quinta-feira, 3 de março de 2011

Internet e movimentos sociais


Castells, sobre Internet e Rebelião: "É só o começo"*


Jordi Rovira**

Os meios de comunicação passaram semanas centrando sua atenção na Tunísia no Egito. As insurreições populares que se desenvolveram após o sacrifício do jovem tunisiano Mohamed Bouazizi, terminaram em poucos dias com a ditadura de Bem Ali e na sequência, como peças enfileiradas de dominó, com a “presidência” de Hosni Mubarack. Abriram-se processos democráticos em ambos os países. Manifestantes também saem às ruas árabes na Líbia, Iêmen, Argélia, Jordânia, Bahrain e Omã.

Em todos esse processos, as novas tecnologias jogam um papel chave primordial - em especial, as redes sociais, que permitem superar a censura. Ante esse desfecho histórico, Manuel Castells, catedrático sociólogo e diretor do Instituto Interdisciplinar sobre Internet, na Universitat Oberta de Catalunya, aprofunda a reflexão sob o que se passa e oferece chaves para entender um movimento cidadão que tira o máximo proveito dos novos canais de comunicação ao seu alcance.

Os movimentos sociais espontâneos na Tunísia e Egito pegaram desprevenidos os analistas políticos. Como sociólogo e estudioso da Comunicação, você foi surpreendido pela ação da sociedade-rede destes países, em sua mobilização?

Na verdade não. No meu livro Comunicação e Poder, dediquei muitas paginas para explicar, a partir de uma base empírica, como a transformação das tecnologias de comunicação cria novas possibilidades para a auto-organização e a auto-mobilização da sociedade, superando as barreiras da censura e repressão impostas pelo Estado. Claro que não depende apenas da tecnologia. A internet é uma condição necessária, mas não suficiente. As raízes da rebelião estão na exploração, opressão e humilhação. Entretanto, a possibilidade de rebelar-se sem ser esmagado de imediato dependeu da densidade e rapidez da mobilização e isto relaciona se com a capacidade criada pelas tecnologias do que chamei de "auto-comunicação de massas".

Poderíamos considerar estas insurreições populares um novo ponto de inflexão na história e evolução da internet? Ou teríamos que analisá-las como conseqüência lógica, ainda de grande envergadura, da implantação da rede no mundo?

As insurreições populares no mundo árabe são um ponto de inflexão na história social e política da humanidade. E talvez a mais importante das muitas transformações que a Internet induziu e facilitou, em todos os âmbitos da vida, sociedade, economia e cultura. Estamos apenas começando, porque o movimento se acelera, embora a Internet seja uma tecnologia antiga, implantada pela primeira vez em 1969.

A juventude egípcia desempenhou um papel chave nas insurreições populares, graças ao uso das novas tecnologias. No entanto, segundo os cálculos de Issandr El Amrani, analista político independente no Cairo, apenas uma pequena parte da população egípcia dispõem de acesso a internet. Pensa que esta situação pode criar uma brecha - usando suas próprias palavras, entre "conectados" e "desconectados" - ainda maior que a que se da nos países desenvolvidos?

O dado já esta antiquado. De acordo com uma pesquisa recente (2010), da empresa informação Ovum, cerca de 40% dos egípcios maiores de 16 anos estão conectados à Internet - se levarmos em conta não apenas as ligações domiciliares, mas também os cibercafés e os centros de estudo. Entre os jovens urbanos, as taxas chegam a 70%. Além disso, segundo dados recentes, 80% da população adulta urbana esta conectada por celulares. E de qualquer maneira, estamos falando de um país com 80 milhões de habitantes. Ainda que apenas um quarto deles estivessem conectados, já poderia haver milhões de pessoas nas ruas. Nem todo o Egito se manifestou, mas um número de cidadãos suficiente para que se sentissem unidos, e pudessem derrotar o ditador. A história da brecha digital em termos de acesso é velha, falsa hoje em dia e rabugenta. Parte de uma predisposição ideológica de certos intelectuais interessados em minimizar a importância da Internet. Há 2 bilhões de internautas no planeta, bilhões de usuários de celulares. Os pobres também têm telefones móveis e existem ainda outras formas de acessar a Internet. A verdadeira diferença se dá na banda e na qualidade de conexão, não no acesso em si, que está se difundindo com rapidez maior que qualquer outra tecnologia na história.

...

