quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Desenvolvimento Sustentável

CRA/RJ dá posse aos componentes da
Comissão de Desenvolvimento Sustentável*


Com o cenário mundial que já sofre com o aquecimento global e a crescente destruição da natureza, dentro das empresas e instituições modernas um assunto está em voga: o Desenvolvimento Sustentável. Para refletir, estimular práticas que viabilizem o crescimento sustentável, integrar o Desenvolvimento Sustentável ao Planejamento Estratégico das empresas e conscientizar os coordenadores de cursos de Administração e autoridades sobre a relevância de sua aplicação nas Instituições de Ensino Superior, o CRA/RJ criou sua Comissão de Desenvolvimento Sustentável. Para concretizar tais objetivos, foram definidos os nomes de seus membros, que formam empossados na Reunião Plenária do dia 25 de novembro de 2008.

A Comissão irá se reunir semanalmente, em horário e local a definir, para debater e apresentar soluções sobre o tema. Veja abaixo quem são os Administradores e Administradoras da Comissão de Desenvolvimento Sustentável do CRA/RJ:

Adm. Aldemir Motta Borges Junior
Adm. Daniel Roedel
Adm. Elizabeth de Souza
Adm. Francisco Carlos Santos de Jesus
Adm. Franklin José Flávio Júlio de Villa Nova Vieira Maciel Junior
Adm. Jorge Augusto de Lacerda
Adm. Jorge Bezerra
Adm. Marcelo Pereira Marujo
Adm. Mariana de Almeida de Barros
Adm. Mônica Roberta Aparecida da Silva
Adm. Paulo Pizão
Adm. Roberto Rosa Olivella
Adm. Tanya Linda Rothgiesser

*Extraído do site do CRA. Para acesso à notícia clique em Administrador.

Nossa opinião

Foi com satisfação que recebemos a notícia e o convite para que o nosso diretor, Daniel Roedel, participasse da comissão. Entendemos que hoje o desenvolvimento sustentável é tema obrigatório na orientação estratégica de empresas e países, além de conteúdo essencial na formação do Admininistrador. A firme iniciativa do Conselho Regional de Administração o coloca alinhado à vanguarda na reflexão e proposição de ações que promovam o desenvolvimento econômico, social e ambiental, com forte compromisso na preservação da qualidade de vida para as gerações futuras. O êxito do trabalho da comissão poderá significar um importante passo para o amadurecimento da profissão do Administrador, que com freqüência se vê obrigado a buscar em outras áreas de conhecimento referências para a tomada de decisões em situações complexas e que exijam reflexões além da técnica e das ferramentas comumente divulgadas e utilizadas na Administração.

Cultura

Cultura é atitude: Responsabilidade Social e Cultura! - parte I*

Júlia Andrade Ramalho-Pinto**

Desde a invenção da máquina a vapor por James Watt (1776) e sua aplicação à produção industrial, mudou a concepção de trabalho, alterando a estrutura social e comercial a partir daquela época. No início do século XIX as mudanças se aceleraram e, em menos de um século, passamos a ter uma nova ordem política, econômica e social. Esse período, caracterizado como Revolução Industrial, se iniciou na Inglaterra e se alastrou por todo o mundo. Pode-se dizer que foi um período de uma maior especialização e fragmentação do trabalho, simplificação das operações de produção, buscando-se uma maior produtividade e aumentando o controle sobre a produção. Nesse período os chamados economistas liberais (James Mill, David Ricardo, Adam Smith) iriam sustentar a tese que a atividade econômica devia se afastar da influência do Estado, tornando a livre concorrência o postulado principal do liberalismo econômico que viria prevalecer até os dias de hoje.

Hoje vivemos numa sociedade que apresenta um impasse: a economia de mercado não cumpriu sua promessa de garantir um sistema de trocas razoável, e nem todos que participam do mercado têm a mesma força competitiva. Segundo o sociólogo italiano Domenico de Masi (1999), os dois grandes modelos econômicos que se confrontaram no século XX não ofereceram soluções para uma sociedade mais justa, isto é, o capitalismo demonstrou saber produzir riqueza, mas não como distribuí-la; enquanto o comunismo demonstrou saber distribuí-la, mas não produzi-la. O século XX não terminou bem, pois há uma enorme concentração de renda, os problemas sociais são de dimensões extraordinárias, com desigualdades agudas, além dos problemas ambientais alarmantes.

