quinta-feira, 30 de junho de 2011

Capital financeiro

Considerações sobre a trajetória de hegemonização do capital financeiro
no sistema do capital contemporâneo I

Hiran Roedel*

A partir de meados dos anos 60 do século XX – nos EUA –, o sistema do capital começou a configurar um processo de mutação que levaria à afirmação da financeirização da economia em escala mundial. Iniciava-se, ali, a conjuntura em que a ampliação do capital se descolava de sua condição obrigatória da produção e da circulação de mercadorias para a pura e simples transformação de dinheiro em mais-dinheiro (D-D’). Tal situação se consolidaria duas décadas depois quando a transfiguração da riqueza passaria do bem material para o bem financeiro, contaminado não somente o setor privado, como também o setor público, cuja preocupação com a liquidez assumiria a tônica dos discursos macroeconômicos [1].
A conjuntura formada na segunda metade dos anos 60 decorria do déficit no balanço de pagamento norte-americano e do significativo aumento de circulação de dólares no mercado internacional, devido à necessidade de financiamento da dívida da maior economia do mundo. Tendo como imperativo o refinanciamento desta, o tesouro dos EUA passou a lançar títulos no mercado como condição de ampliar a sua liquidez, contrariando, desse modo, as determinações do regime de Bretton Woods que condicionava a circulação monetária ao seu lastro em ouro. A situação obrigou, em agosto de 1971, o governo Nixon romper com a conversibilidade em ouro.
Outros dois fatores, no entanto, que também condicionaram as mudanças no sistema do capital, encontram-se, igualmente, na década de 1970: as duas crises do petróleo. Entre 1973 e 74, o preço do barril do petróleo quadruplicou e atingiu 12 dólares, o que voltou a ocorrer entre 1979 e 80, quando o barril chegou a 30 dólares. Tais elevações afetaram diretamente as economias dos EUA e da Europa ocidental, ambas fortemente dependentes do petróleo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo – OPEP, levando a Europa a interromper um processo de recuperação econômica que vinha desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

As economias capitalistas vinculadas e/ou dependentes desses dois centros dinâmicos, como decorrência passaram a conviver com a escalada inflacionária que teve como resposta a elevação internacional da taxa de juros. Tal situação proporcionou ainda mais o agravamento das condições sócio-econômicas dos países do chamado Terceiro Mundo, diante da diminuição da oferta de dólares no mercado internacional para financiar suas economias. Estava posta aí a necessidade de liquidez em âmbito mundial, cuja resposta foi a associação da elevação da taxa de juros com a adoção da flexibilização das taxas cambiais e o aumento das dívidas dos países periféricos na busca por dólares.

Mas não se pode avançar no diagnóstico das mudanças no sistema do capital, deixando de lado as transformações tecnológicas ocorridas no campo da comunicação.
As experiências do Vale do Silício/EUA, em fins dos anos 60 e início dos 70, auge da Guerra Fria, geraram inovações tecnológicas no campo da comunicação que permitiram a organização de uma rede de interconexão em tempo real. Uma década depois, em princípio dos anos 80, essa tecnologia ganha espaço comercial e possibilita, também, o início da conexão em rede das principais praças financeiras do mundo, permitindo a ampliação do fluxo de capitais [2].

Na passagem dos anos 70 para os 80, a afluência dos petrodólares promovida pela elevação dos preços do petróleo impulsionou a necessidade de se criar novas possibilidades de ampliação do capital gerado por essa elevação, tendo em vista a crise de liquidez que então imperava nas economias centrais. Atrair esses volumes de recursos não mais interessados pela produção, mas sim pela especulação, passou a ser a grande meta. A oferta técnico-comunicacional tornou factível a operação D-D’ em tempo real, permitindo que o capital financeiro assumisse condição preponderante até que se tornasse hegemônico na década seguinte.

