quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Crise

Peso de juros sobre dívida brasileira é o maior entre os países do G20

BBC Brasil*

A proporção do PIB brasileiro gasta com pagamento de juros da dívida pública federal vem caindo nos últimos anos, mas ainda é a maior entre as 20 maiores economias do mundo e também supera a de países europeus afetados pela crise da dívida, à exceção da Grécia.


Segundo dados da Economist Intelligence Unit (EIU) sobre 25 países mais a União Europeia, compilados a pedido da BBC Brasil, o serviço da dívida brasileira consumiu 5,1% do PIB do país no ano passado, proporção inferior apenas aos 5,47% do PIB gastos pela Grécia - país que na semana passada teve aprovado um segundo pacote bilionário de resgate para garantir o pagamento de suas dívidas.


Outros países europeus afetados pela crise das dívidas têm uma proporção bem menor de gastos com juros. Portugal gastou no ano passado 3,04% de seu PIB com pagamento de juros de sua dívida, a Espanha, gastou 1,6%, a Irlanda, 3,2% e a Itália teve 4,53% de seu PIB consumido com o serviço de sua dívida.
 
Apesar de ter a segunda maior proporção de gastos com o serviço da dívida, o Brasil é apenas o 13º da lista quando considerada a proporção do endividamento total em relação ao PIB.
 
Segundo os dados da EIU, a dívida total brasileira correspondia a 59% do PIB do país ao final do ano passado, proporção bastante inferior a países como Japão (199%), Grécia (143%), Itália (119%), Irlanda (95,7%) e Portugal (93%).
 
“A alta proporção do PIB gasta com juros pode ser vista como um fator de vulnerabilidade da economia brasileira, mas nas atuais condições não são consideradas como um grande problema”, avalia Irene Mia, diretora regional para América Latina e Caribe da EIU, braço de pesquisas da revista Economist.
 
“O Brasil está crescendo solidamente, tem um bom superávit primário e vem recebendo um grande fluxo de divisas por meio de investimentos estrangeiros diretos. Tudo isso ajuda a compensar a vulnerabilidade de pagar juros tão altos”, avalia.

Queda
A proporção do PIB brasileiro gasta com o serviço da dívida vem caindo nos últimos anos – depois de chegar a 8,54% em 2003, caiu para 5,1% no ano passado e, segundo as projeções da EIU, deve ficar em 4,9% neste ano e em 4,3% em 2015.
 
Nesse período, segundo a organização, o total da dívida brasileira deve cair dos atuais 59% do PIB para 53,7% do PIB em 2015.

As projeções indicam que em 2015, após a reestruturação de sua dívida, a Grécia terá uma dívida equivalente a 76,1% do PIB e deverá gastar apenas 2,2% de seu PIB com o serviço de sua dívida, após um pico de 7,3% em 2012.
 
Outros países europeus, porém, devem verificar um grande aumento na proporção do PIB gasto com juros. A Itália deve chegar a 2015 gastando 6,1% de seu PIB com juros, Portugal deve gastar 6% e a Grã-Bretanha, que em 2010 gastou 2,95%, deve chegar a 4,6% em 2015.
 

O principal fator que eleva a proporção do PIB brasileiro gasta com o serviço da dívida é a alta taxa de juros básicos, já que a maior parte da dívida brasileira atual foi tomada no mercado interno.
 
A dívida externa, tomada em moeda estrangeira e a juros praticados no mercado de crédito internacional, representa menos de 5% do total da dívida pública brasileira, segundo os dados do Banco Central.

Estados Unidos e Japão
Os dados compilados pela EIU mostram que o peso da dívida brasileira é muito maior para a economia do país do que as dívidas do Japão, país com a maior dívida relativa ao PIB do mundo, e que os Estados Unidos, que têm a maior dívida nominal.

O Japão, cuja dívida total já ultrapassa os 200% de seu PIB, gastou em 2010 apenas 1,43% de seu PIB com o serviço dessa dívida. Essa proporção deverá ser ainda menor em 2011, com uma projeção de gasto de 0,8% do PIB com os juros da dívida.

