quinta-feira, 21 de abril de 2011

Neoliberalismo


Emir Sader no Teatro Casa Grande


Leia a transcrição da palestra “Neoliberalismo e posneoliberalismo na América Latina”, que Emir Sader realizou no Teatro Casa Grande no dia 28/03/2011. Basta clicar em Brasil.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Sustentabilidade


A Sustentabilidade e o Administrador
Daniel Roedel

A Comissão de Desenvolvimento Sustentável-CDS do Conselho Regional de Administração - CRA-RJ está realizando uma série de programas sobre desenvolvimento sustentável*. O foco é a atuação dos Administradores e os cursos de graduação e de pós-graduação em Administração. O programa inaugural foi hoje e contou com minha participação, além de Marcelo Marujo, coordenador da CDS e Elisabeth Bastos, assessora de desenvolvimento organizacional do CRA. Wagner Siqueira, presidente do CRA-RJ fez a abertura.

A seguir, apresento um resumo da entrevista, no qual destaco o meu entendimento atual acerca do tema:

Porque a Sustentabilidade é importante?
Existem evidências de que o modelo de desenvolvimento econômico tanto capitalista (nos últimos duzentos e poucos anos) quanto socialista (por cerca de 70 anos) praticado, se por um lado proporcionou um considerável aumento na oferta de bens e produtos nas sociedades, por outro o fez a um elevado custo ambiental e social. E o processo de elevação desses custos se intensificou nas décadas recentes causando desequilíbrios ambientais, ameaça de esgotamento de recursos naturais não-renováveis e precarizando as condições de trabalho nos países centrais (estudos apontam que o salário médio do trabalhador americano vem diminuindo e sendo suprido pela extensão do crédito) e principalmente nos países periféricos (as condições de oferta de trabalho cada vez mais são restritivas). Tudo isso em nome de uma “eficiência” econômica que prioriza os resultados e o crescimento em detrimento da distribuição e melhoria da qualidade de vida para as gerações atuais e futuras.

Porque a Sustentabilidade é um bom negócio?
Se pesquisarmos junto à bolsa de valores de São Paulo sobre decisões de investimentos no mercado de ações, veremos que existem investidores interessados em adquirir ações de empresas que se orientam pela perspectiva do desenvolvimento sustentável. Eles entendem que o modo de se fazer negócio no longo prazo será determinado pelo equilíbrio entre os resultados econômicos, a preocupação ambiental e a justiça social. E empresas que orientam sua estratégia por tais princípios possuem maior valor de mercado. É o longo prazo se sobrepondo ao curto prazo da orientação empresarial dominante atualmente.

O que é uma Empresa Sustentável?
É aquela empresa que orienta sua estratégia e sua ação pelos princípios do triple bottom line. Ao buscar a eficiência, eficácia e efetividade de seu negócio enfatiza esse equilíbrio. Assim, não basta alcançar os resultados econômicos se eles ocasionarem um problema ambiental (ou se utilizarem insumos ambientalmente incorretos) e aviltarem as condições de trabalho ou as condições sociais de seu entorno. Mas não se trata de fazer filantropia empresarial ou ações de marketing! Trata-se de se criar e implementar estratégias de fato sustentáveis!

Se a sustentabilidade é um bom negócio porque as empresas ainda não estão neste caminho?
Talvez porque o enfoque no curto prazo seja predominante. E no curto prazo os resultados econômicos têm sido mais enfatizados. O retorno ao acionista acima de tudo pode ter comprometido a adoção de estratégias efetivamente sustentáveis. E se parte da remuneração dos executivos também está baseada nos resultados econômicos, o curto prazo tende a ser mais evidenciado. Além disso, o Estado e a sociedade civil ainda não se posicionam de modo proativo. Não nos esqueçamos que vivemos numa época pautada pelos princípios do neoliberalismo, o qual entende o mercado como senhor absoluto da determinação e regulação das necessidades humanas! Parece haver uma delegação da sociedade e dos governos ao senhor mercado como ente superior...

O consumidor já enxerga o valor de uma empresa sustentável?
Já percebemos movimentos nesse sentido, mas são ainda tênues. O apelo ao consumo independente do modo em que o produto foi gerado parece predominar. Como exemplo, no ano passado, vários trabalhadores chineses, submetidos a condições extremamente precárias de trabalho fizeram greve e alguns cometeram suicídio. O fato ocorreu numa indústria fabricante de componentes eletrônicos para diversas empresas de ponta no mercado e que projetam e nos ofertam celulares, câmeras, ipod, ipad etc. Essa crise chegou a ser noticiada nos jornais em diversas partes do mundo, mas não houve notícia de nenhuma campanha de boicote a esses produtos... Ou seja, o apelo ao consumo foi mais forte.

A sustentabilidade é um modismo?
Acredito que a sustentabilidade seja um dos grandes desafios da sociedade nesses próximos anos! Precisamos entender que os recursos naturais do planeta não são nossa propriedade exclusiva, mas devem ser utilizados também pelas próximas gerações. E se continuarmos a extrair da natureza insumos numa velocidade maior do que ela tem de reposição chegaremos a um impasse no modo de desenvolvimento que está hoje globalizado. Esse fato se agrava mais se considerarmos os recursos não-renováveis. Reverter uma prática ideologicamente incorporada de um consumo voraz e identificar um outro modo de vida é uma construção fundamental. Trata-se de construirmos uma outra cultura.