A nova conjuntura alterou significativamente a acumulação de capital privado nas economias industriais. De acordo com Belluzo, a taxa de concentração entre 1960 e 1973 evoluía a 5% ao ano, enquanto que em meados dos anos 80 reduziu para 3%, sendo que na indústria manufatureira a redução foi ainda maior, pois caiu de 5,5% para menos de 2% [3]. Somente na Inglaterra, de 1979 a 1989, cresceram em dois terços os investimentos em atividade de distribuição e triplicou no setor financeiro, ficando estagnado no setor produtivo [4]. Firmava-se, nesse momento, a tendência da transferência do dinamismo no sistema do capital do setor produtivo para o setor financeiro.

Este poderia agora, facilitado pelo aparato técnico-científico informacional, apostar na intensificação das transações em um mercado integrado em rede, o que facilitaria sua mobilidade e, portanto, diminuiria o tempo necessário para a geração de mais-dinheiro. As novas possibilidades surgidas pela expansão da rede incentivaram o combate às proteções de monopólios favorecidos historicamente pelas dificuldades de transportes e de comunicação. Aumentaram, com isso, as pressões para a eliminação de tais barreiras protecionistas aos monopólios sustentados pelas condições geográficas e políticas do passado. A emergência das novas condições históricas, desse modo, é responsável pela intensificação da remodelação da formação monopolística assentada, agora, na ampliação da concorrência [5].

Para se completar a nova configuração de um mercado integrado em nível globalizado, restava ainda a eliminação do entrave do Estado nacional que deveria ser removido. Esta seria, a partir de então, a batalha travada pelo sistema do capital, mas não pela eliminação total do Estado, e sim para a sua reorganização de modo que cuidasse apenas das garantias do capital e transferisse as demandas sociais para o mercado.

1 – Cf. SOUZA BRAGA, J. Carlos de. Financeirização global – o padrão sistêmico de riqueza do capitalismo contemporâneo. In: TAVARES, Mª da Conceição e FIORI, J. Luís. Poder e dinheiro: uma economia política da globalização. Petrópolis, Vozes, 1997. Sobre o tema, ver também, na mesma obra: BELLUZZO, Luiz Gonzaga de Mello. Dinheiro e as transfigurações da riqueza. 
2 – CASTELLS, Manoel. Sociedade em rede (A era da informação: economia, sociedade e cultura), v.I. São Paulo: Paz & Terra, 1999.  pp. 58-77.
3 – BELLUZZO, Luiz Gonzaga de Mello. op.cit. p.190.
4 – Idem.
5 – HARVEY, David. A arte de lucrar:globalização, monopólio e exploração da cultura. In: MORAES, Denis de (org.). Por uma outra comunicação – mídia, mundialização cultural e poder. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 148, pp. 139-171.

*Historiador, Doutor em Comunicação e Professor Universitário

continua

Capitalismo e sustentabilidade

Crise terminal do capitalismo?*

Tenho sustentado que a crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural. É terminal. Chegou ao fim o gênio do capitalismo de sempre adaptar-se a qualquer circunstância. Estou consciente de que são poucos que representam esta tese. No entanto, duas razões me levam a esta interpretação.


A primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas particularmente, o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado. Já nos meados do século XIX Karl Marx escreveu profeticamente que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo.


A natureza, efetivamente, se encontra sob grave estresse, como nunca esteve antes, pelo menos no último século, abstraindo das 15 grandes dizimações que conheceu em sua história de mais de quatro bilhões de anos. Os eventos extremos verificáveis em todas as regiões e as mudanças climáticas tendendo a um crescente aquecimento global falam em favor da tese de Marx. Como o capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu com a cara num limite intransponível.


O trabalho está sendo por ele precarizado ou prescindido. Há grande desenvolvimento sem trabalho. O aparelho produtivo informatizado e robotizado produz mais e melhor, com quase nenhum trabalho. A consequência direta é o desemprego estrutural.