No caso dos Estados Unidos, que se veem envoltos na polêmica discussão sobre o aumento do limite para o endividamento do país, dos atuais US$ 14,3 trilhões, esse valor deverá representar neste ano 68,3% do PIB do país, e os gastos com juros deverão consumir 1,4% da produção anual de riquezas americana.


Pagamentos com juros da dívida (em % do PIB)

País
2010
2011
2015
Grécia
5,47%
6,50%
2,20%
Brasil
5,10%
4,90%
4,30%
Itália
4,53%
4,20%
6,10%
Turquia
4,37%
3,60%
3,40%
Irlanda
3,20%
3,20%
3,80%
Índia
3,20%
3,20%
2,10%
Portugal
3,04%
3,40%
6,00%
Grã-Bretanha
2,95%
2,80%
4,60%
União Europeia
2,60%
2,60%
3,90%
França
2,02%
2,20%
4,10%
Alemanha
2,00%
1,70%
2,50%
México
1,96%
1,30%
0,60%
África do Sul
1,90%
1,90%
2,40%
Espanha
1,60%
1,90%
3,30%
Argentina
1,53%
1,20%
3,00%
Estados Unidos
1,46%
1,40%
1,40%
Japão
1,43%
0,80%
1,30%
Indonésia
1,40%
1,40%
1,20%
Austrália
0,90%
0,90%
0,70%
Venezuela
0,80%
1,30%
5,90%
Canadá
0,60%
0,60%
3,00%
Rússia
0,60%
0,60%
0,40%
China
0,50%
0,40%
0,60%
Chile
0,28%
0,20%
0,20%
Coreia do Sul
-1,30%
-1,40%
-0,90%
Arábia Saudita
-
-
-
Fonte: Economist Intelligence Unit (EIU)





Dívida total (em % do PIB)

País
2010
2011
2015
Japão
198,96%
209,20%
214,00%
Grécia
142,65%
154,80%
76,10%
Itália
119,10%
119,80%
118,00%
Irlanda
95,70%
112,60%
85,80%
Portugal
93,00%
103,50%
124,20%
Canadá
84,00%
82,70%
76,70%
Alemanha
83,40%
81,40%
75,40%
União Europeia
82,50%
83,70%
82,10%
França
82,38%
85,00%
87,30%
Grã-Bretanha
76,07%
79,90%
91,90%
Estados Unidos
62,29%
68,30%
71,00%
Espanha
60,10%
66,70%
71,40%
Brasil
59,00%
57,40%
53,70%
Índia
50,70%
51,00%
45,80%
Argentina
45,14%
43,30%
46,40%
Turquia
42,83%
41,20%
32,90%
México
36,84%
37,40%
31,30%
África do Sul
32,30%
35,40%
42,10%
Indonésia
25,72%
24,60%
19,40%
Venezuela
24,90%
32,30%
43,40%
Austrália
24,40%
25,30%
20,20%
Coreia do Sul
22,60%
22,20%
20,70%
China
18,90%
19,10%
18,40%
Arábia Saudita
17,10%
10,80%
12,60%
Chile
9,20%
10,20%
7,40%
Rússia
9,00%
8,30%
12,40%
Fonte: Economist Intelligence Unit (EIU)




*Para acesso completo clique em BBC.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O veneno está na mesa

A sociedade e o mercado

Daniel Roedel

No último dia 25 de julho, no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro, foi lançado o documentário O veneno está na mesa, de Silvio Tendler. Importante alerta sobre o uso excessivo de agrotóxicos na lavoura, a produção destaca também o grande poder que os fabricantes desses denominados defensivos agrícolas exercem nas decisões políticas no país. Em nome da eficiência orientada para o mercado estamos correndo riscos na nossa saúde, precarizando as condições de produção dos pequenos agricultores e prejudicando o meio ambiente.

O tema tem sido objeto de denúncia em diversos meios de comunicação. No dia 1o de julho o jornal Le Monde Diplomatique Brasil publicou a matéria Um país infestado por agrotóxicos, de Lia Giraldo, pesquisadora do Departamento de Saúde Coletiva da Fiocruz em Pernambuco, sobre essa prática destacando que "hoje o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo".