Neste contexto, observa-se uma maior integração das economias de mercado, o que vem sendo chamado de “globalização”. Na verdade, não há um consenso sobre o que seja de fato a globalização e quais seriam seus desdobramentos sócio-políticos.

Segundo o jornalista Thomas Friedman, autor do Best-Seller O mundo é plano, a globalização se apresenta como a esperança de se melhorar as oportunidades. Estaríamos vivendo num “mundo plano” onde interligamos os centros de conhecimento ao longo do planeta e, tecendo uma rede global única, criando, assim, a oportunidade para que surja uma era notável de prosperidade, inovação e colaboração entre empresas, comunidades e indivíduos.

Contrariamente a esta visão, o sociólogo e cientista político José Luís Fiori (1997) acredita que a natureza do processo de globalização é desigual e descontínua. A globalização não é uma resultante exclusiva das forças de mercado, não é um fenômeno universal, inclusivo e homogenizador. Na verdade, o processo de globalização, já em marcha, tem mostrado que não foi capaz de distribuir riquezas, mas, ao contrário, concentra benefícios, não havendo uma fragmentação eqüitativa destes entre os vários participantes deste mercado globalizado. Embora a globalização seja um fato, ela é tudo menos global neste sentido de inclusão, ao contrário, ela tem sido parceira inseparável de um aumento gigantesco da polarização entre países e classes do ponto de vista da distribuição da riqueza.

Diante do fato do processo desigual e concentrador de renda, as Nações Unidas tem procurado um modelo alternativo de desenvolvimento que vá além do progresso econômico. Apenas discutir o avanço econômico é insuficiente diante tantos problemas que este modelo vem trazendo para os países e para o meio ambiente. Desde a conferência das Nações Unidas sobre meio ambiente e desenvolvimento em 1992, na chamada agenda 21, foram estabelecidos os princípios de um desenvolvimento sustentável. Hoje, além da economia, os países discutem a interação das dimensões sociais, ambientais e institucionais na busca do o desenvolvimento sustentável.

E o Brasil?

Em 2005, as Nações Unidas elaboraram um relatório sobre o Brasil apontando seus principais desafios frente ao desenvolvimento sustentável (Desafios do Brasil, 2005). Entre os países participantes da ONU, somos a 5a maior população do mundo, temos o 14o maior PIB (Produto Interno Bruto) e o 63o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). O Brasil não é um país pobre, mas injusto e desigual.

Neste sentido, continuamos dentro do que vem acontecendo no mundo: produção de riqueza sem distribuição, ao contrário, com concentração.

Para monitorar alguns aspectos do desenvolvimento sustentável em nosso país, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2002, elaborou um relatório destacando alguns aspectos como: dimensão social, dimensão ambiental, dimensão econômica, dimensão institucional.

Para abordar a relação do tema desenvolvimento sustentável e responsabilidade social, alguns pontos da dimensão social devem ser ressaltados, como: educação e renda.

Dimensões sociais da participação cultural, ou cultura e desenvolvimento sustentável, não fazem parte do relatório de indicadores de desenvolvimento sustentável do IBGE. Podemos perguntar qual a importância da participação cultural para o desenvolvimento de um país?

Observa-se que um número significativo de países e organizações internacionais vem dedicando crescente atenção à produção de conhecimento sobre as especificidades e potencialidades das atividades diretas e indiretamente ligadas à cultura, em termos de valor adicionado, emprego, renda, receitas e demais variáveis socioeconômicas. Desde 1970, a França foi um dos primeiros países a incluírem a cultura no plano de metas nacional, enquanto Estados Unidos e outros países membros da Unesco vêm incorporando a cultura em suas estratégias de desenvolvimento social e econômico.

