quinta-feira, 5 de março de 2015

Mercado X cidadania

Água e democracia*


Silvio Caccia Bava


Estamos às vésperas de uma crise sem precedentes que tem seu foco no abastecimento de água para várias regiões metropolitanas. São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte já passam por situações de escassez, mas nada parecido com o que se anuncia para o segundo semestre deste ano.

As consequências são graves: indústrias, bares, restaurantes e outros negócios fechando; desemprego; escolas sem aulas; hospitais e equipamentos de saúde necessitando de suprimento regular de água; alimentos encarecendo; e, mais do que tudo, nem uma gota de água nas torneiras de muitas residências por mais de cinco dias. A saúde pública, pelas precárias condições de higiene, fica ameaçada. Grandes mobilizações sociais, violência e repressão vão estar presentes no cotidiano dessas regiões. A instabilidade política se instala.

É um pesadelo que vai se tornar realidade. E, por incrível que pareça, nenhum governante de qualquer dessas regiões apresentou para a população da sua cidade um plano de contingência, agora um plano de emergência, a fim de buscar a solidariedade da sociedade para enfrentar essa crise. Tampouco o fizeram os governos de estados com a responsabilidade pela gestão das políticas de abastecimento de água.

A urgência de encontrar formas de enfrentar a falta de água é inquestionável. Todos os esforços precisam ser feitos, especialmente para atender aos setores mais empobrecidos, que não têm alternativas. Para enfrentar a crise é preciso contar com o engajamento e a mobilização de toda a sociedade. É como numa guerra, todos precisam se unir para enfrentar o inimigo.

Para contar com a mobilização de toda sociedade, porém, é preciso transferir a ela informações, responsabilidades e poderes, democratizar a gestão e abri-la para a participação cidadã, permitir o controle social das políticas públicas. No caso concreto, submeter à cidadania o plano de emergência para enfrentar a escassez de água. E não há ninguém fazendo isso.

Esse distanciamento dos governos com o povo, no período crítico da falta de água, vai levar a enfrentamentos. A água é vital, e quem tem sede fará qualquer coisa para sobreviver. É para evitar essa situação de barbárie que precisamos afirmar o interesse público acima de qualquer interesse privado e convocar a população a se engajar em novos espaços de gestão criados para compartilhar o enfrentamento da crise.

A falta de água não é só responsabilidade de São Pedro. Ela é resultado do desmatamento da Amazônia; do uso irrestrito da água pelo agronegócio e pela mineração; do desperdício, contaminação e falta de reaproveitamento por parte da indústria; da ocupação das áreas de mananciais; da poluição dos rios e represas; da falta de esgotos em nossas cidades. O que acaba com a nossa água é o modelo de desenvolvimento que submete a sociedade aos interesses dos distintos grupos empresariais, de banqueiros a exportadores de commodities.

Enfrentar a crise significa também olhar para o futuro. Nossos governos, em sucessivas gestões, falharam no planejamento, execução e controle das políticas de recursos hídricos e saneamento básico. Deveriam ter defendido o interesse público, mas se submeteram à lógica do setor privado. Uma lógica que, assumida pelos governantes, demonstra a captura da esfera da política pelos grandes grupos empresariais e sua doutrina neoliberal. Não foi um erro de gestão trazer a crise para os dias de hoje, foi uma opção.

Assim, é preciso também considerar o modelo de gestão dessa política, recuperar seu sentido de política em defesa do interesse público e criar novos modelos de gestão em que o Estado e a cidadania tenham maior peso nas decisões que o setor privado.

A água não pode ser tratada como mercadoria, ela é essencial para a vida, ela é um direito humano, um bem público. Todos têm direito à água para beber, para cozinhar, para higiene pessoal. No entanto, afirmar esse direito é uma tarefa difícil e complexa. Para superar as causas da crise hídrica é preciso enfrentar grupos poderosos, com bancadas parlamentares para defender seus interesses no Congresso, com muito dinheiro para influir na política.

Com o bloqueio, ou captura, dos canais de negociação propiciados pela democracia, o caminho das ruas é o leito natural da expressão do desespero social, da indignação, da revolta. Aí se abre o imponderável. E os governos, neste momento, só têm a repressão como resposta às mobilizações sociais.