Na mesma linha, o portal Carta Maior publicou no dia 3 de agosto o artigo Lideramos o ranking de ingestão de venenos, de Valmir Assunção, deputado federal pela Bahia e militante do MST. O autor destaca que "diante da alta de preço das commodities, o Brasil deve ser o primeiro lugar em arrecadação nas vendas de agrotóxicos, ultrapassando os Estados Unidos". Além disso, aponta que "segundo dados da ONU, pelo menos dez variedades de agrotóxicos vendidos livremente aos agricultores no Brasil, não circulam na União Europeia e nos EUA".

Durante o debate que se seguiu à apresentação do documentário, Silvio Tendler declarou que o vídeo pode ser divulgado livremente aos interessados no assunto (para assistir ao documentário clique em Parte - 1, Parte - 2, Parte - 3 e Parte - 4).

O que parece estar em evidência é que mais uma vez a busca pela eficiência e pelos resultados econômico-financeiros estão se sobrepondo à sociedade e, até mesmo, à vida das pessoas. Uma das empresas que produzem os agrotóxicos que pulverizam as lavouras no país é a mesma que criou o agente laranja, utilizado na Guerra do Vietnã. Nesse sentido, são chocantes as cenas do documentário que apresentam crianças que nasceram deficientes naquele país.

Também é assustador o argumento de defesa ao uso intensivo de agrotóxicos apresentado por Kátia Abreu, senadora pelo estado de Tocantins e presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária, que dentre outros motivos aponta o barateamento dos alimentos e seu acesso às camadas populares como justificativa dessa prática.

Recomendamos a leitura dos artigos e a divulgação do vídeo!

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Terrorismo na Noruega

Tragédia Kafkiana

Celso Evaristo Silva*


A tragédia ocorrida na Noruega guarda macabras semelhanças com o atentado perpetrado por Timothy McVeigh, em 1995, em Oklahoma, EUA. Em ambos os casos, um terrorista de extrema-direita com simpatias expressas por teses neonazistas explode um prédio público e alega ter cometido o crime sozinho.

Mesmo aceitando-se a tese pouco provável da ação isolada de Anders Breivik, no atentado norueguês, é pouco crível que as ideias inspiradoras de ambas as tragédias tenham brotado em seus cérebros doentios por geração espontânea. Não, não brotaram. Foram implantadas lá por um mecanismo perverso de manipulação psicológica contínua à distância. Em tempos idos, pré Web, para se formar um alucinado controlável (afinal, o sujeito pode ser psicopata, mas, para seus manipuladores, ele tem que ser efetivo e atingir o alvo “certo”) era necessário primeiro encontrá-lo; depois recrutá-lo, catequizá-lo com meia dúzia de clichês com forte apelo emocional e anti-qualquer-coisa, para aguçar seu ódio latente, treiná-lo para a ação objetiva e, por fim, monitorar a fera junto com seus “coleguinhas”. Pronto, estava criada uma falange. Assim fizeram os fascistas italianos, os nazistas de Hitler, a Guarda de Ferro romena etc. Hitler e Mussolini aproveitaram-se do caos em seus países, acusaram os “inimigos internos e externos” de traição à pátria – judeus, bolcheviques, socialistas, ciganos, democratas ocidentais etc – e deram o golpe final nas cambaleantes democracias italiana e alemã, instaurando ditaduras militaristas apoiadas por grandes grupos econômicos e financeiros.

Só para ilustrar, após as eleições legislativas de 1932, o então presidente alemão, o velho Hindemburg, recebe uma carta pedindo a nomeação de Adolf Hitler para o posto de chanceler (primeiro-ministro), assinada por alguns dos mais importantes industriais e banqueiros da Alemanha, tais como Hjalmar Schacht, Kurt von Schröder, Fritz Thyssen, Friedrich Reinhardt, Albert Vögler, Fritz Beindorff, Ewald Hecker, August Rostberg, Emil Helffrich e outros.

