quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O almoço grátis

Apropriação indébita

Daniel Roedel*

Tem sido frequente, na grande mídia e em opiniões ditas especializadas sobre o papel desempenhado pelo Estado, a reprodução da ideia de que não existe almoço grátis, ou seja, sempre que ocorre alguma iniciativa política que atende a direitos sociais, há um custo não apontado e que é pago por alguém ou pela sociedade em geral. A frase, popularizada pelo economista Milton Friedman, expoente do pensamento liberal do século XX, é usada atualmente também para justificar a necessidade de adoção de políticas de austeridade por parte dos governos.

Mas será mesmo verdade? Não existe mesmo almoço grátis?

Se acompanharmos a trajetória das inovações incorporadas pelas empresas, podemos concluir que não é bem assim. Sabemos que o conhecimento, base da inovação, não é uma escada que se sobe a partir do primeiro degrau. Portanto, ao inovarem, as empresas se utilizam de conhecimentos de épocas pretéritas ao desenvolvimento de seus produtos. É um conhecimento acumulado pela sociedade, socialmente criado e herdado, geração após geração, que está disponível para uso. E, ao incorporá-lo, as empresas não pagam por ele, não remuneram a sociedade. Usufruem de um almoço, aliás de um banquete, inteiramente grátis. Mas como se trata de uma apropriação privada, no ambiente de negócios regido pelo deus mercado, a grande mídia e os especialistas a ignoram, valorizando e enaltecendo os grandes empreendedores e visionários que estão sempre adiante do seu tempo produzindo inovações espetaculares!

A Eureka dos inventores ou a determinação de empreendedores, por mais que estes tenham sido dedicados, é resultado desse processo social. Na dúvida, coloque-os isolados do ambiente social e aguardem que suas descobertas e ações de excelência surjam...

Essas constatações estão presentes na obra Apropriação indébita: como os ricos estão tomando a nossa herança comum, de Gar Alperovitz e Lew Daly (Editora Senac), com prefácio de Ladislaw Dawbor para a edição brasileira.

Nela, os autores discorrem sobre grandes descobertas de diversas épocas e mostram que as condições históricas e o conhecimento então disponíveis foram mais relevantes do que possíveis insights dos descobridores, que muitas vezes entraram para a história por terem sido ágeis na divulgação de descobertas e invenções. E indagam: o que é mais importante, a herança tecnológica disponível ou o esforço, a inteligência etc, individual em produzir, a partir da herança, algum fim prático ou negociável?

Na obra, é citada a instigante questão do cientista político Robert Dahl: Quem contribuiu mais para a operação da General Eletric - seus principais executivos? Ou Albert Einstein, ou Michel Faraday ou Isaac Newton?”

Portanto, sim, há almoço grátis! E, conforme os autores ele está sendo servido para aqueles que já estão muito bem alimentados”. É uma importante evidência principalmente se considerarmos a atual hegemonia do pensamento neoliberal que tenta apagar ideias e iniciativas de base coletiva e hipervalorizar os aspectos individuais como caminho para o sucesso. Uma reflexão ainda mais válida no momento em que os recursos da pesquisa no Brasil vêm sofrendo cortes sumários pelo (des)governo atual...


*Doutor em Políticas Públicas e Formação Humana; Administrador; Editor do Blog

3 comentários:

Cartur Pimentel disse...

Oportuno e instigante artigo, num momento em que os banquetes grátis tomam a forma de um final de festa de um desgoverno de penetras.

Fernando Pedroza disse...

Muito bom. Grátis, eu não diria. Mas fortemente subsidiado!

Anônimo disse...

Texto muito oportuno. Gostei.