*Extraído de Diplô. Para acesso completo clique em Castells
**Universitad Oberta de Catalunya. Tradução: Cauê Seigne Ameni

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Sustentabilidade


A CSA e os desdobramentos socioambientais

Daniel Roedel


Nos últimos meses o noticiário tem divulgado diversos problemas originados pela operação da Cia Siderúrgica do Atlântico, empreendimento em parceria da ThyssenKrup e Vale do Rio Doce. De acordo com um dos sites da cia a CSA é um complexo siderúrgico na Baía de Sepetiba, Rio de Janeiro, com capacidade anual de cinco milhões de toneladas de placas de aço e que vai gerar 3.500 empregos diretos e outros 10.000 indiretos. O governo do Estado do Rio de Janeiro e a prefeitura do Rio de Janeiro participaram das negociações de instalação da siderúrgica e concederam isenção fiscal de ICMS e ISS, respectivamente.

No entanto, desde o início da operação problemas socioambientais têm sido detectados (
Estadão 1 e Estadão 2).

Em agosto de 2010 o governo do estado multou a CSA em R$ 1,8 milhões, conforme o portal R7.

Em dezembro de 2010 o Ministério Público denunciou a CSA por crime ambiental.

Considerando que estado e município são "parceiros" da empreitada, qual deveria ter sido a conduta adotada desde o início das negociações, principalmente se considerarmos que a isenção fiscal significa abrir mão de um recurso que é público e, portanto de todos os cidadãos, inclusive dos moradores de Santa Cruz?

É claro que um investimento dessa relevância não pode ser desconsiderado, principalmente num momento em que estado e município tentam retomar o rumo do desenvolvimento. É sempre muito bem-vindo! Mas quais devem ser as condições colocadas pelos poderes públicos nesses casos?

Manifeste sua opinião em nosso blog e faça o seu comentário neste espaço.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Sustentabilidade


Ecossocialismo nas latitudes ao sul do Trópico de Câncer*

Paulo Kliass**

A virada do milênio tem trazido algumas questões novas à extensa pauta das preocupações com o futuro da Humanidade. Na seqüência de eventos históricos carregados de significado, talvez o mais importante tenha sido o fim da experiência do chamado “socialismo real” na maior parte dos países do leste europeu, bem como das conseqüências provocadas sobre os países que dependiam econômica e diplomaticamente daquele bloco em todos os continentes do globo.

O crescimento, em escala global, dos movimentos preocupados com a questão ambiental fortaleceu o surgimento dos próprios partidos chamados “verdes” ou “ecologistas”, que passaram a contar com representantes nos espaços legislativos em grande parte dos países, especialmente aqueles do mundo desenvolvido. Apesar de apresentarem uma visão muitas vezes restritiva em sua pauta política, a entrada em cena desses novos atores representava o início do debate a respeito da questão ambiental de forma institucional e definitiva. Não haveria mais como ignorar esse tema, até então pouco presente de forma explícita nas agendas políticas dos Estados.

Por outro lado, cada vez mais as forças políticas que partilhavam uma visão crítica do modelo de sociedade, tal como praticado pelos países defensores de uma economia de mercado - o nosso antigo e velho conhecido modo capitalista de produção, passaram a incorporar em suas reflexões a preocupação com a questão ambiental. Ou seja, a questão da superação do capitalismo passou a estar acompanhada da preocupação com um modelo social e econômico que estivesse também referenciado na própria sustentabilidade do planeta.

O crescimento da importância e da influência políticas exercidas pelo movimento altermundista reforçou igualmente tal tendência, à medida que as sucessivas edições do Fórum Social Mundial (FSM) aprofundavam os debates a respeito das estratégias para se aproximar do lema “um outro mundo é possível”. Em 2011, no evento realizado há poucos dias em Dakar, no Senegal, a questão do ecossocialismo ocupou novamente espaço dentre os ativistas e participantes desse importante encontro internacional.

Mas afinal, o que é vem a ser mesmo esse tal de ecossocialismo?

A conjugação de forças para a consolidação desse movimento foi bastante dispersa, como tende a ocorrer com as tentativas que buscam refletir uma tendência histórica e/ou conjuntural que perpassa fronteiras nacionais e barreiras de natureza até mesmo político-ideológica. Mas, ao que tudo indica, a idéia para uma iniciativa comum concretizou-se em 2001, quando os professores Joe Kovel (1) e Michael Löwy, dentre outros, propuseram o lançamento de um Manifesto Ecossocialista em escala internacional.