Nos dias de hoje esse processo utilizado pelos fascistas do início do século XX seria complicado; exporia demais seus mentores, demandaria muito tempo e recursos; já não seria tão eficaz quanto um clicar de mouse. Um lunático pode sozinho em casa acessar sites divulgadores de mensagens com conteúdo intolerante e violento. Nesse ambiente virtual, ele poderá buscar os valores mais estapafúrdios pra justificar sua ânsia criminosa bem como aprender a fabricar artefatos para explodir escolas, estações de trem e tudo mais. Isso já aconteceu em vários lugares, inclusive no Brasil.

A maior dificuldade para se combater grupos terroristas atualmente é que eles não possuem uma estrutura organizada, mas são células nascidas, na maioria das vezes, pela iniciativa de poucos indivíduos. Basta aos grandes mentores das estratégias globais do terror disponibilizarem na Web: valores, ideias, informações e treinamento à distância; o resto caminha por conta dos organizadores das pequenas células. É claro que, em alguns casos, dependendo do sucesso das ações empreendidas, há o financiamento via lavagem de dinheiro, à semelhança do crime organizado. Mas, esse aspecto não é o determinante para a existência de tais grupos.

Tanto os fundamentalistas religiosos quanto os grupos neonazistas ampliam sua propaganda na internet aproveitando o clima de insegurança econômica, o desemprego e a onda de imigrantes em direção aos países ricos, para instigar o ódio e combater a democracia, seu verdadeiro inimigo. Sim, a destruição da democracia é o seu objetivo maior no longo prazo.

Ao mesmo tempo em que esses grupelhos, como o fórum Nordisk sueco, com o qual o extremista norueguês mantinha contato, partem para o apoio à ação direta, forças conservadoras mais articuladas à política tradicional pressionam a sociedade rumo a uma guinada à direita. O surgimento do Tea Party, nos EUA, o esquentamento da Frente Nacional, na França e de outros partidos ultraconservadores na Europa criam um quadro preocupante quanto ao futuro das conquistas democráticas nos países centrais.

Momentos de crise social, econômica e política sempre formam terreno fértil para o fortalecimento de grupos extremistas já existentes e brotamento de novos. É quando mais precisamos do funcionamento adequado das instituições democráticas. Quando o Estado de Direito sucumbe, sobrevém a barbárie. As circunstâncias atuais possibilitaram o recrudescimento de movimentos fascistoides até mesmo em países de forte tradição democrática.

Isso traz à mente um conto quase premonitório de Franz Kafka (1883-1924), publicado em 1914, chamado Na Colônia Penal.  Nele Kafka conta a história de um regime tirânico implantado pelo comandante de uma colônia penal. Uma máquina terrível era usada para supliciar os condenados. Após a morte do comandante e o fim do regime tirânico, seus seguidores o enterraram numa taverna, embaixo de uma mesa. Sua lápide continha a seguinte descrição:

"Aqui jaz o antigo comandante. Seus adeptos, que agora não podem dizer o nome, dedicaram-lhe esta pedra tumular. Existe uma profecia segundo a qual o comandante, depois de determinado número de anos, quando seus adeptos forem mais numerosos, ressuscitará e os chefiará para a reconquista da colônia. Tende fé e esperai!"

(*) Administrador, Sociólogo e Professor.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Desenvolvimento e cultura

Cultura e desenvolvimento local*
Ladislau Dowbor**

Antes de tudo, é preciso saber de que cultura falamos. Há uma visão estreita de cultura, no sentido ministerial, digamos assim, e na concepção pre-Gilberto Gil, de que se trata de organizar eventos simpáticos com artistas, inaugurar museus, promover eventos no teatro municipal, canalizar os impostos, com os quais empresas estão desgostosas, para financiar produtos culturais. Nada contra essa visão que é necessária e útil. Mas se trata aqui, de uma faceta apenas, e limitada, muito reminiscente de la culture, com sotaque francês, e de imortais maranhenses. Economicamente, é a cultura do mecenato, da generosidade, do verniz elegante de quem já acumulou.