Nesse contexto de desenvolvimento, nosso país tem encontrado dificuldades de coordenar suas ações e muitas vezes acabam faltando recursos diante de tantos desafios de desenvolvimento da sociedade. Assim, as empresas, que participam e se desenvolvem através do mercado, têm sido chamadas a se responsabilizar pela sua participação nessa nossa sociedade. Contudo, o que se observa ainda é pouca preocupação por parte destas com o ambiente externo em que atuam. Verificamos que muitas degradam o meio ambiente, outras abusam da força de poder explorando o trabalho infantil e das mulheres, etc.; elas acabam não se implicando com a realidade da sociedade na qual estão inseridas e onde geram seus lucros. Na ausência de uma auto-regulação tanto no plano econômico quanto no plano social, as empresas que têm poder para agir em prol do desenvolvimento sustentável, muitas vezes, acabam não o fazendo.

Mas porque as empresas deveriam se envolver com os problemas sociais?

*Adaptado de "Cultura é atitude: Responsabilidade Social e Cultura!", publicado originalmente em Estação do Saber. Texto integral disponível em Saber.

**Mestre em administração (UFMG), administradora (UFMG) e psicóloga (FUMEC-MG), professora universitária em cursos de graduação e pós-graduação, pesquisadora das ações de ética e responsabilidade social das empresas mineiras e consultora organizacional.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Gerencialismo

A vida como extensão da empresa - final*

Thomaz Wood Jr.**

A partir dos anos 1980, o gerencialismo sofreu forte impulso, decorrente da adoção das chamadas políticas neoliberais. O movimento, como se sabe, teve início no Reino Unido e nos Estados Unidos. Pontificando sob um país decadente, a primeira-ministra Margaret Thatcher apostou seu mandato na recuperação de valores vitorianos de trabalho duro, motivação, ambição criativa e independência, adaptando-os ao momento. Do outro lado do Atlântico, Ronald Reagan cruzou o desfiladeiro que partia da depressiva Era Carter, buscando a salvação no individualismo e no empreendedorismo.

O novo humor alimentou e foi alimentado pela adoção de políticas neoliberais. Cada um em seu nível de atuação, eles se casaram, se complementaram e iniciaram uma feliz vida a dois. O gerencialismo estava para as empresas e para os indivíduos assim como o neoliberalismo estava para as instituições e para os países. Reformado pelo humor emergente, o gerencialismo passou a ser visto como a melhor resposta aos desafios da globalização, senão a única resposta para evitar o declínio econômico de empresas, de regiões e de países. Seus valores, modelos e técnicas migraram rapidamente do Reino Unido e dos Estados Unidos para outros países desenvolvidos e, então, para a Europa do Leste, Ásia e América Latina.

Empresas e governos abraçaram rapidamente o novo credo. Cinco princípios compuseram um ideário que rapidamente se consolidou: primeiro, a crença inabalável na liberdade de mercado (o retorno da “mão invisível”). Segundo, a visão dos indivíduos como empreendedores de si mesmos (you Inc., copiado no Brasil como Você S.A., que se tornou título de revista de auto-ajuda). Terceiro, o culto da excelência como meio para o desenvolvimento individual e coletivo. Quarto, a crença de que as tecnologias gerenciais são válidas em todas as latitudes, longitudes e altitudes. E quinto, que estas mesmas tecnologias gerenciais, por suas qualidades (e também por seus poderes mágicos) são capazes de garantir os melhores resultados para as empresas.

Com o tempo, o novo humor ganhou status de credo, e este organizou uma igreja em torno de si. A sustentá-la, três vistosos pilares: as empresas de consultoria, as escolas de negócios e a mídia de negócios. Cada um destes pilares contribuiu, à sua maneira, para o aperfeiçoamento do novo credo. Abençoados na união, os componentes desta sagrada trindade cresceram e se multiplicaram.