Pode-se começar a ter uma idéia mais objetiva do que seja o movimento a partir das considerações presentes no próprio texto introdutório do documento, escrito há quase uma década:

“O ecossocialismo não é ainda um espectro, tampouco está baseado em partido político ou movimento concreto. É somente uma alínea racional que parte de uma determinada interpretação da crise atual e das condições necessárias para superá-la. Não temos nenhuma pretensão de onisciência. Pelo contrário, nossa meta é convidar ao diálogo, a discussão, as emendas e, sobretudo, pensarmos como podemos efetivar esta ideia. Por todos os lugares do universo caótico do capital mundial surgem espontaneamente pontos inumeráveis de resistência. Muitos são intrinsecamente ecossocialistas em seu conteúdo.” (2)

Com isso, percebe-se claramente um avanço em relação às críticas mais características do movimento ecologista. Em geral, este último sempre abriu suas baterias genericamente contra os chamados modelos predatórios e de destruição do meio-ambiente. Já os que se consideram integrantes da corrente ecossocialista procuram identificar no modelo capitalista as causas de tal degradação.

O texto do manifesto é claro quanto a essa qualificação:

“Na nossa visão, as crises ecológicas e o colapso social estão profundamente relacionados e deveriam ser vistos como manifestações diferentes das mesmas forças estruturais. As primeiras derivam, de uma maneira geral, da industrialização massiva, que ultrapassou a capacidade da Terra absorver e conter a instabilidade ecológica. O segundo deriva da forma de imperialismo conhecida como globalização, com seus efeitos desintegradores sobre as sociedades que se colocam em seu caminho. Ainda, essas forças subjacentes são essencialmente diferentes aspectos do mesmo movimento, devendo ser identificadas como a dinâmica central que move o todo: a expansão do sistema capitalista mundial.” (3)

No entanto, uma das grandes dificuldades de natureza teórica e política de tal proposição reside na maneira de como encarar a questão da inclusão de bilhões de indivíduos em condições de vida minimamente civilizatórias e a questão da redução do abismo de desigualdade sócio-econômica em escala planetária. Afinal, uma coisa é ter preocupação com o modelo de sustentabilidade em sociedades que já atingiram, há muitas décadas, padrões de bem estar social para a maioria das respectivas populações, com infra-estrutura econômica e social implantada no conjunto da sociedade e capacitação produtiva para buscar modelos de produção assim chamados de “verdes” e menos agressivos ao meio-ambiente. Já o desafio apresenta-se muito mais complexo quando se trata de sociedades – a grande maioria do mundo, diga-se de passagem – do mundo subdesenvolvido ou em desenvolvimento. A maior parte da população do mundo vive em países onde o nível de carência básica e as exigências de caráter emergencial exigem soluções muitas vezes contraditórias com o modelo um tanto idealizado do movimento ecossocialista.

A construção de uma estratégia para sustentar um modelo ecossocialista deve passar, necessariamente, pelo enfrentamento da questão do crescimento e do desenvolvimento econômicos. Afinal, não existe alternativa à inclusão social e econômica que não seja por essa via. E nesse momento, na encruzilhada do debate, surge a questão do “limite ao crescimento”, como o próprio manifesto tenta abordar, como veremos no parágrafo abaixo.

“O ecossocialismo insiste em redefinir a trajetória e objetivo da produção socialista em um contexto ecológico. Ele o faz especificamente em relação aos “limites ao crescimento”, essencial para a sustentabilidade da sociedade. Isso sem, no entanto, impor escassez, sofrimento ou repressão à sociedade. O objetivo é a transformação das necessidades, uma profunda mudança de dimensão qualitativa, não quantitativa. Do ponto de vista da produção de mercadorias, isso se traduz em uma valorização dos valores de uso em detrimento dos valores de troca um projeto de relevância de longo prazo baseado na atividade econômica imediata.” (4)

E por mais que se tente argumentar, infelizmente a questão é inescapável. Na situação atual, para a maioria da população do globo, impor limites ao crescimento significa estabelecer algum grau de escassez e de inacessibilidade ao padrão de vida já alcançado justamente pelas sociedades onde surgiram tais teorias. O grande desafio é encontrar um caminho que combine os requisitos de sustentabilidade em escala planetária com a necessária satisfação das necessidades de bilhões de pessoas que se encontram excluídas do acesso a bens básicos. E isso significa, sim, de alguma forma, ampliar o padrão atual de consumo em escala mundial. A busca de respostas, caminhos e soluções para esse dilema é exatamente o foco desse momento que parecemos viver no mundo, desse início de milênio.

