quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista

Trouxeste a chave?



O artigo 205, da Constituição brasileira de 1988, garante a todo o cidadão deste país que “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”, assenta, portanto, sua base em três dimensões: desenvolvimento humano, cidadania e trabalho.

Se é inegável que a universalização da educação, especialmente no Brasil, trouxe avanços sem precedentes para a organização da sociedade, é igualmente verdade que as assimetrias no processo educativo têm provocado distorções na maneira como cada uma dessas dimensões é resguardada no cumprimento deste direito constitucional.

Os desafios impostos pela contemporaneidade aos indivíduos requer a ampliação do saber de modo sempre constante; seja para fazer valer os seus direitos enquanto cidadão, seja no processo de especialização necessário aos desafios de inserção plena no mundo trabalho. Mas, fundamentalmente é no tocante ao desenvolvimento humano que o conhecimento torna-se o principal ativo que os indivíduos possuem para manterem-se críticos em relação ao tipo de ambiente que se pretende compartilhar.

Desta forma, discutir o papel cultural (e político) da educação na atualidade é assunto que não deveria ser negligenciado por nossos intelectuais e cidadãos de modo geral, dada a relevância que seus desdobramentos assumem em nossa vida social.

Por isso, a edição V de Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista introduz o debate ao lançar, por meio dos artigos que a compõem, questões a serem refletidas pelos seus leitores e eventualmente desenvolvidas em seus espaços de atuação.

A edição é composta de duas partes. Dois artigos debatem de modo mais amplo o papel da Educação dentro das dimensões acima mencionadas, quais sejam, no tocante ao mundo do trabalho e às políticas educacionais. Outros dois artigos que tratam de especificidades da educação aplicada.

O artigo da Socióloga argentina Silvia Patrícia Altamirano introduz o pertinente debate acerca do desemprego juvenil no Brasil. Destaca que, a despeito de programas e políticas implementadas no sentido de reduzir o percentual de jovens desempregados, é a insuficiência de postos no mercado de trabalho o principal responsável pelo agravamento dessa situação.

Na sequência, a Educadora Isa Martins, aborda a inserção acrítica das  Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no ambiente da escola. Ao problematizar com aguda propriedade os paradoxos da política educacional implementada pelo Ministério da Educação (MEC) questiona se a lógica de utilização indiscriminada dessas tecnologias como ferramentas educacionais não estaria subordinando a interesses de mercado a mediação das relações professor-aluno. Debate altamente relevante, portanto.

Entrando no debate aplicado dos processos educacionais em áreas específicas do conhecimento, o artigo do Administrador Marcelo Marujo e da Contadora Laila Tavares trata das competências do profissional contábil de seguros, trazendo ao debate, inclusive, questões sobre a sua formação na grade curricular das graduações em Ciências Contábeis no país.

Por fim, na seção de Temas Gerais, novamente o Administrador Marcelo Marujo, em parceria com o Analista de Sistemas Fischer Jônatas Ferreira apresentam suas contribuições à análise da documentação técnica sobre o desenvolvimento e manutenção de softwares, em especial contrapondo as metodologias de desenvolvimento de software Clássica e Ágil.

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista é uma publicação independente e decorre do esforço de professores e pesquisadores que se propõem a abrir um espaço de reflexão e debate acerca de temas que contribuam para um outro olhar da realidade e para a construção de um outro mundo. Nossas edições estão disponíveis gratuitamente mediante cadastro no endereço www.plurimus.com.br.

Podem participar todos os interessados em se apresentar para esse processo plural. A próxima edição terá como tema central a questão da Participação Social, sempre dentro do nosso recorte editorial, contemplando as várias possíveis nuances em que se pode discutir um tema tão contemporâneo e relevante quanto este. Contamos com a suas ideias.

Boa leitura!


Os Editores

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Eleições no Brasil


Gestão ou política?

Daniel Roedel


Em época de eleições é muito comum que candidatos se apresentem a cargos executivos como sendo modernos gestores preocupados e atentos ao modo de como vão conduzir o poder público tanto no âmbito federal, como no estadual e municipal. E essa postura parece encontrar respaldo em parte do eleitorado que, ansioso por uma melhor qualificação na prestação dos serviços públicos, acaba por ecoar esse modo de fazer política, porém sem política.

Não é que a gestão não seja importante nem que não tenha o seu espaço na condução da coisa pública. Porém, deve se ter claro que ela possui alcances e limites que estão obviamente subordinados a uma orientação política que acaba escondida ou abandonada na intenção de se encontrar alguém para ocupar tais cargos do poder executivo, que seja capaz de fazer bem feito o dever de casa.

Essa conduta, parece ter se fortalecido a partir dos anos 1990, quando o triunfo da orientação capitalista sobre o modelo socialista, então praticado em diversos países, decretou que não havia mais disputa entre distintas visões de mundo e de organização da sociedade. Restava apenas aos países conduzirem a gestão pública com eficiência e eficácia para se alcançar vantagens competitivas num mundo integrado e plano.