Pindorama absorveu o novo credo com algum atraso, porém abraçou-o com vigor de noviço. Como em outros países, aqui também o grande impulso veio das reformas econômicas neoliberais. Desde o início do século XX, a condução da economia local foi marcada pela falta de apreço à ortodoxia. No entanto, no fim dos anos 1980 e início dos 1990, o Brasil passou a liberalizar a economia e a seguir as cartilhas recomendadas pelos organismos internacionais. As mudanças decorrentes – os programas de privatização, o movimento de fusões e aquisições, o aumento da competição entre empresas e a terceirização – geraram, como em outros países, forte demanda de serviços de consultoria e educação, e contribuíram para criar um terreno fertilíssimo para o avanço do novo credo.

Consultores, educadores e editores responderam prontamente à nova demanda. As maiores empresas mundiais de consultoria aqui se instalaram ou, se já instaladas, aumentaram seus quadros e ampliaram suas atividades. Durante toda a década de 1990, a indústria do conselho instigou corações e mentes a abraçar as novas ondas gerenciais que iam surgindo no horizonte. As escolas de negócios também cresceram vertiginosamente. Um de seus mais vistosos produtos, o MBA, foi associado a propriedades mágicas, como um passaporte capaz de levar seu titular para posições de destaque no topo da pirâmide corporativa. A mídia de negócios não ficou atrás. Ela cresceu e prosperou, traduzindo, adaptando e criando incansavelmente novos títulos.

A mídia de negócios é, aliás, o melhor ponto de observação do novo humor e do novo credo. O leitor que se dispuser a um breve mergulho nas revistas e nos livros de gestão notará facilmente a homogeneidade de conteúdo e estilo. Como uma companhia teatral de peça única e carreira ininterrupta, a mídia especializada replica edição após edição, livro após livro, seus conteúdos. Aqui e ali, pequenas adaptações e mudanças, apenas para garantir o sabor de novidade a um modelo que é considerado um grande sucesso.

No teatro corporativo retratado na mídia, o palco é sempre o mundo globalizado, habitado por empresas transnacionais e profissionais cosmopolitas. Os personagens são freqüentemente gerentes heróis que, por seus feitos extraordinários, transformam-se em celebridades. Suas realizações são validadas por experts acima de qualquer suspeita, gurus da consultoria ou professores de grandes escolas de negócios. As sagas são narradas à moda das fábulas infantis, temperadas com grandes desafios e impressionantes vitórias. Não há espaço para ambigüidades e meios-tons: certo e errado, bom e ruim, superior e inferior. Paradoxos e contradições não existem e o pragmatismo resolve todos os dilemas: “Vivemos em um mercado livre e vitorioso, de destino irreversível, no qual as empresas buscam constante renovação para se manterem competitivas, e seus funcionários devem pensar e agir como empreendedores autônomos e responsáveis”.

Como em toda igreja, também no templo do gerencialismo uma prática de cultos se estabeleceu. Em lugar de padres e sacerdotes, subiram ao púlpito gurus e curandeiros. Em lugar de elegias e preces, passaram a ser compilados e disseminados pungentes testemunhos de sucesso empresarial. Em lugar de histórias de redenção individuais, foram identificadas histórias de redenção empresarial. Pouco pão e muito circo. Para manter o público em contínuo êxtase, foram adicionados gurus locais aos já renomados, porém algumas vezes envelhecidos, gurus estrangeiros. Para adornar os templos, foram providenciados ícones, ídolos recém-canonizados, por façanhas reais ou fabricadas, à frente de grandes corporações.

Embora o novo credo seja único, monolítico, seus cultos são sempre renovados. Os sacerdotes do gerencialismo estão sempre próximos de seus fiéis. Eles, na verdade, confundem-se com seu rebanho. Consultores aperfeiçoam permanentemente seus modelos e ferramentas durante os projetos realizados nas empresas. Jornalistas mantêm amplas redes de contatos, das quais extraem as “últimas novidades”, editando-as e dourando-as para seu público. Professores, em cursos executivos, ensinam tanto quanto aprendem com seus estudantes.