A pressão dos movimentos sociais e das manifestações de rua pode abrir espaço para a proposta de reforma política com Constituinte independente – a única maneira de oxigenar a democracia brasileira. Para isso, contudo, é preciso criar uma ampla coalizão na sociedade civil, como no tempo das Diretas Já!, a fim de garantir o sentido democrático dessas mudanças.


*Extraído de Le Monde Diplomatique Brasil

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Participação Social

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista

A reflexão que propusemos sobre a participação social para a nossa edição VI recebeu diversas e excelentes contribuições de professores e pesquisadores do Brasil e do exterior, fato que nos motivou a lançar mais uma edição com o tema. Assim, está disponível a edição VII de nossa revista eletrônica!

Desta edição participam o Engenheiro de Produção Ricardo Mello, com o tema Participação para o desenvolvimento local, no qual aborda a emergência do desenvolvimento local participativo como meio de fortalecimento dos territórios e de transformação social diante da crise da democracia representativa e do colapso do modelo identificado como keynesianismo-fordismo.

Em Democracia e sociedade: notas sobre o contexto de implementação da Política Nacional de Participação Social no Brasil, a Gestora Cultural Simone Amorim propõe o debate sobre a proposta de instituição da Política Nacional de Participação Social, prevista pela Constituição de 1988 e atualmente em implementação no país. Além de descrever o contexto em que a política é proposta, apresenta argumentos que ratificam a ideia de que o aumento da participação social na definição de políticas públicas pode vir a concretizar-se como um avanço democrático em direção à redução das disparidades sociais.

O tema da defesa de uma auditoria cidadã da dívida pública brasileira é retomado por Paulo Roberto dos Santos Lindesay em A dívida pública e o impacto no desenvolvimento social do Brasil. O argumento central do autor é de que por meio de informações, do debate e da ação política o cidadão pode reverter o atual quadro de dependência do país às instituições financeiras internacionais.

Luís Eduardo Fernandes debate as democracias liberais nas sociedades ocidentais no artigo Democracia burguesa e participação social. Parte do entendimento de que pelo exercício histórico é possível desvendar o conteúdo social desse regime, bem como suas mutações ao longo do tempo, de modo a entender o atual estágio de financeirização da economia mundial.

Dentro do nosso propósito de apoiar iniciativas de estudantes universitários e de pós-graduação, concluímos a edição com um tema geral. Trata-se do trabalho A logística de abastecimento e escoamento e a capacidade produtiva do mercado produtor de Juazeiro, dos discentes de Engenharia da Produção André Borges Almeida e Leandro Silva Souza, orientados pelo docente Edson Tetsuo Kogachi, que objetiva identificar os motivos que afetam a logística do mercado produtor de Juazeiro na Bahia.

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista é uma publicação on line independente e decorre do esforço de professores e pesquisadores que se propõem a abrir um espaço alternativo de reflexão e debate acerca de temas que contribuam para um outro olhar da realidade e para a construção de um outro mundo. Nossas edições estão disponíveis gratuitamente mediante cadastro no endereço www.plurimus.com.br. Dela podem participar todos os interessados em se apresentar para esse processo plural. A próxima edição terá como tema central Políticas Públicas, que será abordado dentro do nosso recorte editorial.

Boa leitura!

Os Editores

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Sustentabilidade

Desertificação: 'por que este assunto não está na capa dos jornais?'*

Najar Tubino

É uma decisão da ONU, que desde 2013 também definiu o dia 5 de dezembro como o dia mundial do solo. Em maio, entre os dias 4 e 7, ocorrerá a Conferência Internacional do Solo na Albânia com o lema: “O solo sustenta a vida: muito lento para formar, rápido demais para perder”. Um centímetro de solo demora entre 100 e 400 anos para se formar, e os pesquisadores calculam que um solo produtivo dentro da normalidade leve de três mil a 12 mil anos para a sua formação. Mesmo assim, a ONU calcula que até 2050 o mundo perderá um Brasil inteiro em solo, ou seja, 849 milhões de hectares. São 12 milhões de hectares por ano. O que é mais importante: somente 5 a 10% dessa terra chegam ao mar. Onde fica o restante? No leito dos rios, no lago das represas, tanto de abastecimento de água, como das hidrelétricas, nos córregos, nos afluentes. Como dizem os chineses: os rios do planeta estão empanturrados.