Assim, a política passou a ser entendida como uma discussão saudosista e jurássica, objeto de paixão daqueles que ainda insistiam em fazer um debate ideológico que, segundo esses apologistas do fim da história, não tinha mais sentido.

Mas novamente a história insiste em desmentir esses ideólogos disfarçados de especialistas isentos. Isto porque a crise que abalou os países centrais, se alastrou por todo o planeta e que ainda persiste no mundo, mostra que a orientação única da vida dos países é a própria crise! E nela, cada vez mais a necessidade de remunerar especuladores vorazes aumenta a necessidade de uma gestão que privilegie uma dita “austeridade”. Esse modelo único tem predominado no mundo na atualidade. Assim, se eliminam ações sociais para se adquirir um superávit primário e remunerar os “investidores”.

É isso que mais uma vez Maria Lúcia Fattorelli e a Auditoria Cidadã da Dívida Pública, de cujo núcleo do Rio de Janeiro participo, mostram no importantíssimo documentário Dívida pública brasileira – a soberania na corda bamba.

Para se ter uma ideia da sangria anual, basta verificar o gráfico a seguir do orçamento federal para 2014, divulgado pela Auditoria cidadã:


Mas não se contentem aqueles que se opõem ao atual governo! A sangria vem dos governos dos generais que tiveram forte apoio de segmentos empresarias. Isso mesmo! Eles nunca foram moralizadores como atualmente se divulga.

Convidamos a todos interessados na busca de outros mundos possíveis a divulgarem o documentário e a Auditoria Cidadã. O trabalho de Maria Lúcia e da Auditoria, já apresentado neste espaço, é bastante oportuno para entendermos e nos posicionarmos com relação à situação em que vivemos. É também uma grande bandeira para aqueles que foram às ruas em 2013 no país em busca de uma sociedade melhor. Além, é claro, de ser um exemplo de que não somos vira-latas como pensa parte da elite e de setores da classe média. Nossa condição de subdesenvolvimento é a condição de desenvolvimento para os países centrais. Mas aí temos que voltar a Celso Furtado e Florestan Fernandes, entre outros importantes brasileiros, que não desistiram do pensamento crítico.

Clique aqui para assistir

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Sustentabilidade e competitividade

Empreendedorismo e sustentabilidade

Daniel Roedel

Vivemos numa época de intenso consumo estimulado por apelos da mídia, pela valorização do efêmero e pelo culto ao individualismo como caminho para o sucesso de pessoas e organizações. Numa perspectiva mais acirrada, isso conduz a uma redução do outro a mero instrumento do eu. E esse outro pode ser um indivíduo, um grupo social, uma sociedade, um país, a natureza, o Estado. Reduzidos a mero instrumento da insaciável satisfação de egos inflados valem enquanto cumprem o papel de proporcionar satisfação e sucesso no curto prazo a indivíduos e empresas vorazes e competitivas.

Mas essa busca contumaz tem produzido externalidades cada vez mais visíveis e difíceis de se ignorar. Hoje, já se percebem e evidenciam os custos socioambientais dessas práticas, bem como se constata que o processo é por excelência excludente. Afinal, não há natureza que se explore infinitamente com tal intensidade e nem competitividade que no outro extremo recompense o trabalho e proporcione a quem de fato produz a condição de usufruto tão valorizada pelo modo de vida hegemônico.

Ou seja, a sociedade de consumo não se universaliza! Mas pela ideologia dominante sempre teremos os vencedores e os perdedores, porém, sem nunca discutirmos as regras do jogo, dadas como naturais...

E como construir um outro modo possível de viver, produzir e usufruir se as décadas recentes têm sido marcadas por esse "pensamento único", que parece ter sido vitorioso com o sucesso do ideário liberal, radicalizado por um receituário neoliberal, frente ao que se disse ser sociedade fraterna e socialista e que, a despeito de conquistas, também produziu externalidades socioambientais negativas?

É possível aliarmos o desejo individual que encontra no mercado sua instável realização com um pensamento e uma prática que valorizem e reconheçam não só o direito coletivo, mas o acesso ao conjunto da população global ao produto do trabalho social? Como superar as assimetrias da atual correlação de forças e superar as externalidades negativas? Que tipo de consenso se pode construir? Há espaço para novas utopias ou seremos mesmo tragados pelo efêmero da denominada pós modernidade?

Novamente Marcelo Marujo, professor e pesquisador do tema da sustentabilidade, apresenta sua contribuição. Na obra Empreendedorismo e Sustentabilidade: responsividade às emergentes demandas socioambientais apresenta novos olhares sobre o tema e se propõe a identificar caminhos para se competir de modo sustentável. Pela trajetória do autor, já citado neste espaço em outra publicação sobre o tema vale a pena conferir. Sem desprezar o lado empreendedor, Marujo incentiva a que se perceba as vantagens competitivas de se obter resultados sustentáveis além do estritamente econômico. Procura contribuir para uma nova crença no indivíduo e na sociedade.

Vale a pena conferir!