Sólida, a nova igreja avançou firme e forte na troca de milênios. Ela passou quase incólume pelo estouro da bolha da internet e, em Pindorama, superou com tranqüilidade o avanço da estrela vermelha. Acreditou na onisciência, na inevitabilidade das eternas forças do mercado. Não se abalou. Apostou na neutralidade, reformou aqui e acolá seu discurso e seguiu imperturbável seu curso. Alguns gurus perderam sua aura, mas foram prontamente substituídos. Algumas modas feneceram, sob o peso de seu fracasso, mas outras rapidamente surgiram.

O novo humor e o novo credo ultrapassaram as fronteiras da economia e dos negócios. Avançaram pelos órgãos de governo, pela educação, pela saúde e pelas artes. Sua presença é discreta, porém visível. Empreendedorismo, sucesso e carreira são hoje temas recorrentes nos jornais, nas revistas semanais e até nas publicações femininas. As revistas de celebridades e as revistas de negócios tornaram-se primas próximas, a partilhar valores e estilos, e, eventualmente, editores e jornalistas.

Jovens vestibulandos hoje tomam decisões de escolha de carreira com base na avaliação futura do mercado e em conceitos de retorno sobre o investimento. Profissionais recém-formados sentem-se cada vez mais atraídos por ganhos rápidos no mercado financeiro. Em todas as faixas etárias, cresce o fascínio por criar negócios, tornar-se executivo ou empresário. A paixão pela carreira (rápida) substituiu a paixão pelo trabalho (sério). A conversa de negócios segue invadindo a vida social, as rodas de amigos, as relações.

Talvez tenhamos de aceitar a chateação como efeito colateral associado ao progresso econômico. Ou, quem sabe, tenhamos apenas de esperar pacientemente até que seu ciclo se complete e um novo humor lhe tome o lugar. E desejar que seja menos aborrecido do que o atual.

*Extraído de Carta Capital. Para ler o artigo completo clique em Gerencialismo.

**Professor da FGV-Eaesp. É autor dos livros Gurus, Curandeiros e Modismos Gerenciais (Atlas) e Organizações Espetaculares (Editora FGV).

Empreendedorismo

Situação do empreendedorismo corporativo no Brasil*

Marcos Hashimoto**

Recebi recentemente os resultados de uma ampla pesquisa realizada com executivos de grandes empresas como IBM, Vale, Banco do Brasil e Odebrecht sobre o nível de empreendedorismo dentro das organizações. As respostas nos dão uma idéia do estágio que nossas organizações se encontram no caminho para promover uma cultura efetivamente intra-empreendedora. Foram mais de 50 entrevistas e 500 questionários respondidos. Eis abaixo as principais conclusões:

1. As empresas não sabem o que é empreendedorismo corporativo. A maioria acha que um programa que promova as idéias dos funcionários é empreendedorismo corporativo. Não é. Pode até ser uma etapa importante, mas ser empreendedor vai além de trazer boas idéias. Envolve, sobretudo a capacidade de transformar estas idéias em realidade e, de uma forma contínua e sustentável garantir o fluxo de geração de idéias e sua implementação com o tempo. A rigor, o funcionário que não contribuiu com idéia nenhuma, mas pegou a idéia de outro e a implementou é até mais empreendedor do que aquele que teve a idéia.

2. As lideranças representam o maior empecilho ao surgimento do intra-empreendedor. Os supervisores não se sentem à vontade com funcionários empreendedores. Não estão preparados para liderá-los, pois este tipo de funcionário requer outro tipo de atenção. Eles incomodam, põem o dedo na ferida, questionam tudo, são eternos inconformados, são ousados além dos padrões, não gostam de rotinas. Liderá-los é um desafio constante que poucos estão dispostos a enfrentar. O resultado é que estes funcionários não duram muito tempo na empresa: Ou a abandonam em busca de organizações que possam lhe ceder o espaço de que precisa ou são sumariamente demitidos pelos supervisores que os vêem como ameaça.