O secretário executivo da Convenção das Nações Unidas contra a desertificação, o africano Luc Gnacadja, do Benin, pergunta: por que este assunto não está na capa dos jornais? Simples, porque a mídia tradicional não trata de assuntos importantes realmente, a não ser com um viés conservador, sempre a favor do mercado. Tratar do solo, portanto, poderá desmascarar a eficiência do agronegócio, cuja receita de monoculturas é a mesma no mundo. Mas aí temos as previsões para o aumento da população e as necessidades de alimentação, o que reforça a prática destrutiva do modelo industrial de produção de alimentos. Temos que crescer 50% até 2050, dizem eles. Isso significa algo como 175 a 200 milhões de novos hectares.

A degradação avança em todo o mundo

A matemática é simples: se nada for feito para deter a erosão e o desmatamento, os dois principais fatores da degradação dos solos, em 20 anos teremos perdido mais 240 milhões de hectares, calculando 12 milhões ao ano, como faz a ONU. Em 1991, 15% das terras cultiváveis do planeta estão se degradando, agora são 24%. Eram 110 países que sofriam com o problema da erosão e com o aumento da desertificação, agora são 168.
“-Veja o caso da África, cita o secretário da Convenção contra a Desertificação, que é o continente mais vulnerável à seca e à degradação dos solos. A situação atual aponta para 45% do solo afetado pela degradação e admite-se que dois terços podem ser perdidos até 2025”, diz Luc Gnacadja.
Ele completa: “até agora a resposta humana à degradação dos solos e ao avanço da desertificação tem sido derrubar mais área de floresta para aumentar a fronteira agrícola”.

Mundo urbano não discute o rural

Um texto sobre outra conferência – em Brasília, entre os dias 25 a 27 de março- cita alguns argumentos sobre a importância do solo:
“- Os solos constituem insumo fundamental para o desenvolvimento humano. Nenhum país consegue desenvolver-se plenamente sem acesso a esse recurso natural e as suas riquezas são incalculáveis. Em interface com a atmosfera, a hidrosfera, a biosfera e a litosfera o solo é responsável pelos principais processos biogeoquímicos que garantem a vida na Terra, estoca a água e recicla nutrientes, protege contra enchentes, sequestra carbono e abriga 25% da biodiversidade”.
Ocorre que o mundo atual é urbano, digital, eletrônico e não comporta espaço nem discussão sobre assuntos considerados rurais, do campo, de outra esfera. A não ser quando da realidade bate a porta e começa a sumir a água das torneiras e, de repente, milhões ficarão sem água, como acontecerá em 2015 em São Paulo. É o que diz um trabalho divulgado pela The Nature Conservancy sobre o problema da falta de água nas grandes cidades.

Detonaram o mato dos mananciais

Se 14,3 mil hectares dos 493,4 mil hectares que formam os sistemas Cantareira, Alto Tietê, Guarapiranga e Rio Grande fossem reflorestados com mato nativo, isso diminuiria em 568,9 mil toneladas de sedimentos que são jogados nos cursos d’água, que alimentam os reservatórios.
“- A sedimentação tem impacto direto na quantidade e na qualidade da água dos mananciais. Isso ocorre porque não há cobertura vegetal ao redor dos rios e das represas. O solo exposto, além de sofrer erosão e não absorver a água das chuvas provoca o escoamento da terra para os corpos d’água, assoreando o leito e diminuindo a vida útil dos reservatórios”, como explica Samuel Barreto, coordenador do Movimento Água para São Paulo.
A região dos mananciais já perdeu 70% da mata nativa para a pecuária e agricultura. Os números levantados pela organização não governamental SOS Mata Atlântica são piores – só restam 488km2, ou seja, 21,5%. Não se trata de uma novidade brasileira. A erosão na China já consumiu 19% da área agrícola e os números apontam para descarga de terra superior no rio Yang-Tsé, o maior da Ásia, superior as dos rios Nilo e Amazonas juntos – três bilhões de toneladas ao ano.

O tempo passa, as cidades inflam, os rios são empanturrados não somente de terra, de solo perdido, juntamente com seus nutrientes e dos fertilizantes químicos, mas também de esgoto e lixo de todo tipo. É uma situação vergonhosa o que acontece no Brasil, onde o tratamento de esgoto ainda não é considerado uma prioridade, mesmo com verbas federais autorizadas. O conto do vigário de políticos sem compromisso com a população não combina com obras que ficam embaixo da terra. Hoje, ao se fazer uma pesquisa sobre assoreamento de rios e represas no país, o resultado é revoltante. Sem exceções, todos os principais rios brasileiros estão assoreados e entupidos de esgoto e lixo. Seus afluentes, córregos e nascentes foram detonados, sem mato para proteção. Tudo em nome do progresso e da modernidade, que fede com os excrementos de milhões de pessoas.