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O Brasil e o futebol

A Copa é nossa!

Celso Evaristo Silva*

O jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980) alertava sempre sobre um dos nossos passatempos preferidos: falar mal do Brasil. Dizia Nelson: “O brasileiro é um Narciso às avessas – cospe na própria imagem !”. E também pontuava nosso complexo de inferioridade chamando-o de ‘complexo de vira-latas’. Um tablete de manteiga ganhava importância pelo simples fato de ser importado. Há quem atribua essa postura aos maneirismos da corte portuguesa (em Portugal, a elite do séc. XIX costumava falar francês nos eventos sociais). Outros juram que o tal ‘complexo’ é herança do período colonial, de povo colonizado. Não importa, a verdade aponta para o desprezo pelas ‘coisas nossas’. Os maxixes (dança e fruto), a farinha de mandioca, o samba, o choro, a rede de dormir, a feijoada e outros pratos da culinária popular eram estigmas das influências africana e indígena que a elite branca e europeizada queria longe de si, embora fosse difícil dissimular as marcas deixadas pelas culturas negra e ameríndia em nossa sociedade. Quem folhear “Casa Grande e Senzala”, do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987), ou “O povo brasileiro”, do antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), entenderá perfeitamente o pequeno drama existencial do Brasil: “Ser ou não ser o que sou ?”.

Roberto Burle Marx (1909-1994) foi um dos pioneiros na utilização de plantas originárias da flora brasileira para decorar os jardins por ele criados. Ele se indignava com a não valorização de nossa riquíssima flora: “Fui conhecer só na Europa algumas das mais belas plantas do Brasil.”

Por aqui só se plantavam olmos, pinheiros-do-canadá, salgueiros, tulipeiras, roseiras e tudo mais que viesse de fora. O paisagista teve execrado seu primeiro jardim, no Recife, por ornamentá-lo com mandacarus, ipês, juremas, araçazeiros e outras plantas silvestres típicas do sertão, associadas, quase sempre, à miséria, seca, fome, povo e, por derivação semi-consciente, ao Brasil. Poderíamos desfilar aqui uma lista imensa de criadores encantados com nossas tradições e contradições: Villa-Lobos (1887-1959), Pixinguinha (1898-1973), Tom Jobim (1927-1994), e por aí vai . . . Essa gente toda bebia na cultura popular; serviam de catalisadores entre seu refinamento rústico e a rigidez da alta cultura.

A pintora Tarsila do Amaral (1886-1973) declarou-se marcada pela cultura mineira após viagem às cidades históricas do ciclo do ouro: “encontrei em Minas as cores que adorava em criança. Ensinaram-me depois que eram feias e caipiras. Segui o ramerrão do gosto apurado . . . Mas depois vinguei-me da opressão, passando-as para as minhas telas.”

Bem, mas voltemos ao futebol; voltemos, não, nem falamos dele ainda. Falamos do Nelson e da sua constatação de nosso niilismo em relação ao que é brasileiro. E o que é mais brasileiro do que o futebol? Esse bretão chegou ao Rio de Janeiro aristocrático, de mansinho passou a perna no remo e conquistou o povão.
Em São Paulo coube a Charles Miller (1874-1953) trazer nossa primeira bola de futebol da Inglaterra e, junto com os funcionários da Cia de Gás e da Cia Ferroviária de São Paulo, organizar a primeira partida de futebol do país.

Paradoxo. O esporte estrangeiro e aristocrático se popularizou ao ponto de se tornar um traço marcante de nossa nacionalidade. Negá-lo é cuspir sim na própria imagem. A seleção, por sua vez, virou a ‘pátria-de-chuteiras’. Um dos símbolos nacionais como o hino e a bandeira. Ao assumir este posto passou a ser alvo da nossa autocrítica forte para com as coisas da terra. Imaginem só o estado de espírito daqueles que enxergam nos gostos populares a expressão maior de alienação política e tibieza moral! Não pode ser outro senão o de condenar com todas as forças do pulmão a realização de uma Copa do Mundo no Brasil: ‘Não queremos Copa!’; ‘Queremos saúde, educação, segurança e transporte de qualidade!’. Pois bem, mas, e se a população quiser Copa, saúde, educação etc etc etc? E se ela entender que ter uma coisa não impede a conquista das outras? E se ela souber separar o oportunismo político do ‘sim-ou-não-para-a-copa’, vindo tanto do governo quanto da oposição? A galera sempre separou Garrincha e Maraca prum lado e cartolagem e FIFA pro outro !

É vera a aceitação por pequena parte das camadas populares desse discurso niilista de setores de nossa classe média. Como também é verdade que o resultado final do torneio pode ter alguma influência nas eleições; porém, deixar de curtir um evento desta magnitude em nome de uma falsa consciência moral é resvalar para o que o filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900) chamou de ‘ressentimento’, ou seja, a reação de ascetas contra a alegria de viver que proíbem a si mesmos e aos outros.

* Administrador e Sociólogo. Mestrando em Políticas Públicas e Formação Humana.