Há também uma visão mais popular, sem dúvida, mas igualmente estreita, que tem sido chamada de “indústria da cultura”, e que os americanos chamam de entertainment industry. Com a expansão do rádio, do cinema, da televisão e do 3G; com a penetração da TV em praticamente qualquer residência (95% dos lares têm TV no Brasil), com crianças assistindo, em média, 4,5 horas por dia; com o controle dos meios de comunicação pertencente, basicamente, a quatro grupos privados, gerou-se uma máquina de fornecimento de produtos culturais padronizados, de alguns pontos centrais para todo o País. É uma cultura de recepção, passiva e não-interativa, centrada na geração de comportamentos comerciais, já que o seu ciclo econômico passa pela publicidade, cujo financiamento, alias, sai do nosso bolso.

O efeito é, por um lado, o consumismo obsessivo, vitimando, particularmente, as crianças; e, por outro lado, uma cultura apelativa, que trata, essencialmente, de manter a audiência, ainda que seja transformando crime em espetáculo. Trata-se, literalmente, da indústria do consumo, em que a cultura entra apenas como engodo. No conjunto, esta dinâmica gerou uma imensa passividade cultural. A criação, esta depende do criador entrar no seleto grupo que uma empresa irá apoiar, para virar, na melhor tradição do “jabá”, um sucesso. A cultura deixa de ser uma coisa que se faz, uma dimensão criativa de todas as facetas da nossa vida, e passa a ser uma coisa que se olha, sentado no sofá, publicidade de sofá incluída.

A era da internet vem, naturalmente, transtornar o confortável universo dos latifundiários das ondas magnéticas, das editoras, dos diversos tipos de intermediários. Filmes simples, mas criativos, a partir de qualquer celular encontram enorme sucesso no YouTube; músicas alegres, tristes ou debochadas passam a circular no planeta sem precisar da aprovação de emissoras; artesãs do vale do Jequitinhonha, que vendiam artesanato a 10 reais para se espantarem ao saber que eram revendidas por R$150, passaram a furar os bloqueios dos atravessadores e a vender na internet. Livros que nunca estão disponíveis nas livrarias aparecem online, com muito mais leitores. Nas universidades, surge o OCW – Open Course Ware, que assegura ciência gratuita e dinamiza a pesquisa. É a desintermediação em marcha, fim do controle absoluto de quem não cria, mas fornece o suporte material para a criação, e se apropria do copyright em nome dos interesses do autor. E sempre o argumento de que estão ajudando o pobre autor.

Na favela de Antares, no Rio de Janeiro, dotada de banda larga, os jovens plugados passam a fazer design e a prestar serviços informáticos diversos, o que lhes rende dinheiro, e fazem cultura por prazer e diversão. Nas cidades com acesso WiMax, banda larga sem fio, as crianças têm na ponta dos dedos acesso a criações científicas, lúdicas ou artísticas de qualquer parte do mundo, esbarram no inglês macarrônico mas suficiente, criam comunidades virtuais.

De certa forma, a reapropriação dos canais de criação cultural pelas comunidades gera uma outra cultura, agora, sim, no sentido mais amplo. Uma comunidade periférica ou um município distante já não são isolados, ou inviáveis, como os classificam os economistas. O resgate da identidade cultural é central para um resgate muito mais amplo do sentimento de pertencer ao mundo que se transforma, de participar da criação do novo. E o desenvolvimento é apenas em parte uma questão de fatores materiais, de investimentos físicos. A atitude criativa está no centro do processo de desenvolvimento em geral. Estamos entrando na era da economia do conhecimento, e a cultura, longe de ser a cereja no bolo dos afortunados, passa a ser o articulador de novas identidades locais.

*Extraído de Blog Acesso.
**Formado em Economia Política pela Universidade de Lausanne, na Suíça; Doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, na Polônia (1976). Atualmente, é professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, e continua com o trabalho de consultoria para diversas agências das Nações Unidas, governos e municípios. Atua como conselheiro na Fundação Abrinq e no Instituto Polis, entre outras instituições