Colapso do sistema público de água

Em 2015, justamente quando o assunto solo poderá ganhar as páginas da mídia ordinária, o país será usado como exemplo do que pode ocorrer na maior metrópole, a falta de água nas torneiras paulistas. O Centro de Desastres Climáticos, do INPE calculou as estimativas de chuvas até abril – mesmo com fevereiro acima da média-, além do que a SABESP retira do sistema Cantareira. E a previsão é que o sistema seca em julho. No início de dezembro passado ocorreu um encontro na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, sobre as perspectivas de abastecimento de água na região metropolitana de São Paulo. O professor Pedro Luiz Cortês, da Uninovo, coordenador do encontro, disse:
“- Temos um sistema cada vez mais suscetível a eventos climáticos, como secas prolongadas, além do consumo cada vez mais intenso. Desde 2012 sabíamos que entraríamos num regime de falta de chuvas. O governo deveria vir a público apresentar os cenários com os quais está trabalhando”.
Outro comentário, agora do professor Reginaldo Berto, do Centro de Pesquisa de Águas Subterrâneas, da USP:
“- É preciso se preparar para o colapso do sistema público de abastecimento a partir de abril de 2015”.
Enquanto isso, a mídia ordinária faz uma contagem regressiva ao contrário, dando uma falsa impressão à população de que as coisas estão melhorando: chegou a 8,9% e continua subindo. O Sistema Cantareira, assim como outros sistemas de abastecimento, começou a entrar em colapso ao longo dos últimos anos. A essência do problema é que a classe política conservadora não considera o ambiente como parte da vida e do suporte da vida, além de combater as mudanças climáticas, como se fosse ideia de comunista. E, por essa e outras, que o país, que tem água doce em grande quantidade, dará um exemplo ao contrário ao mundo. Claro, que tudo ainda depende da decisão técnica do governador paulista.

*Extraído de Carta Maior

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Participação social

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista


Já está disponível a edição VI de nossa revista eletrônica!

Com o tema central da participação social, recebemos excelentes contribuições do Brasil e também do exterior. Por isso, na próxima edição daremos continuidade ao tema.

Desta edição participam o Historiador Hiran Roedel com o tema Criminalização, analfabetismo e favela: a face dos sem direitos, no qual faz uma reflexão histórica sobre as raízes da relação entre pobreza e criminalidade a partir da configuração da aliança de classes e do papel do Estado que tem na ação policial a principal ferramenta para lidar com as questões sociais.

Em O sistema da dívida no Brasil e no mundo, a Administradora Maria Lúcia Fattorelli disseca o que denomina “Sistema da Dívida” que transfere recursos públicos para o setor financeiro internacional comprometendo decisões estratégicas de países e as subordinando aos interesses do mercado especulativo.

A Socióloga portuguesa Ana Simões Rupio apresenta o artigo A saúde oral como forma de intervenção social e comunitária: o caso português da organização Mundo a Sorrir, no qual relata a experiência de uma organização não-governamental complementando a ação social do Estado-providência português no combate às desigualdades sociais.

A participação social das lésbicas através dos grupos políticos: uma luta contra o apagamento histórico das mulheres homossexuais é a contribuição de Núbia Carla Campos. Resultado de recente dissertação de mestrado, bem como de sua militância política, o artigo da Advogada se propõe a apresentar a atuação social e política das lésbicas por visibilidade e direitos.

Plurimus Cultura e Desenvolvimento em Revista é uma publicação independente e decorre do esforço de professores e pesquisadores que se propõem a abrir um espaço alternativo de reflexão e debate acerca de temas que contribuam para um outro olhar da realidade e para a construção de um outro mundo. Nossas edições estão disponíveis gratuitamente mediante cadastro. Dela podem participar todos os interessados em se apresentar para esse processo plural.

Convidamos os interessados em submeter artigos e resenhas para a edição VIII que terá como tema central Políticas Públicas, que poderá ser abordado sempre dentro do nosso recorte editorial.

Boa leitura!

Os Editores