Nesse sentido, parece um tanto idealista a proposição de operar exclusivamente na escala local, no plano do microempreendimento. Essa solução pode funcionar em alguns casos, em alguns países, mas dificilmente dará conta, no curto e no médio prazos, do atendimento em escala ampla. Da forma como o manifesto trata esse ponto, a livre associação de produtores pareceria capaz de oferecer a solução de generalizar a produção em bases ecológicas. Senão vejamos,

“A generalização da produção ecológica sob condições socialistas pode fornecer a base para superação das crises atuais. Uma sociedade de produtores livremente associados não cessa sua própria democratização. Ela deve insistir em libertar todos os seres humanos como seu objetivo e fundamento. Ela supera assim o impulso imperialista subjetiva e objetivamente.” (5)

Como se pode perceber, a questão é bastante complexa e não poderia ser esgotada aqui nesse espaço. Resolver essa dificuldade implica, entre outros aspectos, em reconhecer que o tratamento da sustentabilidade e dos diversos modelos a serem adotados deve obedecer, entre outros, ao critério da diversidade. E, desse ponto de vista, o ecossocialismo para as latitudes ao sul do Trópico de Câncer deveria merecer critérios diferenciados em relação àqueles da Europa e América do Norte. A maioria dos países da África, da Ásia, da América e da Oceânia apresenta carências urgentes e imediatas. O contra-argumento, igualmente relevante e essencial, é de que qualquer caminho deve levar em consideração os limites físicos do potencial de recursos físicos do planeta.

O momento atual e os anos a seguir serão fundamentais para que se encontrem soluções capazes de combinar o caminho da sustentabilidade da Terra, da redução das desigualdades entre as populações e do atendimento de padrões de vida condignos para todos. E vamo-que-vamo...

NOTAS

(1) Ver entrevista em http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17428
(2) Ver a íntegra em: http://www.iefd.org/manifestos/ecosocialist_manifesto.php
(3) Idem.
(4) Idem.
(5) Idem.
*Extraído de Carta Maior. Para acesso clique em
Carta.

**Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Enquete Plurimus


Educação e Cultura de qualidade para todos


Resultado de nossa enquete: na sua opinião qual deveria ser o foco das políticas públicas da próxima gestão do governo do estado do Rio de Janeiro?

a) Educação e Cultura de qualidade e para todos, para que se inicie um processo sustentável de reversão do trágico quadro de marginalização da juventude 67%

(b) Trabalho e Renda, como uma estratégia de diminuição das desigualdades e de inclusão social 11%

(c) Saúde e Habitação, visto que as políticas desses setores vêm sendo negligenciadas há tempos pela gestão pública 7%

(d) Planejamento urbano, incluindo projetos e ações de melhorias de infra-estrutura urbana e principalmente de segurança pública 15%

Nossa opinião

O resultado da enquete reforça que os leitores da Plurimus têm a exata percepção do grande problema social causado pela desigualdade. Quando quase 70% dos respondentes identificam que o foco das políticas públicas da próxima gestão do governo do estado do Rio de Janeiro deveria ser a promoção de educação e cultura para todos, como forma de reversão de um quadro de marginalização da nossa juventude. O consenso parece gritar o seguinte: acreditamos que condições semelhantes de partida podem permitir trajetórias exitosas.

Ficamos orgulhosíssimos com esse brinde à cidadania proporcionado pelos nossos leitores. Afinal, fim de ano, início de um novo ciclo de gestão do nosso estado, é sempre tempo de sentir esperança de que as pessoas são o ativo mais importante que o Rio de Janeiro possui. E que tratando de municiar esse povo de condições de desenvolvimento, nosso estado protagonizará uma bela história.

Não podemos deixar de mencionar, é claro, nosso segundo lugar na resposta dos leitores: planejamento urbano, isto é, infra-estrutura e segurança pública. Então fica um recado para os nossos governantes, mas sobretudo para nós mesmos, cada um de nós como uma espécie de observatório individual da realidade social que gostariamos de presenciar em nossas cidades e em nosso estado. Se essa é realmente uma demanda social desse nosso tempo, devemos nos aproximar da gestão pública, monitorar os avanços nesse sentido e cobrar energicamente resultados concretos de mudança.

Tomar parte em discussões e fóruns - sejam quais e em que quantidade forem - onde se possa fazer ouvir a voz de quem emanou os formuladores e executores das políticas públicas, do poder de representar a cada um de nós em nossas demandas mais prioritárias e urgentes. Participar ativamente da construção do Rio de Janeiro que queremos.

Feliz 2011! Votos de um ano cheio de grandes projetos e sustentáveis avanços!

Equipe Plurimus Educação e Cultura