O administrador já enxerga na sustentabilidade um bom negócio?
É difícil responder, porque temos administradores distribuídos por diversos níveis hierárquicos das empresas privadas, órgãos públicos e organizações não-governamentais. No aspecto gerencial, no entanto, ainda temos exemplos preocupantes. Em nome da racionalidade estritamente econômica decisões são tomadas desconsiderando-se esses desdobramentos no curto, médio e longo prazos em relação aos aspectos socioambientais. Mas também temos administradores engajados na causa da sustentabilidade. 

Qual a postura do administrador para desenvolver a sustentabilidade na empresa?
Fundamentar a gestão empresarial pela compatibilização entre a eficiência econômica, eficiência ambiental e eficiência social pode ser um passo importante para o desenvolvimento sustentável. No entanto, a agenda da sustentabilidade deve ser assumida como compromisso que está além dos administradores, das empresas e dos governos isoladamente. É no campo ideológico que a mudança deverá ocorrer. E esse embate se dá na sociedade civil, no debate de uma nova sociedade, na construção de uma nova educação e de uma nova cultura calcados nos princípios da sustentabilidade. E o exemplo do CRA em criar uma comissão de desenvolvimento sustentável e colocar o tema como destaque nas suas ações é um importante caminho na ideia de que um outro mundo é realmente possível.

*Para acessar o áudio dessa e de outras entrevistas na Web Rádio CRA clique em CDS.

Trabalho


Foxconn e os investimentos no Brasil

Daniel Roedel

A agência Reuters divulgou que a Foxconn Technology Group, fabricante de componentes eletrônicos para diversas empresas em todo o mundo e maior empregadora privada da China, tem interesse em investir cerca de 12 bilhões de dólares no Brasil, onde atua desde 2005.

Inicialmente, a notícia pode ser motivo de comemoração e exemplo do êxito da visita da presidente Dilma Rousseff à China.

No entanto, devemos ter cautela! A Foxconn é aquela empresa que teve forte presença no noticiário em 2010, mas não por motivo de  expansão de seus investimentos. Devido às condições de trabalho praticadas, a fábrica enfrentou greves e casos de suicídio de trabalhadores. Uma de suas unidades no Brasil, instalada em Indaiatuba-SP, também esteve em greve em 2010.

A matéria da Reuters destaca ainda que:
"O Brasil tem um dos regimes tarifários mais rigorosos da América do Sul e é um dos lugares mais caros do mundo para fazer negócios, devido à pesada carga tributária, à moeda supervalorizada e aos encargos trabalhistas*".
Se o histórico recente da empresa já é motivo de alerta com relação às condições de trabalho que serão praticadas, o fato de poder contar com  apoio público, como a isenção de PIS e Cofins, reforça a preocupação com a estratégia de gestão a ser adotada pela Foxconn na conquista do mercado nacional.

Obviamente, não se trata de rejeitar um investimento tão elevado e que pode gerar milhares de empregos no país, mas de buscar garantias de que esses empregos proporcionarão condições dignas de trabalho e não repetirão as práticas recentes em busca da "eficiência" na gestão "competitiva" da empresa, conduta que não se restrige à Foxconn.

Para reforçar esse alerta vale lembrar que, em 2009, Ignacy Sachs[1] destacava que não basta criar oportunidades de trabalho se elas ocorrerem em condições abomináveis. O trabalho deve se dar em condições decentes e que respeitem a dignidade do trabalhador. E os gestores devem ter essa clareza e prática na condução de seus grupos empresariais.

*Grifo nosso.
[1] A terceira margem – em busca do ecodesenvolvimento. São Paulo: Cia das Letras, 2009.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Sustentabilidade


Hidrelétrica de Belo Monte: um caminho necessário? II

Daniel Roedel

Nesta semana a Organização dos Estados Americanos - OEA, por meio de sua  Comissão Interamericana de Direitos Humanos - CIDH, manifestou-se contra a construção da usina, "até que condições mínimas sejam observadas". Embora o fato possa causar estranheza e até rejeição por se tratar de um assunto de âmbito brasileiro, devemos entender que a recomendação está respaldada na Convenção Americana de Direitos Humanos, na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), na Declaração da ONU sobre Direitos Indígenas, na Convenção sobre Biodiversidade (CBD) e na própria Constituição Federal brasileira (Artigo 231).

O fato é que o governo reafirma que não vai desistir da construção da usina, mesmo diante de resistências e questionamentos até mesmo com relação à eficácia do projeto, o qual não tem condições de gerar a energia proposta e possui custos superiores aos estimados. A esses aspectos deve ser acrescida a restrição da participação da sociedade civil no processo de discussão, o que é inconcebível num restado de direito democrático e com um governo de origem dita popular!

Em defesa da construção da usina o governo reitera a importância da geração de energia e a solução economicamente mais vantajosa da opção hidrelétrica comparada com outras fontes, e que o país necessaitará nos próximos 20 anos dobrar a capacidade de geração de energia, cujo crescimento do consumo é estimado em 4,8% ao ano até 2020. É o desenvolvimento do país que não ser deixado de lado.

Todos esses impasses levam à expectativa de que o Supremo Tribulan Federal - STF julgue a legalidade da construção da usina.

Mas o aspecto mais importante é que vivemos numa democracia, conquistada e construída com muita luta e perdas pelo caminho. E a consolidação e fortalecimento desse processo não pode prescindir da participação efetiva da sociedade civil. Por mais que se entenda a relevância de projetos estruturantes do nosso desenvolvimento eles não podem ser concebidos e implementados sem uma sociedade protagonista. Ela deve decidir sobre o modelo de desenvolvimento a ser assumido, seus custos e consequências. Governos democráticos e com governantes que já foram vitimados pelo arbítrio devem ser propulsores dessa prática e não o contrário.