Porém, décadas de pesquisa e prática terapêutica convenceram-me de que as mudanças econômicas estão afetando profundamente não apenas nossos valores, mas também nossas personalidades. Trinta anos de neoliberalismo, forças de livre mercado e privatizações cobraram seu preço, já que a pressão implacável por conquistas tornou-se o padrão. Se você estiver lendo isto de forma cética, gostaria de afirmar algo simples: o neoliberalismo meritocrático favorece certos traços de personalidade e reprime outros.

Há algumas características ideais para a construção de uma carreira hoje em dia. A primeira é expressividade, cujo objetivo é conquistar o máximo de pessoas possível. O contato pode ser superficial, mas como isso acontece com a maioria das interações sociais atuais, ninguém vai perceber. É importante exagerar suas próprias capacidades tanto quanto possível – você afirma conhecer muitas pessoas, ter bastante experiência e ter concluído há pouco um projeto importante. Mais tarde, as pessoas descobrirão que grande parte disso era papo furado, mas o fato de terem sido inicialmente enganadas nos remete a outro traço de personalidade: você consegue mentir de forma convincente e quase não sentir culpa. É por isso que você nunca assume a responsabilidade por seu próprio comportamento.

Além de tudo isso, você é flexível e impulsivo, sempre buscando novos estímulos e desafios. Na prática, isso gera um comportamento de risco, mas nem se preocupe: não será você que recolherá os pedaços. Qual a fonte de inspiração para essa lista? A relação de psicopatologias de Robert Hare, o especialista mais conhecido em psicopatologia atualmente.

Esta descrição é, obviamente, uma caricatura exagerada. Contudo, a crise financeira ilustrou em um nível macrossocial (por exemplo, nos conflitos entre os países da zona do euro) o que uma meritocracia neoliberal pode fazer com as pessoas. A solidariedade torna-se um bem muito caro e luxuoso e abre espaço para as alianças temporárias, cuja principal preocupação é sempre extrair mais lucro de uma dada situação que seu concorrente. Os laços sociais com os colegas se enfraquecem, assim como o comprometimento emocional com a empresa ou organização.

Bullying era algo restrito às escolas; agora é uma característica comum do local de trabalho. Esse é um sintoma típico do impotente que descarrega sua frustração no mais fraco. Na psicologia, isso é conhecido como agressão deslocada. Há uma sensação velada de medo, que pode variar de ansiedade por desempenho até um medo social mais amplo da outra pessoa, considerada uma ameaça.

Avaliações constantes no trabalho causam uma queda na autonomia e uma dependência cada vez maior de normas externas e em constante mudança. O resultado disso é o que o sociólogo Richard Sennett descreveu com aptidão como a “infantilização dos trabalhadores”. Adultos com explosões infantis de temperamento e ciúme de banalidades (“Ela ganhou uma nova cadeira para o escritório e eu não”), contando mentirinhas, recorrendo a fraudes, rogozijando-se da queda dos outros e cultivando sentimentos mesquinhos de vingança. Essa é a consequência de um sistema que impede as pessoas de pensar de forma independente e que é incapaz de tratar os empregados como adultos.

Porém, o mais importante é o dano à autoestima das pessoas. O autorrespeito depende amplamente do reconhecimento que recebemos das outras pessoas, como mostraram pensadores desde Hegel a Lacan. Sennett chega a uma conclusão parecida quando percebe que a questão principal dos funcionários hoje em dia é “Quem precisa de mim?” Para um grupo cada vez maior de pessoas, a resposta é: ninguém.

Nossa sociedade proclama constantemente que qualquer pessoa pode “chegar lá” caso se esforce o suficiente. Isso reforça os privilégios e coloca cada vez mais pressão nos ombros dos cidadãos já sobrecarregados e esgotados. Um número crescente de pessoas fracassa, gerando sentimentos de humilhação, culpa e vergonha. Sempre ouvimos que até hoje nunca tivemos tanta liberdade para escolher o curso de nossas vidas, mas a liberdade de escolher algo fora da narrativa de sucesso é limitada. Além disso, aqueles que fracassam são considerados perdedores ou bicões, levando vantagem sobre nosso sistema de seguridade social.

Uma meritocracia neoliberal quer nos fazer acreditar que o sucesso depende do esforço e do talento das pessoas, ou seja, a responsabilidade é toda da pessoa, e as autoridades devem dar às pessoas o máximo de liberdade possível para que elas alcancem essa meta. Para aqueles que acreditam no conto das escolhas irrestritas, autonomia e autogestão são as mensagens políticas mais notáveis, especialmente quando parece que prometem liberdade. Junto com a ideia do individuo perfeito, a liberdade que acreditamos ter no Ocidente é a grande mentira dos dias atuais e de nossa época.

O sociólogo Zygmunt Bauman resume perfeitamente o paradoxo de nossa era como: “Nunca fomos tão livres. Nunca nos sentimos tão incapacitados.” Realmente somos mais livres do que antes no sentido de podermos criticar a religião, aproveitar a nova atitudelaissez-faire com relação ao sexo e apoiar qualquer movimento político que quisermos. Podemos fazer tudo isso porque essas coisas não têm mais qualquer importância – uma liberdade desse tipo é movida pela indiferença. Por outro lado, nossas vidas diárias transformaram-se em uma batalha constante contra uma burocracia que faria Kafka tremer. Há regulamentos para tudo, desde a quantidade de sal no pão até a criação de aves na cidade.

Nossa suposta liberdade está ligada a uma condição central: precisamos ser bem-sucedidos – ou seja, “ser” alguém na vida. Não é preciso ir muito longe para encontrar exemplos. Uma pessoa muito bem qualificada que decide colocar a criação de seus filhos à frente da carreira certamente receberá críticas. Uma pessoa com um bom trabalho, que recusa uma promoção para investir mais tempo em outras coisas é vista com louca – a menos que essas outras coisas garantam o sucesso. Uma jovem que deseja ser uma professora de primário ouve de seus pais que ela deveria começar obtendo um mestrado em economia. Uma professora de primário, o que será que ela está pensando?

Há lamentos constantes com relação à chamada perda de normas e valores em nossa cultura. Ainda assim, nossas normas e valores compõem uma parte integral e essencial de nossa identidade. Portanto, não é possível perdê-las, apenas mudá-las. E é exatamente isso que aconteceu: uma mudança de economia reflete uma mudança de ética e gera uma mudança de identidade. O sistema econômico atual está revelando nossa pior faceta.

*Extraído de Outras Palavras

**PhD e professor sênior da Universidade de Ghent. Ocupa a cadeira do departamento de psicanálise e aconselhamento psicológico. Já publicou oito livros, com cinco traduzido para o Inglês. Sua mais recente, What About Me? A luta pela identidade em uma sociedade baseada no mercado.