Milhões nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de reserva. O trabalho, da dependência do capital, passou à prescindência. Na Espanha o desemprego atinge 20% no geral e 40% e entre os jovens. Em Portugal 12% no país e 30% entre os jovens. Isso significa grave crise social, assolando neste momento a Grécia. Sacrifica-se toda uma sociedade em nome de uma economia, feita não para atender as demandas humanas, mas para pagar a dívida com bancos e com o sistema financeiro. Marx tem razão: o trabalho explorado já não é mais fonte de riqueza. É a máquina.


A segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está gerando. Antes se restringia aos países periféricos. Hoje é global e atingiu os países centrais. Não se pode resolver a questão econômica desmontando a sociedade. As vítimas, entrelaças por novas avenidas de comunicação, resistem, se rebelam e ameaçam a ordem vigente. Mais e mais pessoas, especialmente jovens, não estão aceitando a lógica perversa da economia política capitalista: a ditadura das finanças que via mercado submete os Estados aos seus interesses e o rentismo dos capitais especulativos que circulam de bolsas em bolsas, auferindo ganhos sem produzir absolutamente nada a não ser mais dinheiro para seus rentistas.


Mas foi o próprio sistema do capital que criou o veneno que o pode matar: ao exigir dos trabalhadores uma formação técnica cada vez mais aprimorada para estar à altura do crescimento acelerado e de maior competitividade, involuntariamente criou pessoas que pensam. Estas, lentamente, vão descobrindo a perversidade do sistema que esfola as pessoas em nome da acumulação meramente material, que se mostra sem coração ao exigir mais e mais eficiência a ponto de levar os trabalhadores ao estresse profundo, ao desespero e, não raro, ao suicídio, como ocorre em vários países e também no Brasil.


As ruas de vários países europeus e árabes, os “indignados” que enchem as praças de Espanha e da Grécia são manifestação de revolta contra o sistema político vigente a reboque do mercado e da lógica do capital. Os jovens espanhóis gritam: “não é crise, é ladroagem”. Os ladrões estão refestelados em Wall Street, no FMI e no Banco Central Europeu, quer dizer, são os sumossacerdotes do capital globalizado e explorador.


Ao agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não aguentam mais as consequências da superexploracão de suas vidas e da vida da Terra e se rebelam contra este sistema econômico que faz o que bem entende e que agora agoniza, não por envelhecimento, mas por força do veneno e das contradições que criou, castigando a Mãe Terra e penalizando a vida de seus filhos e filhas.

*Extraído de Carta Maior. Para acesso clique em Carta.
**Teólogo e escritor

Meio ambiente

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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Plurimus

Plurimus, 3 anos de blog!


No dia 23 de junho de 2008 iniciávamos o nosso blog com o artigo Responsabilidade Social Empresarial. Para marcar a data esta edição apresenta novamente o tema, agora pelo entendimento de Wagner Siqueira, presidente do Conselho Regional de Administração - CRA-RJ.

Inicialmente, nossa intenção foi oferecer um meio de informação e comunicação sobre temas como história, cidadania, desenvolvimento local, gestão etc, para apoiar os projetos educacionais que desenvolvemos. No entanto, a aceitação foi além da proposta inicial. Já contabilizamos mais de 7 mil acessos desde maio de 2009, quando começamos a registrar a frequência ao blog. O quadro abaixo demonstra que a procura por nossos artigos tem origem em diversas partes do mundo. E isso é extremamente gratificante!

Do mesmo modo, os comentários que recebemos e as participações nas enquetes que realizamos qualificam o trabalho realizado.

Essas respostas nos estimularam a experimentar o twitter como mais um modo de comunicação.

Como mais novo desafio temos agora o projeto de criação de uma revista eletrônica! É claro, porém, que a continuação e ampliação da receptividade do trabalho que realizamos serão ingredientes fundamentais para a empreitada!

Continuem nos acompanhando e participando!


Muito obrigado!

Plurimus