3. As amarras da burocracia continuam representando grandes barreiras à inovação corporativa. Quanto mais complexa for a organização e, entendam complexidade como a combinação entre dados como número de funcionários, número de produtos e unidades de negócio, uso de tecnologia, amplitude de cobertura geográfica, idade e número de níveis hierárquicos, maior é a chance de se valorizar mais os processos e controles do que o negócio em si. Organizações intra-empreendedoras conseguem inverter esta relação e dão liberdade para superar barreiras burocráticas para idéias que se mostrem viáveis e relevantes.

4. Persistência do paradigma de que a inovação ou novas idéias vêm do topo da hierarquia ou dos laboratórios de P&D. Muitas empresas acreditam que a inovação só pode ser de natureza tecnológica e portanto apenas os laboratórios podem concebê-la. Muitas empresas acreditam que as iniciativas inovadoras só podem vir de quem conhece bem o negócio como um todo, ou seja,

5. Organizações que promovem o intra-empreendedorismo têm em comum um empreendedor no principal cargo. Mesmo que a gerência nos níveis intermediários não estimule o comportamento empreendedor, quando a alta liderança, na figura do fundador ou do presidente, tem perfil empreendedor, a tendência é que ele consiga expandir esta cultura pirâmide abaixo. Esta constatação comprova o fato de que a atitude empreendedora envolve mudanças culturais e que estas mudanças só acontecem de cima para baixo na hierarquia.

6. O setor de atuação da organização influencia na sua capacidade intra-empreendedora. Empresas que pertencem a setores mais dinâmicos e sujeitos a influências externas precisam ter mais flexibilidade e adaptabilidade em seus processos internos para serem competitivas, como empresas de tecnologia ou telecomunicações. Empresas que têm alta dependência de capital intelectual como bancos e consultorias possuem funcionários mais disputados no mercado de trabalho e, portanto, precisam criar mais atrativos para manter seus melhores talentos, sobretudo aqueles de perfil empreendedor.

7. Empresas de capital predominantemente nacional têm uma tendência maior de desenvolver uma cultura intra-empreendedora do que multinacionais. Isto se deve ao fato de que subsidiárias de empresas estrangeiras instaladas no Brasil têm um grau reduzido de liberdade e autonomia para tomar decisões locais. Não existe intra-empreendedorismo sem que os funcionários possam ousar e quebrar regras que impeçam o aproveitamento de uma oportunidade. Muitas empresas de capital estrangeiro dependem da matriz e tem suas ações limitadas pela centralização de decisões.

8. Forte cultura de penalização do erro. Ainda é predominante nas empresas brasileiras. Não é permitido errar. A premissa do empreendedorismo é que toda inovação é passível de falhas e erros justamente porque é inovador, ou seja, ninguém fez ainda. A intolerância ao erro faz com que o funcionário se sinta inibido de tentar coisas novas, experimentar algo diferente. Encarar o erro como parte importante do processo de aprendizado ainda é raro nas empresas.

Com isso, podemos concluir que, em uma escala de 1 a 4, em que 4 é a organização intra-empreendedora e 1 é uma organização tradicional, a maior parte das empresas brasileiras que se dizem intra-empreendedoras poderia ser classificada como estando no estágio 2. Neste caminho estas organizações ainda precisam agir para dar mais liberdade dirigida a seus funcionários, precisam saber identificar, atrair, reter e desenvolver pessoas com perfil empreendedor, precisam aprender a correr riscos e assumir o erro como parte do aprendizado, precisam aprender a destruir o antigo para dar espaço ao novo, precisam, enfim, adotar uma nova postura livre dos paradigmas das melhores práticas e da melhoria contínua para romper com padrões e estabelecer novos patamares de competitividade através da capacidade de pensar diferente, pensar como dono do negócio, pensar no futuro.

*Extraído de Administradores. Para acesso ao site clique em Hashimoto.

**Mestre em Administração pela EAESP/FGV, professor da Business School São Paulo.

Nossa opinião

Recentemente publicamos neste blog três artigos retratando nossa opinião acerca do empreendedorismo nas empresas privadas, empresas públicas e no Terceiro Setor. Para acessar os artigos na seqüência em que foram publicados clique em Empreendedorismo.